Na Semana Santa o Golpe Não Prosperou

A Semana Santa não foi produtiva como esperavam os defensores do impeachment de Dilma. Já no domingo, o bispo de Crateús (CE), dom Ailton Menegussi, em sua homilia, criticou o clima de acirramento de ânimos dentro da sociedade brasileira. Enfaticamente, o religioso afirmou: “escutem bem isto: o que está acontecendo no Brasil é que já estão tratando de ‘criminosos’ antes de se provar as coisas”. De forma clara, apontou que obviamente nenhum bispo concorda com a existência da corrupção. Apóia-se que sejam feitas investigações, que as denúncias sejam apuradas e, uma vez provadas, então sim, que se punam os culpados. Mas, também destacou para seu publico outro aspecto importante: “os culpados não são desse partido ou daquele só não, não sejamos bobos: tem corrupto em tudo que é partido, e a corrupção não foi inventada de quinze anos pra cá. Não sejamos inocentes”. E, como se não bastasse, alertou ainda: “nós não aceitamos que partido político nenhum aproveite essa crise para dar golpe no país […] Nós não estamos interessados de trocar governo, simplesmente: nós queremos que o país seja respeitado. Que os cidadãos brasileiros sejam respeitados […] Não vamos simplesmente apoiar troca de governos, de pessoas interesseiras, que estão apenas querendo se apossar, porque são carreiristas. […] Tem muita gente lá posando de santinho, mas que nunca pensou em pobre e não pensa em pobre. Tão fazendo discurso bonito porque querem o poder”. Palavras que acabaram por repercutir nas redes sociais e que deram ainda mais eco à posição da CNBB já exposta ano passado: a retirada da presidenta de maneira inadequada, com motivação de ordem estritamente embasada no exercício da política voltada para interesses contrários ao bem comum, enfraqueceria as instituições no País e a Constituição precisa ser respeitada.

Externamente, também importantes organizações manifestaram a preocupação com os caminhos percorridos pela situação política e econômica nacionais. Organismos como a Cepal – Comissão Econômica para América Latina e o Caribe e o Escritório do ACNUDH – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos manifestaram-se contrários a eventos no país que podem causar danos ‘duradouros’ e ‘interromper o mandato conferido’ à presidenta nas urnas. A OEA – Organização dos Estados Americanos, através de seu secretário-geral, elogiou e declarou respeito à Dilma, defendeu a garantia do seu mandato, a continuidade das investigações da Operação Lava Jato e o princípio de igualdade de todos perante a lei. Em suas palavras, “a democracia não pode ser vítima do oportunismo, mas deve ser sustentada pelo poder das ideias e da ética”.

Ao longo da semana, várias universidades pelo País, assim como sindicatos, tiveram manifestações favoráveis à democracia e ao Estado de Direito. Juristas declararam apoio a Dilma em encontro no DF. Ao mesmo tempo, um lance de coragem, frente à grande pressão midiática e das oligarquias patrocinadoras do impedimento, o ministro da Suprema Corte, Teori Zavascki, decidiu que a pauta Lula voltaria ao STF e criticou o juiz curitibano Sérgio Moro por divulgação de áudios. Ele terá que prestar explicações. Para o ministro, “a divulgação pública das conversações telefônicas interceptadas, nas circunstâncias em que ocorreu, comprometeu o direito fundamental à garantia de sigilo, que tem assento constitucional”. O fato, como era de se esperar, irritou profundamente os conservadores e partidários do golpe. Em atitude sintomática, o roqueiro Lobão divulgou o endereço residencial do filho do ministro e incitou seus fãs a protestarem no local. Ao mesmo tempo, escreveu Escosteguy, da Época, em seu tweeter: “vai ser difícil conter o ânimo da população. A revolta começou agora e vai piorar intensamente”. Isto tudo não é intimidação, amedrontamento? De todo modo, a ação do ministro foi de grande importância para o cenário atual, de violência contra a Constituição. E a Polícia Federal reforçou sua segurança particular, por via das dúvidas.

Outro caso, para concluir, foi um novo vazamento da Lava Jato. Numa prática que já se tornou banal entre a justiça e a imprensa, desta feita na 23ª etapa de investigação, intitulada “Operação Acarajé”, divulgou-se uma lista de prováveis repasses de propina da empreiteira Odebrecht a políticos. Governistas e da oposição. A relação traz mais de 200 nomes e os valores recebidos. E, deveras interessante: Lula e Dilma não estão. Porém, comparecem vários nomes graúdos, defensores da moral e pró-impeachment, como Aécio Neves (PSDB-MG), o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), o ex-governador Eduardo Campos (PSB), o senador José Serra (PSDB-SP) e muito mais. Por exemplo, Aécio Neves caminha assim para o sexto envolvimento em delações. Eduardo Cunha, outras tantas, fora os documentos das contas no exterior. A população, cada vez mais, vai percebendo o desinteresse da justiça por determinados nomes em relação a outros, a quem a PF e o Ministério Público agem com determinação. E, curiosamente, o Jornal Nacional, que sempre dá com detalhes as listas e os envolvidos com a Lava Jato, desta feita resolveu silenciar. Esperará a definição da PF e também porque a ‘lista é muito extensa’, explicaram no ar.

Em meio a esta lama de hipocrisias, atravessamos a Semana Santa. Tomara que as palavras de dom Menegussi, bispo de Crateús, inspire as pessoas ao devido respeito à ordem e ao bem comum. De fato, o impeachment não é golpe, porque é aspecto constitucional. Porém, se torna golpe, porque não está assentado em fatos concretos, em responsabilidade comprovada. Que a Páscoa dê forças para a travessia rumo a um tempo de maior justiça, transparência e respeito às urnas. Nossa frágil democracia não pode ser crucificada mais uma vez. São Paulo, 24 de março de 2016.

 

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais; Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação; Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo

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