Ciclone em Moçambique deixa mais de 70 mortos e milhares a precisar de ajuda humanitária

Foto Habitantes de Chiluvi, aldeia do centro de Moçambique, a andarem por uma rua alagada depois da passagem do ciclone Idai e das cheias que assolam a região desde quinta-feira à noite, em Nhamatanda, Moçambique. ANDRÉ CATUEIRA/LUSA

Da Redação
Com Lusa

O número de mortes provocadas pela passagem do ciclone Idai pelo centro de Moçambique subiu para 73 e milhares precisam de ajuda humanitária, de acordo com o mais recente balanço das autoridades.

A prioridade “é resgatar as pessoas que estão por cima das árvores, por cima das casas” nas zonas alagadas que cobrem quase toda a região, disse Rita Almeida, dirigente do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), à televisão estatal.

Rita Almeida referiu que o socorro prestado pelo INGC e parceiros, como as agências das Nações Unidas, tem sido limitado devido à destruição das vias de acesso e falta de redes de comunicações.

“Vamos ter muita dificuldade em fazer movimentação da assistência”, reconheceu.

As equipes montaram 28 centros de acolhimento na cidade da Beira e Dondo, as zonas mais afetadas, onde milhares de pessoas têm procurado abrigo e comida.

A reportagem do canal privado STV ouviu desalojados num centro de apoio que se queixam de fome devido à falta de alimentos, depois de terem perdido os campos de cultivo e de ficarem sem o que tinham armazenado em casa.

A contabilidade oficial do INGC registava hoje 68 mortes na província de Sofala, cinco em Manica e centenas de feridos.

As autoridades alertam para o agravamento das cheias nos próximos dias devido à continuação de chuvas fortes, à saturação dos solos e às descargas de barragens.

A cidade da Beira, capital provincial de Sofala e uma das principais do país, está parcialmente destruída, continua sem eletricidade e comunicações e está desde sábado isolada por terra devido ao corte de vários troços da estrada nacional 6, alguns dos quais arrastados pelas correntes.

A via é a espinha dorsal do centro de Moçambique e liga o porto da Beira aos países do centro da África Austral, nomeadamente ao Zimbábue.

Toda a zona urbana tem sinais de destruição causada pelo vento e chuva forte e as forças de defesa e segurança tem estado a trabalhar na desobstrução de vias.

Em Nhamatanda

Glória Pedro viu as suas duas casas serem engolidas pela água e lama em Chiluvo, aldeia do centro de Moçambique, depois da passagem do ciclone Idai e das cheias que assolam a região desde quinta-feira à noite.

“O que me alertou foi o barulho”, disse à Lusa a moçambicana de 34 anos na aldeia onde, como tantas outras, as casas são feitas de materiais precários – barro e capim – e a população vive da agricultura de subsistência.

Nada tem resistido à fúria do ciclone e das águas: por toda a região, as casas estão destruídas (mesmo as de alvenaria sofreram estragos consideráveis), os campos submersos e os alimentos perdidos numa emergência humanitária ainda por avaliar.

Chiluvo, junto a Nhamatanda, Sofala, ilustra o drama que se vive por toda a região centro de Moçambique, especialmente nas províncias de Sofala e Manica, onde já haverá entre 73 a 84 mortes confirmadas, segundo números oficiais até esta segunda-feira, e milhares a precisar de socorro por permanecerem isolados numa região alagada.

Glória Pedro e a família recorrem agora à ajuda de parentes para se abrigarem e tentarem satisfazer as necessidades básicas.

À volta da aldeia a estrada está destruída, mas os carros e camiões arriscam passar, numa altura em que se prevê que os rios voltem a subir.

O monte Chiluvo é também aquele onde estão implantadas as principais torres de telecomunicações para a região centro de Moçambique.

Um morador contou que no último sábado se ouviu uma espécie de explosão e, de repente, formou-se um rio de lama que desceu rápido, em direção às habitações.

“Eu estava dentro de casa com os meus filhos, quando saímos vimos lama descendo para a estrada e para as casas e fugimos”, disse à Lusa Carlitos Francisco.

A família perdeu a casa, alimentos e fugiu de um rio de lama.

Uma empresa chinesa que reabilita a estrada nacional 6, espinha dorsal do centro de Moçambique, mobilizou, entretanto, uma escavadora para retirar o entulho, mas aquela via permanece submersa e, nalguns pontos, destruída.

Outro morador contou que quando alguns moradores avistaram a lama, começaram a fugir, alertando os restantes para o perigo, o que permitiu evitar o pior.

O presidente moçambicano, Filipe Nyusi, sobrevoou de helicóptero, no domingo, a região alagada após a passagem do ciclone Idai pelo centro de Moçambique e apelou ao salvamento da população que ficou isolada.

O chefe de Estado encurtou no sábado uma visita oficial a Essuatini (antiga Suazilândia) e viajou diretamente para a cidade da Beira, cujo aeroporto voltou no domingo a receber voos domésticos.

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