Trump – tragédia anunciada ou início de uma mudança necessária? Por Carlos Fino

Por Carlos Fino

donaldtrump_euaSe dúvidas ainda houvesse, o discurso de posse do novo presidente norte-americano está aí para as dissipar.

O “America First”e a rudeza verbal e gestual da linguagem não foram – como alguns disseram e muitos esperavam –  apenas uma forma de chegar ao poder: são o próprio núcleo duro e a narrativa de uma nova política que pretende simplesmente virar o mundo, tal como o conhecemos, do avesso, com os riscos daí decorrentes.

Em vez de lançar pontes para os adversários, procurando unir o país, como sempre é de bom tom no discurso inaugural, Trump preferiu um registo confrontacional, insistindo na retórica anti-sistema, mostrando assim, sem margem para dúvidas, estar efetivamente disposto a pôr em prática o que prometeu durante a campanha eleitoral.

E o que prometeu foi simplesmente isto: reverter, através de um acentuado protecionismo de inspiração nacionalista, a globalização iniciada desde o fim da Segunda Grande Guerra, e acentuada depois quando Reagan e Thatcher se entenderam, nos anos 70, para derrubar os constrangimentos ainda subsistentes à especulação bancária e à livre circulação do capital financeiro.

Nas últimas dezenas de anos, o livre comércio criou muita riqueza, facilitou o consumo no mundo desenvolvido e contribuiu para tirar muita gente da miséria extrema nos países em desenvolvimento; mas trouxe, ao mesmo tempo, o aprofundamento das desigualdades – com os capitais a furtarem-se muitas vezes a dar o seu contributo para a repartição da riqueza, fugindo sempre que possível aos impostos através dos off-shores.

Tudo isso sob o olhar distraído quando não cúmplice dos próprios Estados, que ao mesmo tempo se foram alheando da situação dos perdedores de todo esse processo de globalização: a classe operária das fábricas deslocadas, condenada ao desemprego, os miseráveis explorados à beira da escravidão, as classes médias drasticamente pauperizadas em cada crise, em particular a de 2008, cujos efeitos negativos ainda hoje persistem.

Pior ainda – as grandes organizações internacionais surgidas no pós-guerra em Breton Woods para assegurar a estabilidade económica (Banco Mundial, Banco de Reconstrução e Desenvolvimento, FMI, OCDE) e as que entretanto se formaram, como a União Europeia e os seus poderosos Banco Central Europeu e Eurogrupo, acabaram por se distanciar mais e mais do comum dos mortais.

Alheias ao sofrimento de milhões de pessoas, não hesitaram, uma e outra vez, para fazer face às sucessivas crises, em cortar nos rendimentos dos menos favorecidos, clamando sempre, em nome da ortodoxia monetária e financeira, por mais e mais sacrifícios. Ao mesmo tempo, as burocracias internacionais que as integram vivem confortavelmente instaladas, desfrutando de múltiplos privilégios, nalgumas das principais capitais do mundo – Nova Iorque, Washington, Paris, Bruxelas…

Essa a situação que nos últimos anos gerou mais e mais descontentamento com a globalização e com as organizações que as representam, criando o caldo de cultura em que foram irrompendo um pouco por todo o lado movimentos de cariz nacionalista, correntes racistas, xenófobas e homofóbicas.

Na Europa, tudo se exacerbou ainda mais com o surgimento de uma onda sem precedentes de refugiados vindos das guerras insensatas em que os Estados Unidos e os países europeus seus aliados se envolveram no Médio Oriente – Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria…

Foram assim surgindo sinais claros de que as coisas não podiam/ não podem continuar como estavam/estão. Mesmo assim, a generalidade dos líderes mundiais preferiu ignorá-los, persistindo em políticas cujos resultados negativos já eram/são evidentes.

Ainda há pouco tempo, um aliado político da chanceler alemã Angela Merkel perguntava-lhe o que ela preferia – ser menos exigente com o défice da França ou ter proximamente na chefia do Estado, em Paris, Marine Le Pen? Merkel ficou muda e até hoje não respondeu.

A surpresa Trump

Não se pode, portanto, afirmar que os dirigentes mundiais não sabiam o que se estava a passar. Os avisos foram muitos e repetidos.

O que constituiu uma surpresa – na realidade uma big surprise – foi o facto da grande viragem que já se vinha manifestando ter acabado por incluir os próprios Estados Unidos, com a eleição de Trump para a presidência, o que só por si mostra até que ponto as políticas anteriores se esgotaram.

Sempre fiéis aliados de Washington, submissos em troca de ver a sua segurança garantida e paga pelos americanos, os europeus, em particular, vêem-se agora na situação desconfortável de quem é mais papista do que o Papa ao mudar a política do Vaticano. Que fazer com este novo presidente dos EUA que quer mudar as regras do jogo?

A julgar pelas personagens que Trump escolheu para integrarem o governo, nada garante que os humilhados e ofendidos da globalização vejam os seus interesses respeitados com a nova situação: para a Educação, foi designada uma mulher que defende acima de tudo os colégios privados; para a Saúde, alguém que sempre foi contra o Obama Care por este tornar tendencialmente acessíveis os cuidados de saúde primários a toda a população… e assim por diante.

Governo de capitalistas – alguns antigos conselheiros do Goldman Sachs – quem pode garantir que estejam preocupados com os mais fracos e disponíveis para sacrificar, ainda que apenas em parte, os interesses daqueles que representam?

No plano externo, as dúvidas e possíveis implicações negativas de alguma medidas sugeridas por Trump – como aumentar drasticamente as taxas de importação sobre produtos da China e do México, por exemplo –  são ainda maiores, trazendo no bojo a possibilidade de uma guerra comercial de grandes dimensões.

Isto para já não falarmos da ideia de levar para Jerusalém a embaixada americana  em Israel, o que só poderia incendiar ainda mais o conflito entre judeus e palestinos.

Neste cenário, há já quem diga que a tomada de posse de Trump  pode ter ficado a assinalar o início de um processo que nos acabará por levar à terceira guerra mundial… uma tragédia anunciada.

Não sejamos, porém, tão drasticamente pessimistas. O pior não tem necessariamente que acontecer.

Sim, Trump é um populista; sim, Trump é caricatural e sim, Trump mostra uma imensa vontade de poder que o aproxima dos líderes autocráticos.

Mas o sistema político norte-americano, mesmo quando dominado maioritariamente por um só partido, como hoje acontece, tem em si mesmo mecanismos de contra-poder e resiliência suficientes para não se submeter a um poder arbitrário. A liberdade de expressão e de imprensa que estão no próprio cerne do sistema – e fazem parte da idiossincrasia nacional – são a melhor garantia disso mesmo.

Trump pode entrar, como já entrou, em guerra com os media – nalguns casos até com alguma razão para protestar – e tentar passar por cima deles, dirigindo-se diretamente ao povo americano, prescindindo de intermediários. Mas isso não elimina a liberdade de crítica capaz de cimentar uma corrente de contra-poder – que é aliás o que já está a acontecer.

Se não conseguir ir rapidamente ao encontro das promessas que fez – gerando mais emprego e melhores condições de vida; se for excessivamente confrontacional, a ponto de gerar enormes tensões no plano internacional, Trump será seriamente contestado e pode ver o seu mandato questionado a mais ou menos curto prazo.

Inclino-me por isso mais a pensar que Trump é sobretudo, e antes de mais, o sinal inequívoco de que as coisas não podem continuar como estão.

A aliança espúria entre liberais ortodoxos e neoconservadores, ainda que servida por um porta-voz elegante e bem falante como Obama, mas que gerou  enormes diferenciações sociais e  guerras sem fim, não pode mais sustentar-se.

Uma guerra nuclear contra a Rússia, fazendo de Pútin o tirano da vez a derrubar, depois de Saddam e Khadafi, cenário para onde aparentemente essa aliança nos encaminhava, não nos traria nada de bom, para dizer o mínimo.  Que tal hipótese tenha, para já, sido afastada é certamente um alívio.

Que a Europa tenha que passar a tratar mais da sua própria segurança, ganhando com isso maior margem de manobra – incluindo para a definição de um modus vivendi com Moscovo – também não será daí que virá mal ao mundo.

Por outro lado, a globalização já passou o ponto de não retorno. O que os líderes mundiais terão de aprender a fazer – e o G20, que agora se vai reunir, constitui bom fórum para isso – é encontrar formas de mitigar os efeitos negativos dessa mundialização cada vez maior, explorando melhor as suas virtualidades para a resolução conjunta dos grandes problemas que ainda afligem a Humanidade no seu conjunto – a luta contra a miséria extrema, as doenças incuráveis, a poluição do meio ambiente e por aí fora…

Afinal, era isso que se esperava que acontecesse depois da queda do muro de Berlim e do colapso do comunismo, já lá vai mais de um quarto de século.

Trump pode não ser – como provavelmente não será – a saída ideal. Mas ele sinaliza sem margem para dúvidas a necessidade de uma viragem profunda que há muito se tornou imperativa.

 

Por Carlos Fino
Jornalista português, nascido em Lisboa, em 1948. Correspondente da RTP – televisão pública portuguesa – em Moscou, Bruxelas e Washington, destacou-se como correspondente de guerra, em conflitos armados na ex-URSS, Afeganistão, Oriente Médio e Iraque. O primeiro repórter a anunciar, com imagens ao vivo, o bombardeio de Bagdad pelas tropas norte-americanas na Guerra do Golfo (2003). Foi conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal em Brasília (2004/2012). Escreve semanalmente para o Jornal Mundo Lusíada.

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