Portugal pode ser “a segunda porta de entrada da Argentina na UE”

Da Redação
Com Lusa

O ministro português dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, disse querer trabalhar com o novo governo argentino para fazer de Portugal a segunda porta de entrada na Europa e vê oportunidade para novos investimentos portugueses na Argentina.

“Foi muito interessante quando cumprimentei o Presidente Alberto Fernández. Ele recebeu-me e disse-me: ‘Não me esqueci. Portugal deve ser a segunda porta de entrada da Argentina na União Europeia’. Portanto, a mensagem portuguesa ficou bem clara”, disse à Lusa o MNE português, de visita à Argentina para a posse do novo chefe de Estado argentino.

O breve encontro entre Santos Silva e Fernández aconteceu terça-feira na Casa Rosada, sede do Governo argentino, durante o cumprimento das delegações estrangeiras ao Presidente que acabava de ser empossado.

Em setembro, ainda como candidato, Alberto Fernández fez uma rápida visita ao primeiro-ministro, António Costa, em Lisboa, na qual também participou o chefe da diplomacia portuguesa e quem viria a ser o seu homólogo argentino, Felipe Solá.

“Naquela ocasião, nós dissemos a Alberto Fernández que compreendemos a afinidade natural que a Argentina tem com Espanha ou mesmo com Itália, mas a Argentina deve olhar para Portugal como uma segunda porta de entrada na União Europeia”, afirmou à Lusa Augusto Santos Silva.

O caminho para abrir essa porta, segundo o ministro, são dois: trabalhar pela entrada em vigor do acordo União Europeia-Mercosul e incrementar as relações bilaterais, consolidando o capítulo comercial.

Para isso, Portugal conta com uma vantagem: a manifesta admiração do atual governo argentino pelo modelo econômico português que saiu do ajuste ao crescimento, uma via que a Argentina quer começar a transitar.

“O novo governo argentino olha muito para a experiência portuguesa como uma lição da qual se pode aprender alguma coisa porque, de facto, de 2015 para cá, nós conseguimos virar a página da austeridade e essa é evidentemente uma preocupação principal dos argentinos”, valorizou Santos Silva, destacando, no entanto, que “não se trata de dar lições”.

Augusto Santos Silva reuniu-se com o seu homólogo argentino, o novo ministro das Relações Exteriores da Argentina, Felipe Solá, a quem convidou a visitar Portugal para dar continuidade à consolidação das relações bilaterais.

“A minha preocupação essencial foi desafiar o meu colega argentino a deslocar-se tão breve quanto possível a Portugal. Agora, quando voltar, tenciono enviar-lhe uma carta com um convite formal. Temos de ter contatos regulares e próximos com o novo governo argentino”, afirmou Santos Silva.

Durante o seu discurso de posse no parlamento argentino, o Presidente Alberto Fernández, sublinhou a prioridade para o comércio exterior argentino como gerador das divisas para o país, sem fonte de financiamento externo.

As exportações, sobretudo as agroalimentares, serão o ponto de partida para a recuperação econômica argentina.

“O presidente Fernández foi muito claro em dizer que a diplomacia econômica tem de ser uma prioridade da Argentina que precisa fazer as substituições das importações. Importar menos e produzir mais”, avaliou Santos Silva.

É nesse sentido em que Portugal pode ser a segunda porta de entrada dos produtos argentinos para a Europa.

Por outro lado, o protecionismo argentino perante as importações dos pode ser uma oportunidade para o investimento português.

“Quando os governos têm políticas de restrições das importações, como julgo que tem o governo argentino, também criam oportunidades para maiores investimentos. Portanto, o investimento português na Argentina pode ajudar”, considerou o governante português.

Portugal não está sozinho nessa visão. Espanha, Itália, França e Holanda também enviaram representantes para a posse de Alberto Fernández.

Tratam-se de países que têm vantagem, relativamente a Portugal, no processo de construção do novo poder na Argentina.

“São os países europeus que olham com interesse para a Argentina. Era importante que Portugal fosse representado em alto nível nessa investidura de Fernández. Temos procurado estar representados nas investiduras dos presidentes da América Latina”, explicou Santos Silva a partir das prioridades de Portugal em política externa.

“Olhamos para a América Latina como a nossa segunda casa”, sintetizou.

“Nós temos procurado acompanhar sempre a América Latina no seu conjunto, mas com especial atenção a duas dinâmicas de integração sub-regional: uma é o Mercosul, bloco formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai; outra, a Aliança do Pacífico, formada por México, Peru, Colômbia e Chile”, indicou Augusto Santos Silva, traçando as prioridades para as relações de Portugal com a região.

Posse

Alberto Fernández, o novo presidente fez um discurso diante do Parlamento e afirmou que quer ser o presidente que escuta, o presidente do diálogo. Alberto Fernández acrescentou que os problemas da democracia só se resolvem com mais democracia.

Fernández apelou à construção de um “novo contrato social solidário”, bem como pediu aos argentinos que “superem o muro de ódio e de rancor” que divide o país.

Fernández tem como vice a ex-presidente e ex-senadora, Cristina Kirchner. Eles venceram as últimas eleições, em primeiro turno, com 48% dos votos, enquanto Macri obteve, em segundo lugar, 40%.

O novo presidente herda um país com problemas como o da dívida de 44 bilhões de dólares com o Fundo Monetário Ineternacional (FMI). Há uma parcela de 11 bilhões da operação ainda a ser paga, mas Fernández anunciou que não pretende recorrer a este empréstimo. Outro desafio do país é a inflação de quase 55% registrada este ano e o cenário socioeconômico de 40% da população na pobreza. No comando do país, Fernández ainda enfrentará debates e temas impopulares, como o da legalização do aborto.

As solenidades começaram na manhã do dia 10 e seguiu até final da tarde. Após o discurso de Fernández no Congresso, parlamentares cantaram a Marcha Peronista e gritaram “Alberto presidente!”.

O mandatário recebeu os cumprimentos dos chefes de Estado e de Governo que compareceram à cerimônia de posse. O vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, esteve representando o país.

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