Emigração e Interioridade no festival de curtas-metragens do Cine Clube de Viseu

Da redação
Com Lusa

A interioridade é o tema da próxima edição do Vista Curta, festival de curtas metragens do Cine Clube de Viseu, que tem este ano por convidado o cineasta José Vieira e o seu cinema sobre emigração.

A exibição de “Vitalina Varela”, de Pedro Costa, Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, e a presença de cineastas como João Botelho e Regina Pessoa reforçam igualmente a programação do certame, que decorre de 29 de outubro a 02 de novembro.

“O início e o fim do festival têm como panorama o cineasta José Vieira, que é o autor em destaque nesta edição, porque serão projetados quatro longas metragens, todas inéditas no Cine Clube de Viseu, e com uma importância grande no sentido de ser uma das principais cinematografias a estudar e a ter uma representação sobre a questão da emigração portuguesa, que foi particularmente importante, também nesta região, e também na questão da interioridade”, explicou o presidente do Cine Clube, Rodrigo Francisco.

O responsável destacou a projeção de quatro filmes deste realizador nascido em Oliveira de Frades, distrito de Viseu, que vive em França desde os sete anos, quando se fixou em Paris, com a família, em 1965, na sequência da emigração do pai.

“Os trabalhos de José Vieira nem sempre têm o reconhecimento que merecem, porque se trata de um realizador que, se calhar, vive à margem de um esquema normal de produção. Merecem toda a visibilidade que se possa dar (…) e, por isso, vamos fazer todo um trabalho em redor” da sua obra, adiantou o responsável.

A título de exemplo, acrescentou que, na abertura do festival, a 29 de outubro, o filme “Fotografia Rasgada”, que aborda o tema da emigração a salto, vai às escolas de Viseu e de Vouzela, na região de Lafões, enquanto José António Cunha, do Cine Clube do Porto, terá uma conversa aberta ao público com o realizador José Vieira.

Um outro filme do realizador, “O Pão que o Diabo Amassou”, filmado em Adsamo, na Serra do Caramulo, concelho de Vouzela, será apresentado no Teatro Viriato, com a presença de alguns dos moradores da aldeia, no último dia do festival, a 02 de novembro.

O filme acompanha os habitantes ao longo do tempo, regista memórias que vão da emigração à Guerra Colonial, sem esquecer as sequelas da ditadura, na repartição da própria terra.

“Souvenirs d’un Futur Radieux” e “A Ilha dos Ausentes” serão as outras duas obras de José Vieira em exibição em Viseu.

O Vista Curta apresenta ainda “Vitalina Varela”, que chega às salas de cinema em 31 de outubro, e que tem como diretor de fotografia Leonardo Simões, natural de Viseu, que marcará presença no auditório do Instituto Português da Juventude.

“É um trabalho emblemático para o cinema português, seguramente incontornável neste ano de 2019, porque ganhou, provavelmente um dos prêmios mais importantes que um filme português já conquistou, o Leopardo de Ouro no Festival de Cinema de Locarno”, além do Leopardo de melhor interpretação feminina para a protagonista que dá nome ao filme, contou Rodrigo Francisco.

Ainda na sétima arte, o festival apresenta em competição “o maior número de curtas-metragens de sempre”, com 13 filmes a concurso, disse Margarida Assis do Cine Clube de Viseu, que garante uma seleção “mais exigente”, numa programação não só “extensa, como também de muita qualidade”.

Vista Curta contempla duas ‘masterclasses’ com Mário Gajo de Carvalho, da produtora Filmes do Gajo, e Andreia Alves de Oliveira, fotógrafa e investigadora, que tem em curso o projeto “Um lugar chamado diáspora”, onde tenta responder a questões como: que efeitos tem a emigração nas pessoas, o que sente quem emigra e como é que a fotografia pode auxiliar no entendimento desse fenômeno.

O festival apresenta também duas ‘sessões concerto’. “Piratas, Sereias, Ostras e Baleias”, conjunto de curtas-metragens de Nelson Boles, Yoran Benz e Olesya Shchukina, com a música ao vivo do Space Ensemble, um coletivo do Porto que usa todo o tipo de instrumentos, dos mais clássicos aos improvisados, para criarem efeitos sonoros; e imagens dos Daltonic Brothers, visualizadas ao som da música de Vítor Rua, um filme onde cada sequência de imagem existe por si só, em vez de participar em qualquer progressão.

O Vista Curta tem ainda como convidados, além de José Vieira, João Botelho e Regina Pessoa, que farão sessões nas escolas, para o terceiro ciclo, secundário e universitário, no âmbito da formação de públicos – estando já esgotadas, segundo a organização, algumas sessões esgotadas.

“O Vista Curta traz um cinema novo à cidade e ao público de Viseu cidade e da região (…) Conquistou um lugar não só na exibição de filmes do circuito independente ou do cinema de autor, mas também na promoção das práticas de realização, através da formação que faz”, destacou o vereador da Cultura de Viseu.

Jorge Sobrado elogiou a temática deste ano, “bastante cara ao município, a interioridade e o território”: “É muito interessante que se faça pensamento a partir das imagens e da criação do cinema sobre os fenômenos da interioridade”.

O Cine Clube teve o apoio de 50 mil euros, do programa Viseu Cultura, no biênio 2018/2019.

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