Frevo do Recife chega ao Porto em filme de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca

Da Redação
Com Lusa

A dança e cultura do frevo de rua, característica do Recife e do estado do Pernambuco, chega na quinta-feira ao Maus Hábitos, no Porto em Portugal, num filme da brasileira Bárbara Wagner e do alemão Benjamin de Burca.

“Faz Que Vai”, o primeiro filme da colaboração entre os dois artistas, em 2015, é acompanhado por uma exposição “em formato instalação” com curadoria de Moacir dos Anjos, que fica patente de 13 de junho até 28 de julho, nesta sala do Porto.

A dupla ocupa o pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza 2019, com o projeto “Swinguerra”, nova reflexão sobre uma manifestação de cultura popular, a ‘swingueira’, e tem aqui uma primeira passagem por Portugal, este ano, antes de o Curtas Vila do Conde, em julho, apresentar “Rise”, Urso de Ouro de curta-metragem, no Festival de Cinema de Berlim, no passado mês de fevereiro.

Em entrevista à Lusa, Bárbara Wagner prefere destacar o programa educativo em torno da apresentação no Maus Hábitos – Espaço de Intervenção Cultural, que teve como ponto de partida o trabalho de pesquisa — também integrado por Moacir dos Anjos –, iniciado na Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, o “maior acervo de fotografias do frevo de rua”, tradição que remonta “ao início do século passado”.

A oficina sobre frevo e ‘voguing’ orientada por Edson Vogue, marcada para julho, no Porto, em data a definir, foi “uma das condições colocadas” pela dupla para aceitar o convite, a que se junta uma aula aberta de Moacir dos Anjos, com moderação de Rute Rosas, na terça-feira, 11 de junho, na Aula Magna da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.

Os dois artistas começam “sempre a trabalhar nos filmes sem saber como se vai desenrolar”, aproximando-se depois da metodologia “dos próprios artistas de rua ou outros” com que trabalham, para chegar a uma estrutura própria.

“Estávamos interessados em como uma tradição como o frevo, que sai das ruas no começo do século XX, começa a popularizar-se no Carnaval e nas festas com bandas militares. Porque isto vem da capoeira e dos escravos da cidade, que têm ali uma força para abrir alas e a frente para a banda passar. Vai-se desenvolvendo numa espécie de manifestação”, conta Bárbara.

Não foi uma dança celebrada até aos anos 1970, “quando o Governo estadual faz cartilhas a ensinar os passos do frevo”, abrindo o caminho para as primeiras escolas do estilo, em Recife e Olinda.

Na opinião dos artistas, não há tanto interesse no frevo do ponto de vista da arte contemporânea, por causa “da violência do ‘marketing’ do Carnaval”, e a expectativa é agora “saber como é que isto é visto em Portugal”.

A dupla queria fazer uma conferência em que pudesse discutir as várias questões envoltas na obra, o que não será possível por estarem a rodar uma outra obra, na Alemanha. E Bárbara Wagner mantém a convicção de que um realizador “não faz militância, antes quem filma”, como é o caso dos dançarinos.

“O que falta, depois, é o nosso circuito de arte ‘super elitista’ aproximar-se dessas realidades. A conversa tem de ser mais direta. Por exemplo, não faz sentido mostrar o ‘Faz Que Vai’ se o Edson Vogue não apresentar a oficina”, acrescenta.

Num trabalho que “atravessa questões de gênero, classe e raça”, porque “são estes os corpos que hoje dançam o frevo”, há um olhar sobre o “reinventar do frevo”, mas também a forma como a cultura se liga a uma comunidade, à semelhança de um filme sobre a música ‘brega’, na mesma região, que passou pela Fundação de Serralves em 2017 (“Estás vendo coisas”).

“O nosso filtro era o frevo. Não queríamos comentar diretamente gênero, classe ou raça, porque são estes os corpos que hoje dançam o frevo. Não precisamos de apontar um problema, ou ilustrar um gesto”, aponta a brasileira à Lusa.

Para Bárbara Wagner, o corpo pode ser um espaço de dissidência pela própria dança e atividade, até contra as “estruturas de poder e operação carregadas nos corpos negros” desde o período colonial.

Benjamin de Burca vê “dois corpos a morar dentro da mesma pessoa”, ao olhar para um dançarino, num exercício identitário que também atravessa “Rise”, uma coprodução documental, estre Brasil, Canadá e Estados Unidos, com jovens à procura de se afirmarem como canadianos sem renegarem o passado de imigrantes ou de descendentes de imigrantes.

A curta-metragem premiada em Berlim será mostrada em Vila do Conde, explorando a ocupação de uma estação de metro em Toronto, no Canadá, por uma série de ‘rappers’ e poetas imigrantes ou descendentes de imigrantes, maioritariamente da zona de ascendência caribenha a habitar casas sociais em Toronto, desde os anos 1970.

Juntam-se em encontros para “partilhar histórias, origens diferentes” e “textos, canções, poesia de protesto ou dança”, com um elemento em comum: “Aqueles jovens quererem ser vistos como canadianos”, explica Bárbara Wagner à Lusa.

Esta será a segunda passagem de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca por Vila do Conde, depois de, em 2018, terem mostrado no festival a ‘curta’ documental “Terremoto Santo”, sobre a música ‘gospel’ e a religião evangélica, que gerou reações “bem intensas e diversas”.

Os autores de “Swinguerra”, que exibem no âmbito da Bienal de Veneza, vão voltar a Portugal em julho, para acompanharem a exibição de “Rise”, no festival.

A escolha de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca para Veneza foi efetuada pela Fundação Bienal de São Paulo, que a anunciou no passado mês de dezembro.

A instalação em torno de “Faz Que Vai” fica patente até 28 de julho no Maus Hábitos, no Porto.

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