2015: UM ANO ÁRIDO

2014 foi um ano que se apresentava vibrante e cheio de emoções. Tínhamos a concluir uma Copa do Mundo, tão aguardada e debatida, assim como grandes eleições, onde o primeiro mandato de Dilma seria colocado à prova para a avaliação da população, assim como também avaliados seriam os administradores estaduais e os congressistas. Ano agitado para a nação.

Pois bem. A Copa do Mundo terminou sem que todas as suas obras e promessas de legado positivo para as cidades tivessem sido concluídas. Apesar dos parabéns da organizadora FIFA e dos visitantes estrangeiros que saíram satisfeitos, sobraram, por exemplo, muitos questionamentos de superfaturamento, de inúteis ‘elefantes brancos’ – caso de estádios no Amazonas, RN e no Centro Oeste, regiões de fracos campeonatos locais – e os vexames, dentro do gramado, propriamente dito, com duas derrotas históricas para Alemanha e Holanda, que nos tiraram o caneco em casa.

Quanto às eleições, tivemos uma disputa extremamente acirrada. Foi muito elevada a temperatura que chegou, em certos momentos, a fazer emergir nas redes sociais horrorosas expressões de preconceito racial e de insultos às camadas populares, ‘culpadas’ por apoiarem as políticas sociais dos últimos governos e que lhes deram uma condição melhor de vida. No final das contas, o governo conseguiu a almejada vitória. Mas, foi um resultado pouco cômodo, ficando 51% x 49% na disputa dos votos válidos, embora a pequena diferença percentual se traduza em ‘um Uruguai’ de votos. Quarto mandato do PT em seguida. Por outro lado, como contrapartida, o Congresso teve uma eleição bastante conservadora, que obviamente denuncia dificuldades para os projetos do governo federal. E em conjunto a esses dados, tivemos também como destaque, entre os governadores, a conquista, em turno único, de Geraldo Alckmin em São Paulo, coroando 20 anos ininterruptos de PSDB no poder paulista.

2015 começa, ao contrário do referido período anterior, com uma perspectiva bastante difícil. Em primeiro lugar, temos que a economia internacional não se revela alvissareira. O FMI – Fundo Monetário Internacional neste janeiro revisou para baixo suas previsões de crescimento global para 2015 e 2016, com destaque para o menor crescimento chinês. Assim sendo, já podemos perceber que nossas exportações também vão ter dificuldades de se expandir. Internamente, Dilma na busca de reajustar a economia, tendo em vista o baixo crescimento do PIB em 2013 e em 2014, cujo resultado sairá oficialmente nos próximos dias, organizou um novo ministério simpático ao pensamento conservador, para agradar ao mercado, buscando confiança e rebater críticas como o excesso de liberdade existente para bancos públicos, caso do BNDES. Assim, a taxa de juros abriu o ano mantendo a trajetória de elevação, para conter a inflação, e os gastos públicos deverão ser controlados objetivando ampliação no superávit primário. Na somatória dessas questões, pergunta-se: isso irá mesmo ajudar a avançar o PIB? Para os mais conservadores sim. É um remédio amargo, que precisa ser utilizado para mostrar austeridade e combater o endividamento por parte do governo, controlando suas contas e dando credibilidade para o setor privado se reaproximar, se animar. É bom lembrarmos que o governo fez gastos e também deu muitas desonerações, subsídios a setores de produção, como redução do IPI dos veículos. Isso fez cair a arrecadação, além da própria baixa atividade econômica, reduzindo as receitas públicas.

Porém, os eleitores de Dilma, entre outros segmentos da esquerda, não concordam com as medidas adotadas para este mandato. Acreditam que o governo ainda tem boa folga na divida pública e que era preciso cobrar das empresas a contrapartida em empregos com as desonerações oferecidas. Tomaram como inaceitável a cessão do Ministério da Agricultura a uma latifundiária, entre outras coisas. Sentem-se traídos. E perguntam: as medidas adotadas ao invés de expandirem a economia e a manutenção do emprego não farão exatamente o contrário? O que é péssimo em um quadro que o PIB já não é alto, como já dito. Estaríamos vivenciando, assim, uma grande submissão ao mercado. E, é importantíssimo destacarmos: somam-se ‘ao pacote’ acima a crise hídrica e a crise energética que se apresentam. Sem falar na pressão, originária desde a apertada eleição de 2014 – que muita gente não engoliu até hoje, especialmente entre tucanos -, a favor de um impeachment contra a presidenta, por suposto envolvimento com os desvios da Petrobrás ou, se não der certo este argumento, por má gestão/ pulso fraco sobre uma empresa de tamanha magnitude, tirando sua legitimidade como mandatária.

Como disse, 2015 mostra-se turbulento e duro. Vamos torcer para que o aperto deste ano possa resultar em estímulos de investimentos para o mais breve possível, fazendo o país andar. Dilma precisará trazer a ação do capital interno para as parcerias com o governo, porém, não abandonar a linha de priorização da ética da justiça social. Não é possível retroceder neste caminho dentro de um país tão injusto. E como fazer isso com cortes no orçamento, baixo investimento e pressão da oposição e mídia conservadora? São muitos os problemas para serem resolvidos e reequilibrados. São Paulo, 10 de fevereiro de 2015.

 

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais; Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação; Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo

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