São Paulo, a cidade que corre parada

 

São Paulo é uma cidade caótica. E tudo assim se transformou a partir da segunda metade do século XIX, ou seja, há pouco mais de 110 anos. Antes disso, não passava de um local relativamente tranqüilo, onde era possível se ver bovinos andando em suas ruas, com iluminação pública feita por lampiões de gás que permaneceram funcionando até 1936, quando os últimos exemplares foram definitivamente apagados, trocados pela luz elétrica. Tempo em que se mover através de suas ruas era simples, apesar do calçamento ruim. Uma brutal metamorfose a localidade passou.
Os primeiros carros começam a aparecer. Em 1903, o prefeito da cidade de São Paulo, Antonio Prado, instituiu algumas leis para regulamentar o uso dos automóveis que começavam a circular. A partir de 1919 o mercado automobilístico no Brasil ganhou força, quando a Ford decidiu instalar a empresa em solo brasileiro. A primeira linha de montagem e o escritório da Ford foram na rua Florêncio de Abreu, centro da cidade de São Paulo. Em 1925, foi a vez da General Motors do Brazil abrir seu negócio no bairro paulistano do Ipiranga para fabricar os Chevrolets, migrando a fábrica para o ABC pouco depois. Com Getúlio há o incentivo à produção nacional de automóveis. Com JK volta-se a priorizar a entrada das empresas estrangeiras. E assim o setor automobilístico se torna um elemento especialmente importante dentro de nossa economia, ganhando, com o passar do tempo, mais relevância, poder e ocupando o espaço de outros meios de transporte, que não acompanharam a mesma evolução.
O país no mesmo período não ampliou e muito menos aperfeiçoou sua malha ferroviária. O metrô, tão importante para o deslocamento dentro das cidades, também demorou a ser dinamizado, em relação à força dada pelos governos, em suas várias esferas, para o automóvel como veículo de transporte.
Como parametro, no começo do século 19, as ruas da capital inglesa estavam completamente entupidas de carroças, carruagens e ônibus de dois andares puxados a cavalos. O primeiro metrô do mundo foi fruto de uma decisão bastante inteligente, dada a necessidade. Em janeiro de 1863, começaram a circular regularmente os metrôs em Londres. Outras importantes localidades passaram a copiar a idéia. O criador do trem subterrâneo britânico, Charles Pearson, disse certa vez que a única solução para os constantes engarrafamentos era transferir o transporte coletivo para cima de viadutos ou para debaixo da terra. E assim fizeram. Como ainda não havia sido inventada a energia elétrica, os trens subterrâneos de Londres começaram sendo movidos a vapor. Milhares de pessoas, especialmente pobres, perderam suas casas nas demolições para a construção. Mas, foi desta maneira radical que começou a mudança na Europa. Por aqui, a coisa teve uma caminhada bem diferente. Somente em meados dos anos 1960 o prefeito Faria Lima montou uma comissão de estudos para pensar o pioneiro metro paulistano. Em 1974 a linha norte-sul começou a funcionar em São Paulo. Façam as contas: 111 anos depois dos pioneiros.
Voltando a falar dos ‘fon-fons’, Santos Dumont, o pai da aviação, foi o primeiro a ter seu ‘carango’ por estas terras. Um Peugeot, importado da França, em 1891. Passados 48 anos, em 1939, o número de veículos em São Paulo foi para 43.657 carros e 25.858 caminhões. Na estatística feita pelo Governo Federal, em 2003, na Capital já havia 4.382.907 veículos. A maior cidade brasileira representava cerca de 25% da frota nacional. Praticamente tínhamos um carro para cada dois habitantes. Olhando-se em perspectiva lá de trás é uma progressão absurda. Considerando-se que o carro é um forte objeto de desejo assim como um importante meio de locomoção, ao chegarmos o ano de 2011, mais precisamente o mês de março, a frota de veículos na cidade de São Paulo – 11 milhões de habitantes – ultrapassou os 7 milhões de unidades. A informação foi confirmada pelo DETRAN – Departamento de Trânsito do Estado de São Paulo em 4 de abril quando às 9h foram registrados 157 km de lentidão em toda a capital paulista, o que representava trânsito ruim em 18,1% dos 868 km de vias monitorados na cidade.  Mais um recorde batido. E o interessante em relação a tudo isto é que pouco tempo depois, o diretor de operações do Metrô de São Paulo veio a público informar que os trens estão absolutamente lotados nos horários de pico e estamos no nosso limite técnico. Não é que não temos mais trens para colocar em circulação: não há mais ‘margem de segurança’ para entrar novos trens. O espaço construído está esgotado. Pessoas descem no meio do caminho por conta do aperto, na esperança de aguardar outro vagão. Uma loucura total. Em horário de pico já se comprovou que é mais rápido atravessar a Av. Paulista a pé – a forma mais velha de locomoção – que de carro. E agora?
É, portanto, um pequeno quadro histórico que demonstra falta absoluta de planejamento, de visão administrativa. Os gestores não se precaveram em relação ao aumento da população e a necessidade de locomoção dentro de uma cidade que se alastrava rapidamente. Priorizaram o carro particular. Esqueceram das ciclovias, dos trens, do transporte coletivo. Esqueceram do verde, criando uma selva de asfalto e concreto. Hoje, com a melhora do padrão de vida, os mais humildes também conseguem conquistar seu carro. A culpa é dos pobres? Para eles deve restar apenas a lotação sem conforto? Óbvio que não! Está tudo errado, de pernas para o ar. Contudo, prefeito por aqui ultimamente parece mais plataforma para políticos alçarem vôos pessoais mais altos. A cidade está um transtorno. Perde-se paciência, energia e combustível. Se tempo é dinheiro, como dizem muitos, este negócio está dando muito prejuízo. Um alto custo cujas resoluções não parecem estar próximas, ao contrário, os recordes de paralisações é que se desenham como inevitáveis no breve futuro.
São Paulo, 8 de Abril de 2011

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais; Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação; Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo.

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