Vazamento de óleo pode ter partido de navio irregular, diz Marinha do Brasil

Da Redação
Com EBC

Segundo o comandante da Marinha, Ilques Barbosa, o governo brasileiro está concentrando as investigações sobre as causas da mancha de óleo nas praias do Nordeste em 30 navios de dez países diferentes. Mas, para ele, a maior probabilidade é que o vazamento partiu de um navio irregular, chamado de dark ship. “Nós saímos de mil navios, para 30 navios”, disse ele sobre a investigação, após reunião com o presidente em exercício, Hamilton Mourão, no Palácio do Planalto.

O almirante explicou, entretanto, que as pesquisas se regeneram com novos dados a todo momento e que nenhuma possibilidade foi descartada, mas que os esforços estão concentrados nessa linha de investigação. “O mais provável é de um dark ship ou um navio que teve um incidente e, infelizmente, não progrediu a informação como deveria”, disse, explicando que, por convenção internacional, todo incidente de navegação deve ser informado pelo comandante responsável.

De acordo com Barbosa, empresas e instituições estrangeiras e 11 autoridades marítimas estão apoiando o Brasil nas investigações. “É um tema que envolve agressão à nossa pátria e como é da nossa tradição, nós vamos encontrar”, disse. “Não posso assegurar se é breve ou longa [o tempo de investigação, mas vamos continuar até onde necessário”, ressaltou.

Um dark ship é um navio que tem seus dados informados às autoridades, mas, em função de qualquer restrição, de embargo que acontece, ele tem uma carga que não pode ser comercializada. Então, segundo o comandante, ele busca vias de comunicação marítimas que não são tão frequentadas, procura se evadir das marinhas de guerra e não alimenta seus sistemas de identificação. “Ele procura as sombras. E essa navegação às sombras produz essa dificuldade de detecção”, explicou.

A quantidade de óleo que já chegou à costa brasileira é muito menor, de acordo com Ilques, do que a capacidade dos navios investigados, em torno de 300 mil toneladas. Até esta segunda-feira (21), foram recolhidas 900 toneladas de resíduos de óleo cru nas praias do Nordeste.

Para Ilques Barbosa, também é muito pouco provável que o vazamento tenha acontecido em uma transferência de óleo em alto mar. “A transferência é uma atividade marinheira de extremo risco. Isso, fazer em mar aberto, onde o mar pode estar em situação adversa, ou pode ficar em situação adversa ao longo do trabalho, não é uma atividade que os armadores, proprietários de navios, recomendariam. Não seria uma atitude de comandante responsável, muito menos dos armadores”, explicou.

O almirante reforçou que o petróleo encontrado nas praias no Nordeste não tem origem nas bacias brasileiras e que não houve incidente nas plataformas, terminais ou navios da Petrobras. “O que se sabe pelos cientistas, é que o petróleo é de origem venezuelana. Não quer dizer, que houve em algum momento, e não houve isso, envolvimento de qualquer setor responsável, tanto privado quanto público, da Venezuela nesse assunto”, disse.

O trabalho de investigação da Marinha conta também com o apoio da Polícia Federal. Além disso, outros órgão estão atuando na limpeza das praias, como as equipes do Ministério do Meio Ambiente e das Forças Armadas, além de secretarias estaduais e municipais e voluntários.

Forças Armadas

O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, falou durante entrevista coletiva com o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, sobre o presidente Jair Bolsonaro ter autorizado a participação do Exército no combate às manchas de óleo.

Azevedo e Silva considerou o vazamento de resíduos de óleo no litoral nordestino um “fato lamentável e inusitado”.

De acordo com o ministro, o recrudescimento das manchas justificou o emprego do contingente militar no combate ao desastre. “A Marinha está debruçada sobre isso [derramamento de origem desconhecida] desde o início de setembro. Todo o efetivo possível está sendo utilizado. O Plano Nacional de Contingência está sendo seguido. No início, as manchas eram pequenas, mas as ações estão sendo tomadas”, afirmou.

Fernando Azevedo e Silva sobrevoou o litoral baiano para averiguar o avanço das manchas. Um dos principais pontos turísticos da Bahia, as praias do Morro de São Paulo, foi afetado.

Os primeiros registros de manchas de óleo no litoral nordestino são do dia 30 de agosto. Ainda não há certeza sobre a origem do vazamento. Atualmente, mais de 200 localidades litorâneas registram presença de óleo cru. De acordo com o governo da Bahia, novas manchas apareceram nesta terça-feira no litoral sul do estado.

Internacional

Convidado a participar da audiência pública que a Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados realizou dia 22 para tratar do tema, o contra-almirante Alexandre Rabello de Faria disse considerar que o problema transcende as fronteiras brasileiras. Para o militar, há fortes evidências de que o óleo começou a se espalhar de um ponto ainda não identificado, mas já em águas internacionais, configurando um “problema de nível internacional”.

“Na medida em que este vazamento não foi comunicado, ele é sim um problema muito grave e que eu acho que é de nível internacional, principalmente se confirmada [a hipótese] de ter ocorrido águas internacionais”, comentou o contra-almirante. Faria também afirmou que, se, de fato, o problema teve origem em área marítima além do domínio territorial brasileiro, “a questão transcende a jurisdição do Estado brasileiro”.

Segundo o militar, a Marinha, que coordena as investigações sobre a origem da mancha de óleo que poluiu trechos do litoral dos nove estados nordestinos (Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe) já vem recebendo o apoio de órgãos e instituições estrangeiras, incluindo a guarda costeira dos Estados Unidos. Universidades públicas brasileiras também estão auxiliando a Marinha, a Polícia Federal (PF) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) a identificarem a provável origem do óleo.

“Seja em extensão, seja em volume de óleo derramado ou em duração temporal, não temos conhecimento de que algo similar já tenha acontecido. Ao menos não no Ocidente”, comentou o contra-almirante, explicando as dificuldades do trabalho de contenção e limpeza do óleo. “Este óleo não se dissemina na superfície. A partir do ponto de origem [de dispersão do produto], ele se espalha abaixo da superfície do mar, o que dificulta e até mesmo impede a detecção por imagens de satélite ou sobrevoos. As manchas só aparecem já muito próximas à costa,dificultando e tornando perigoso os navios as recolherem [próximo à terra firme]”.

Faria lembrou que, para os especialistas, é bastante provável que a mancha de óleo tenha sido trazida para próximo da costa brasileira pela corrente marítima Sul Equatorial, que se forma no meio do Oceano Atlântico, a meio caminho entre a América do Sul e a África. Já próximo à costa, a corrente se bifurca em outras duas: a das Guianas, que segue no sentido Norte, e a Corrente do Brasil, que desce próxima ao litoral brasileiro, no sentido sul. Para o contra-almirante, o “comportamento difuso” costumeiramente observado entre os meses de agosto e setembro nas áreas sob influência das duas correntes marítimas que banham a região pode ajudar a explicar o porque das manchas de óleo terem se espalhado pelo litoral nordestino de forma aleatória, desaparecendo e ressurgindo em trechos anteriormente atingidos.

“[Inicialmente] imaginávamos que, no fim de setembro, o processo [de dispersão do óleo] estaria na fase terminal. Só que, em outubro, as manchas de óleo voltaram a incidir com muita força no litoral do Sergipe e da Bahia. Agora, as recentes ocorrências estão concentradas em Pernambuco”, comentou Faria, acrescentando que, até ontem, mais de 900 toneladas de material contaminado já tinham sido recolhidas das áreas afetadas, que incluem praias, manguezais e a foz do Rio São Francisco, em Alagoas.

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