Especial 200 anos: A Matriarca da Independência do Brasil

Carta da Imperatriz Leopoldina a seu pai Francisco I, Imperador da Áustria em 6 de abril de 1823

“(…) É meu dever fazer o papel de intercessora do nobre povo brasileiro, pois todos nós lhe devemos algo; nas circunstâncias mais críticas, este povo fez os maiores sacrifícios, que demonstram amor à pátria, para proteger sua unidade e o poder real .Todas as províncias se unem pelo mesmo interesse, mesmos anseios. Agora, nada mais me resta desejar senão que o senhor, querido pai, assuma o papel de nosso verdadeiro amigo e aliado;quanto a mim,pode estar convicto de que sempre permanecerei brasileira de coração, pois é o que determinam minhas obrigações como esposa e mãe, e a gratidão a um povo honrado que se dispôs, quando nos vimos abandonados por todas as potências, a ser nosso esteio, não temendo quaisquer sacrifícios ou perigos(…)”

Elza Fiuza/ABr

>> "Imperatriz Leopoldina com seus filhos", óleo de A. Failutti, Museu Paulista, São Paulo.

Ferrar cavalos não ficava bem a um filho de reis. Falar gíria e conviver com a gente do povo, também não. Rondar pelas senzalas com o olhar interessado nas escravas de boa aparência, menos ainda. Mas dom Pedro de Alcântara fazia tudo isso com muito prazer. A praxe da monarquia pouco lhe interessava. As normas da etiqueta palaciana o aborreciam. Os cortesãos portugueses criticavam tão estabanada displicência e todo o Rio de Janeiro achava graça nas excentricidades do filho de dom João VI e de dona Carlota Joaquina.

Ele sentia-se brasileiro. Viera para cá menino e aqui fizera-se homem. Portugal era para ele uma reminiscência, uma terra distante que mal conhecera. Da Lisboa onde nasceu a 12 de outubro de 1798 praticamente só se lembrava do Palácio de Queluz onde tinha passado a sua infância.

Cultura não era o grande interesse do jovem Pedro. Foi um estudante desinteressado que só aprendeu latim o suficiente para ler alguns clássicos da antiguidade e que assistia as aulas de pintura, francês e inglês com grande enfado. Daquilo que lhe ensinavam, a música era a matéria que mais o atraía e sem grande esforço aprendeu a compor e a tocar algumas peças.

Uma vida dinâmica ao ar livre deu-lhe um físico robusto embora a sua saúde não fosse das melhores. A erisipela frequentemente prendia-o à cama durante dias seguidos e ataques epilépticos prostravam-no desfalecido e delirante, em crises que colocavam a Corte em pânico.

A criadagem do Paço de São Cristovão murmurava a respeito das suas saídas noturnas mas os seus casos eram passageiros. Noemy Thierry, bailarina de uma companhia francesa dona de inegáveis encantos foi a primeira por quem dom Pedro se apaixonou. Contudo, não poderia haver momento mais inoportuno para esse episódio sentimental. Após demoradas negociações diplomáticas, estava a caminho do Brasil, a Arquiduquesa Maria Leopoldina Josefina Carolina de Habsburgo, nascida em Viena a 22 de janeiro de 1797, filha do Imperador Francisco I da Áustria e de sua segunda esposa, Maria Teresa da Sicília, e que, aos 20 anos fôra escolhida para esposa de dom Pedro.

O casamento, por procuração, realizou-se em maio de 1817 e a 5 de novembro ela chegou ao Rio de Janeiro acompanhada por uma comitiva de damas de companhia, mordomo, alguns capelães, um bibliotecário, médicos e uma guarda real composta por seis homens. Coubera ao Marquês de Marialva a tarefa de convencer os Habsburgos quanto a sensatez dessa união que nada mais era do que uma estratégia destinada a aliar o Rio de Janeiro a uma das cortes mais poderosas da Europa. Marialva seduzira os austríacos com uma exibição suntuosa de riquezas do Novo Mundo, distribuindo barras de ouro, diamantes e jóias à elite austríaca.

Segundo o historiador Alberto Rangel, a chegada da austríaca teria causado espanto aos reis, que esperavam uma bela princesa. Era, segundo ele, de “estatura meã, grosso pescoço das vienenses, um quê de corcunda, beiços polpudos dos Habsburgo no rosto vultoso e carregado de pigmentação vermelha, o nariz desgraciosíssimo, cabelos espichados, olhos azuis com a expressão de assustados, a organização robusta e inelegante”.

Muitas eram as diferenças entre eles. A comunicação foi difícil com o hesitante português de dona Leopoldina e o sofrível francês de dom Pedro mas dona Leopoldina parecia encantada quando o acompanhava nos demorados passeios pelos arredores da Quinta da Boa Vista e organizava freqüentes saraus musicais no Paço de São Cristovão. Muitos se impressionavam com a erudição e conduta de dona Leopoldina que falava fluentemente além da sua língua pátria, francês, inglês e italiano e que conhecia tão bem belas-artes quanto botânica.

Em 1819 nasceu a primeira filha do casal, dona Maria da Glória. E nos anos seguintes de um casamento que durou apenas nove anos tiveram mais seis filhos: dom Miguel, dom João Carlos, dona Januária Maria, dona Paula Mariana, dona Francisca Carolina e dom Pedro de Alcântara que viria a ser o segundo Imperador do Brasil.

O Príncipe Regente não demorou a retomar o seu estilo de vida e as sucessivas aventuras amorosas tornaram-se públicas, como a paixão por dona Domitília de Castro Canto e Melo, com quem teve duas filhas. Apresentada à Corte recebeu o título de Marquesa de Santos passando a morar numa casa próxima ao palácio o que causou grande sofrimento à dona Leopoldina. Vinda dos salões de Viena sentia-se deslocada no mundo fechado das damas, sequer alfabetizadas, e de uma Corte repleta de banalidades e intrigas mesquinhas.

As suas cartas para a irmã Marie Louise, segunda esposa de Napoleão Bonaparte, passaram a demonstrar uma certa melancolia: “(…) a verdadeira felicidade não existe neste mundo e tremo constantemente na expectativa de um desgosto ou aborrecimento. Não posso saber com certeza se tenho um amigo no meu marido e se sou realmente amada(…) o modo de vida onde a gente nunca vai ao teatro, nunca a uma sociedade, a não ser a das pessoas vistas todos os dias, é, para uma pessoa acostumada a divertimentos, para desvanecer (…)”.

Em 25 de abril de 1821 a Corte voltou para Portugal e dom Pedro, Príncipe Regente, permaneceu no Brasil com amplos poderes contrabalançados por um Conselho de Estado. Boas intenções não lhe faltavam para exercer a Regência. Queria manter-se fiel ao pai e, ao mesmo tempo, dar vida nova ao Brasil, estabelecer um equilíbrio nacional. Mas, para isso, havia poucas condições: o Banco do Brasil estava à beira da ruína e o povo insatisfeito.

Dona Leopoldina assumiu a Regência em agosto de 1822 enquanto o marido viajou para São Paulo na tentativa de apaziguar os ânimos descontentes com a Coroa portuguesa. De Portugal chegam-lhe notícias de que o Reino planeja uma ação contra o Brasil rebaixando-o ao estatuto de simples colônia. Sem tempo para aguardar o retorno de dom Pedro, dona Leopoldina, aconselhada por José Bonifácio de Andrada e Silva e utilizando os seus atributos de chefe interina do governo, reúne-se na manhã de 2 de setembro de 1822 com o Conselho do Estado e assina o Decreto da Independência, declarando o Brasil independente de Portugal.

Em seguida convoca um oficial de sua confiança, enviando por meio dele o decreto a dom Pedro, juntamente com uma carta sua e outra de José Bonifácio, solicitando, com empenho, a pronta decisão do Príncipe Regente em favor da independência. Acrescentou ainda papéis recebidos de Lisboa através dos quais, às margens do riacho do Ipiranga, ele toma conhecimento das críticas que lhe faziam em Lisboa e dá o grito histórico de “Independência ou Morte”.

Enquanto aguarda o retorno do marido, dona Leopoldina idealiza a bandeira do Brasil independente, misturando o verde da família Bragança ao amarelo ouro da família austríaca dos Habsburgos e a 1 de dezembro de 1822 foi coroada Imperatriz do Brasil na mesma cerimônia de coroação e sagração de dom Pedro I.

Sobre as causas da sua morte em 11 de dezembro de 1826 há divergências. Para alguns historiadores teria falecido com uma infecção generalizada ocasionada por um aborto espontâneo seguido de uma série de “ataques de nervos” enquanto o Imperador se encontrava no Rio Grande do Sul inspecionando as tropas durante a Guerra da Cisplatina. Para outros, dentre eles Eugenio dos Santos (“ D.Pedro IV”, editora Rio de Mouro, Portugal, 2006), Carlos Oberacker Jr (“A Imperatriz Leopoldina, Sua Vida e Sua Época, Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1973) e Isabel Lustosa (“D.Pedro I- Um Herói sem Caráter”, editora Companhia das Letras, São Paulo, 2006), dona Leopoldina teria morrido em conseqüência das agressões sofridas durante um acesso de raiva do seu marido. Esses fatos teriam ocorrido em 20 de novembro de 1826 quando novamente assumiria a Regência do país para que dom Pedro pudesse viajar para o sul.

Pretendendo demonstrar que eram apenas boatos as suas relações extraconjugais, dom Pedro decidiu que o “beija-mão” à Regente seria feito na Sala do Trono numa cerimônia com a presença da Marquesa de Santos. Dona Leopoldina teria considerado isso uma grande humilhação e afrontando o marido recusou-se a participar. O Imperador a teria arrastado pelo palácio, agredindo-a com palavras e pontapés. Como testemunhas do episódio apenas os três envolvidos, as damas de companhia e os médicos que ampararam dona Leopoldina já em avançado estado de gravidez.

Na véspera de sua morte descreveu para a irmã Marie-Louise, numa carta ditada a Marquesa de Aguiar, o “terrível atentado que sofrera do marido na presença da amante”.

Morreu no Palácio de São Cristovão, na Quinta da Boa Vista, e foi sepultada no Convento da Ajuda. Quando este foi demolido, em 1911, os seus restos mortais foram trasladados para o Convento de Santo Antonio, também no Rio de Janeiro até que em 1954 foram transferidos definitivamente para um sarcófago de granito verde ornado de ouro, sob o Monumento do Ipiranga, na cidade de São Paulo.

Em 1972, durante as comemorações do Sesquicentenário da Independência, os restos mortais de dom Pedro I (com exceção do seu coração embalsamado que permaneceu numa redoma na Igreja da Lapa, na cidade do Porto, em Portugal) foram trazidos para o Brasil e depositados num outro jazigo ao lado do de dona Leopoldina, a melancólica e humilhada Imperatriz do Brasil.

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