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Especial: Armênio Mendes, a história do homem que adotou uma cidade

Por | 13 novembro, 2017 as 4:44 pm | Um comentário

Mundo Lusíada

Faz um mês, nesta segunda-feira, que faleceu em São Paulo, aos 73 anos, o Cônsul Honorário de Portugal em Santos, um dos maiores empresários do Brasil, Armênio Mendes.
O acontecido chocou toda a comunidade portuguesa, toda a sociedade santista, a imprensa, a cidade, porque o “Seu Armenio” foi grande exemplo para diáspora portuguesa como para o universo da construção, como lembrou lamentando os ex-sócios (por 10 anos) Mário Bastos e Adelino Bastos, da Construtora Anamar, também de Santos.
A comunidade portuguesa de Santos teve uma proximidade ainda maior com ele a partir de novembro de 2008, quando o então embaixador Francisco Seixas da Costa nomeou Armênio Mendes, Cônsul Honorário em Santos. E com ajuda dos seus colaboradores, Armênio revolucionou todo o sistema de atendimento do órgão, se tornando um modelo para a rede consular portuguesa mundial. Ele passou de um faturamento de 40 mil mensais para nada menos que 300 mil.
Em uma recente entrevista, das muitas que deu ao Mundo Lusíada, Armenio Mendes falou como Cônsul, sobre o expressivo salto de 40 mil para 300 mil em receitas no Consulado: “Fechamos novembro com R$ 300 mil e isso diz tudo. Quando pegamos o Consulado, faturava R$ 40 mil por mês e hoje deu um salto deste tamanho, isso mostra que estamos em intensa atividade”, diz o responsável atribuindo, entre outras coisas, a emissão do Cartão do Cidadão e, com exceção de visto, todos os demais serviços. “O movimento tem aumentado a cada dia. Não há um dia que não temos oitenta, noventa pessoas no Consulado, e as vezes este número ainda é maior. E todos são atendidos no mesmo dia. Não temos fila no dia, nem fila para ser atendido no dia seguinte. Nós conseguimos criar um quadro [de funcionários] gerenciado pelo José Augusto, e que eu agradeço ao Mundo Lusíada mais uma vez pela indicação, conseguimos criar um quadro coeso, um quadro que mostra que a eficiência é que vence e resolve os problemas e assim é nosso quadro e quem usa utiliza aplaude e elogia, então o consulado está muito bem”, disse Armenio Mendes quando completava oito anos de gestão do órgão, já visto como um dos melhores da rede consular portuguesa.
Total apoiador do Mundo Lusíada e de diversas iniciativas lusas, o empresário foi um grande incentivador do associativismo, da cultura portuguesa, fazendo parte de várias entidades como o Centro Cultural Português e a Beneficência Portuguesa de Santos, para além de apoiar todas as entidades luso-brasileiras da região.
Fora do Brasil pudemos registrar a nota de pesar da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que recordou o comendador Mendes como uma “personalidade de enorme prestígio e carisma da comunidade luso-brasileira”.
Certa vez, no ano de 2015, numa entrevista ao Mundo Lusíada, Armênio Mendes disse que suas visitas em outras associações seriam mais frequentes, mas dependeria de “menos competição” e mais união entre entidades. “Eu sou um cônsul que, quando me deram essa tarefa eu disse que não poderia assumir porque não tenho tempo. E meu tempo é bastante escasso, mas sempre que posso compareço eu frequento sim, recebo convites de todas as entidades. O grande problema das nossas entidades, é que elas ficam competindo umas com as outras, quando elas deveriam apoiar umas as outras, e não competir”.

Dificuldade e trabalho marcou uma história vitoriosa
Natural de Chão de Couce (Distrito de Leiria), Armenio Mendes foi um dos empresários mais bem sucedidos em atividade no Brasil. Conhecido como trabalhador e aplicado em sua atividade, venceu as passadas dificuldades através da construção civil depois de ter trabalhado como marceneiro por quatro anos, caminhoneiro e ainda mecânico de bicicletas.
Sua aldeia é uma pequena vila que fica no eixo de três grandes cidades, entre Coimbra, Pombal e Tomar, em Portugal, e foi lá que ele começou a trabalhar em uma cerâmica que fabricava telhas e tijolos, para ajudar a família que tinha como principal alimento o pão de milho fabricado em casa pela mãe (Dona Maria) que tinha costume de dividir o alimento entre os quatro irmãos, ficando ela, muitas vezes sem uma parte. O cultivo de uva, azeite e milho produzidos pelos avós, ajudavam no complemento da alimentação.
Aos 18 anos, certo do que não queria, decidiu deixar Portugal para viver no Brasil, onde já tinha dois portugueses conhecidos vivendo em São Paulo. Os amigos estavam a passeio em Portugal e Armenio aproveitou a oportunidade para pedir que eles assinassem uma carta de chamada.
Muita coisa se passou na vida do emigrante batalhador que conseguiu construir seu primeiro prédio em frente da oficina onde trabalhava em Vicente de Carvalho. O imóvel com sete lojas e quatro apartamentos marcou o início da melhor fase de sua vida. Seu primeiro prédio em Santos foi construído na Rua Ricardo Pinto, 178.
Em 1971, Armenio se casou em Portugal, onde conheceu durante uma viagem a sua companheira que seria para a vida toda, Celeste Veríssimo.
O negócio da construção prosperou tanto que Armenio construiu mais de mil apartamentos em Portugal.
Estruturado pela família e para a família, Armenio cuidou dos negócios e a esposa Celeste cuidou dos filhos, que hoje estão todos formados e inseridos no negócio do pai, preparados para dar seguimento ao gigante Grupo Mendes. Hoje cada filho tem uma função, planejam os negócios e defendem os interesses seguindo a ordem natural das coisas.
Portanto esta é uma boa parte da história do emigrante Armenio Mendes que iniciou bem lá no desembarque ao Brasil em 25 de abril de 1963. E sem esmorecer começou a edificar um Grande Grupo formado por vários negócios em diferentes seguimentos.

Mundo Lusíada e a conexão feita junto ao serviço diplomático

José Augusto do Rosário e Armênio Mendes no Consulado de Santos. Foto: Mundo Lusíada

Armênio Mendes apoiava várias entidades e instituições, no entanto uma conexão marcou a relação mais próxima foi a partir do momento que a Embaixada de Portugal em Brasília confirmou ao Mundo Lusíada, através do (então) embaixador Francisco Seixas da Costa que o empresário seria o cônsul-honorário de Portugal em Santos. A notícia foi divulgada em 17 de setembro de 2008 e repercutiu em diversas mídias, inclusive e principalmente na baixada santista.
Mas antes de aceitar, Armênio queria saber qual a estrutura que o governo português pretendia manter na região para atender à comunidade, que poderia ser muito prejudicada por conta da política de contenção de gastos do Ministério dos Negócios Estrangeiros (na época), e deveria retirar o “status” de consulado e transformar numa representação consular, com menos atribuições e autonomia.
“Não tenho vaidades pelo cargo. Caso assuma, preciso fazer de forma responsável. Tenho que saber os procedimentos e a estrutura para o consulado, porque vou me considerar responsável pela comunidade”, declarou na época.
Aposta em Santos – Ao Mundo Lusíada, o embaixador Seixas da Costa revelou que após a reestruturação consular, Santos seria (e realmente foi) um modelo de atendimento, apostando num bom acolhimento pelos usuários. “Posso garantir uma coisa, se tudo correr bem como eu espero que corra, e vai correr até final do ano, nós vamos ter um modelo de representação consular na Baixada Santista, eu diria, a um nível com a capacidade de intervenção pelo menos tão boa como tínhamos no passado”, afirmou durante entrevista completando: “Mas vamos ver, e eu aceito apostas que, dentro de um ano as pessoas estarão a olhar para aquilo que é a oferta dada pela nova estrutura consular, que vai ser criada em Santos, e veremos se as pessoas estarão mais ou menos satisfeitas do que o serviço que hoje o Estado português presta”, instigou à época o Embaixador.
Em 2008 Mundo Lusíada anunciou a confirmação – Em 6 de novembro de 2008 o Mundo Lusíada publicou a confirmação da decisão tomada por Armenio Mendes. “Está confirmado. Armênio Mendes será o cônsul-honorário de Portugal na cidade de Santos. O anúncio foi feito por ele durante a assembléia de unificação entre o Centro Português de Santos e Sociedade União Portuguesa, no último dia 23”, revelou a publicação.
Na época apuramos que ele decidiu assumir o cargo após esclarecer alguns pontos sobre a preocupação do governo português com relação a permanência dos serviços consulares em Santos. “Quero dizer aos senhores também que, no fundo, exercer uma função dessas nos dá um certo orgulho, porém dá uma preocupação muito grande”, falou Armênio Mendes ao público presente, citando o convite feito há um ano pelo embaixador quando pensou que “tinha talvez pessoas que estavam mais habilitadas para assumir essa tarefa”.
“Eu pedi a ele um tempo para chegar até o Brasil e voltarmos a conversar, e fiquei surpreso com uma notícia que ele deu em primeira-mão desse convite” discursou citando a publicação veiculada primeiramente no Jornal Mundo Lusíada, numa altura em que ainda não havia uma formulação da resposta.
“Mas é uma tarefa que nós temos que assumir. E depois fiz uma reunião com o Duarte, Ernesto, Alberto, Otávio, para discutir este assunto. Eu acho que estamos todos assumindo essa tarefa. E acho também, e vou me esforçar para que isso aconteça, que acatei na condição de assumirmos essa tarefa por um período curto, e com certeza, termos lá na frente elementos para chegar ao governo português e reivindicar a volta do Consulado. Este é o meu interesse, é o que discutimos, e espero que seja isso que aconteça”. Permaneceu no cargo de 2008 até seu final em 2017.
No próximo dia 01 de Dezembro, a comunidade portuguesa da baixada santista vai reinaugurar o Teatro da cidade, que passa a levar o nome “Espaço Cultural Comendador Armênio Mendes”, dentro da Cerimônia Comemorativa do 122º Aniversário de fundação do Centro Cultural Português de Santos, em homenagem ao ilustre compatriota, que tanto dignificou a comunidade Luso-Brasileira.•



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Uma resposta para “Especial: Armênio Mendes, a história do homem que adotou uma cidade”

  1. Ma. Lourdes F L Gomes disse:

    Reconhecidamente, Armenio Mendes mudou a face da nossa amada Santos. Com seu espírito empreendedor acreditou nos seus sonhos e bravamente foi tornando-os novas realidades para esta terra que estava tão carente de um desenvolvimento corajoso e maiúsculo como o que conheceu através de suas iniciativas e realizações pessoais. Descanse em paz! Que o agradecimento do povo Santista seja uma chama de luz em seu novo caminho.
    Obrigada.

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