Neste dia 05, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, agradeceu ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a colaboração institucional que mantiveram durante quase dois anos e considerou que foram felizes e eficazes, muitas vezes antecipando problemas.
“Nós fomos felizes e fomos eficazes”, disse Luís Montenegro, na residência oficial de São Bento, em Lisboa, perante a comunicação social, no fim de uma reunião do Conselho de Ministros presidida por Marcelo Rebelo de Sousa, quatro dias antes do fim do seu segundo e último mandato consecutivo.
Com Marcelo Rebelo de Sousa ao seu lado, o chefe do Governo PSD/CDS-PP, considerou que os dois foram “resolvendo todos os problemas” que era preciso ultrapassar e “muitas vezes antecipando os problemas”.
Segundo Luís Montenegro, essa cooperação, com “espírito de amizade, de solidariedade, de serviço” ao país, “pode fazer escola e pode marcar os exercícios de magistratura da Presidência da República e da titularidade da condução do Governo”.
Presidente da República e primeiro-ministro falaram sentados em dois cadeirões, na Sala da Lareira da residência oficial de São Bento, em Lisboa, numa conversa em registo informal.
Antes, houve uma sessão de cumprimentos ao Presidente da República cessante por parte de todos os ministros e secretários de Estado do Governo PSD/CDS-PP, e uma foto de família.
O primeiro-ministro referiu que na reunião de hoje o Governo decretou um dia de luto nacional pela partida de António Lobo Antunes, e analisou a situação geopolítica internacional, o Programa de Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR) para fazer face aos danos provocados pelas recentes tempestades e ainda o tema da lusofonia.
Em nome do executivo, Luís Montenegro expressou “um reconhecimento e uma gratidão enormes pelo espírito de colaboração, de cooperação institucional” de Marcelo Rebelo de Sousa, e no plano “pessoal também”.
Luís Montenegro descreveu Marcelo Rebelo de Sousa como um chefe de Estado que teve uma “presidência de proximidade, de afeto, de conhecimento”, que estava “sempre por dentro dos assuntos todos”, estudava “com profundidade todo o alcance das decisões políticas, todo o alcance e análise da situação política, seja nacional, seja internacional”.
Como Presidente, teve um contacto próximo “desde o topo dos órgãos de soberania até ao cidadão comum, ao mais incógnito cidadão comum” e, muitas vezes sem conhecimento público, “nunca deixou de dar resposta a ninguém” que lhe tenha comunicado algum “constrangimento na sua relação com a Administração”, elogiou.
O primeiro-ministro relatou que Marcelo Rebelo de Sousa esteve em “contacto permanente” com todo o Governo, que muitas vezes contou com a sua “leitura política” e “leitura técnico-jurídica” para um “amadurecimento das suas decisões”, com “uma especial eficácia naquilo que é o tratamento de competências que, à luz da Constituição, se cruzam, em particular no processo legislativo”.
“E eu posso hoje confidenciar que não raras vezes me socorri do seu conhecimento técnico-jurídico, do seu conhecimento da realidade concreta dos temas que era importante tratar. E, ao contrário daquilo que muitas vezes se foi dizendo, com antecipação, não exatamente sempre em cima da hora como quiseram de alguma maneira caracterizar”, acrescentou.
No seu entender, a cooperação “não foi só institucional, foi uma cooperação estratégica” e “preveniu eventuais dessintonias, sem implicar nenhum tipo de invasão na esfera de cada um”, no respeito da Constituição
“Foi, desse ponto de vista, um período que, me parece, foi positivo. E, quando eu digo fazer escola, não é a pensar neste Governo, nem a pensar no próximo Presidente da República, é a pensar em todos os Governos e nos próximos presidentes da República”, reforçou, agradecendo uma vez mais a Marcelo Rebelo de Sousa.
Próximo presidente
Marcelo Rebelo de Sousa afirmou hoje que vai sair de Presidente como entrou no parlamento para tomar posse, a pé, e desejou que o seu sucessor, António José Seguro, seja “o melhor” dos presidentes.
“Desejo ao senhor Presidente António José Seguro, e já o disse duas vezes, as maiores felicidades. Que seja muito feliz. E, se for possível, que consiga ser o melhor de todos os presidentes da República”, declarou.
Marcelo Rebelo de Sousa realçou a votação que o antigo secretário-geral do PS obteve na segunda volta das presidenciais: “Tem um apoio tal e tem uma esperança tal das pessoas atrás dele, que isso implica que seja obrigação de todos os cidadãos – agora, já falo quase como cidadão – desejarmos isso mesmo”.
O Presidente da República cessante manifestou ainda a expectativa de que o seu sucessor tenha “um bom relacionamento com o Governo e do Governo do senhor Presidente da República”.
“Acho que era, neste momento do mundo, e neste momento da Europa, neste momento do país, depois da calamidade, acho que era o ideal para todos”, acrescentou.
Interrogado sobre como pensa que os portugueses o vão recordar, Marcelo Rebelo de Sousa respondeu que não tem “a mínima ideia”, mas realçou que, quando assumiu o cargo, ponderou se deveria mudar a sua “maneira de ser”, e decidiu que não.
O Presidente admitiu que sair de cena “talvez seja a coisa mais difícil do mundo, para todos, para os jogadores de futebol, para cantores, para artistas, para interventores políticos, deve ser, talvez, o mais difícil”.
A este propósito, sem nomear ninguém, referiu: “Aprendi quantas vezes eu não agradeceria não ter ex-presidentes da República a intervir na vida política”.
“Portanto, eu agora tenho a obrigação de ter aprendido a lição, e no futuro o que eu posso é desejar ao novo Presidente todas as felicidades, que merece, por aquilo que é, pela vitória que teve e pelo percurso que teve. Mas, precisamente, não empecilhar em relação ao Presidente da República, em relação ao primeiro-ministro, em relação ao Governo, em relação à Assembleia da República, com intervenções”, sustentou.
Sobre Luís Montenegro, acrescentou: “O senhor primeiro-ministro é muito rápido, é muito intuitivo, gosta de antecipar o tempo político. Outras vezes gosta de fazer esperar politicamente a comunicação social, gosta do efeito surpresa, e gere isso de uma forma que a comunicação social não pode prever, não pode antecipar”.
As declarações do Presidente da República e do primeiro-ministro e respostas a perguntas dos jornalistas duraram cerca de uma hora.
Marcelo Rebelo de Sousa salientou, na sua primeira intervenção, a situação internacional “muito complicada” que Luís Montenegro encontrou como primeiro-ministro e que se mantém neste final do seu segundo mandato presidencial.
“Nenhum de nós sabe medir quais [as consequências], porque nenhum de nós sabe medir qual a duração da crise, qual a gravidade da crise e quais os efeitos na vida de todos, em todo o mundo”, advertiu.
Na sua opinião, “hoje é muito mais difícil ser-se governo do que era há 45 anos”, pela “velocidade a que decorrem as crises, os problemas que colocam as crises” e porque os cidadãos “são mais impacientes, são mais reivindicativos, são mais exigentes”.
“Por isso, tem um mérito que eu sei compreender a dedicação do senhor primeiro-ministro, dos ministros, dos secretários de Estado, destes governos”, elogiou.




