Quantas vidas cabem em 106 anos?

> Na coluna de Luiz T. G. Filho, o aniversário do Clube Português de São Paulo é contado pelas histórias, memórias e encontros que atravessaram gerações.

Por Luiz Filho

Em maio deste ano, enquanto a guitarra portuguesa de Wallace Oliveira fazia a obra de Carlos Paredes ocupar a nova sede do Clube Português, havia ali algo maior do que o evento. A música, as imagens, os livros no andar de cima e as pessoas reunidas aproximavam tempos diferentes. O passado não estava sendo repetido. Estava novamente em circulação.

No dia 14 de julho, o Clube Português de São Paulo completou 106 anos. Uma data assim convida à celebração, mas também impõe uma pergunta que nenhuma cronologia consegue responder: quantas vidas passaram por essa história?

Não falo apenas de fundadores, presidentes ou personalidades recebidas pelo Clube. Falo de quem encontrou ali um amigo, um livro, uma música, um lugar de pertencimento ou, em alguns casos, a pessoa com quem dividiria a própria vida.

O Clube nasceu em 1920, quando São Paulo recebia portugueses dispostos a reconstruir a existência longe de casa. As primeiras sedes eram lugares onde o sotaque não precisava ser explicado, onde a saudade encontrava gente e onde a cultura deixava de ser apenas lembrança trazida na bagagem.

Em 1932, 125 integrantes do Orfeão do Clube e seus familiares embarcaram no último trem da Estação da Luz para apresentações no Teatro Coliseu, em Santos. Muitos eram trabalhadores do comércio do centro que encontravam nos ensaios companhia, música e algum descanso. A imagem daquele grupo viajando junto diz mais sobre o sentido de uma associação do que muitos discursos: era uma comunidade em movimento.

Mas os 106 anos do Clube não pertencem apenas às primeiras décadas. Para grande parte dos associados, a memória mais viva começa na Rua Turiassú. Durante mais de cinquenta anos, seus salões receberam bailes, jantares, casamentos, festas familiares e encontros que atravessaram a vida social da comunidade portuguesa em São Paulo.

Foi ali que o Clube ganhou fama de “casamenteiro”. A expressão poderia permanecer apenas como uma curiosidade simpática, não fosse sustentada por histórias reais.

O Dr. Rui Fernão Mota e Costa, atual presidente do Clube, frequenta a instituição desde 1956. Ao longo dessas décadas, integrou sucessivas diretorias e presidiu a casa em diferentes períodos. Foi também no Clube que conheceu Dona Linda, com quem formou sua família. Quando uma instituição entra de maneira tão profunda na biografia de alguém, cuidar dela deixa de ser apenas uma função administrativa. Torna-se uma forma de cuidar da própria história.

Outras vidas chegaram pela cultura. Em 2010, nas comemorações dos 90 anos, a pesquisadora Teresa Rita Lopes veio de Portugal para uma mesa-redonda sobre Fernando Pessoa. A sala ficou cheia e foi necessário buscar mais cadeiras. O encontro havia sido articulado por João Alves das Neves, então diretor cultural, jornalista, professor e escritor.

Dois anos depois, a biblioteca recebeu seu nome. Na mesma ocasião, a família anunciou a doação de milhares de livros reunidos por ele ao longo da vida. Uma biblioteca particular não guarda somente títulos. Guarda escolhas, pesquisas e horas silenciosas de leitura. Ao confiar esse acervo ao Clube, a família entregou também uma parte da vida de João Alves das Neves.

Em 2025, sua neta, Fabíola Neves, assumiu a Diretoria Sociocultural. Os livros do avô permanecem nas estantes, enquanto ela participa da construção de uma programação voltada a novos públicos. Há continuidades que não precisam ser explicadas. Basta olhar.

O Clube também esteve presente quando a comunidade precisou transformar encontro em solidariedade. Em diferentes momentos, a Turiassú recebeu jantares beneficentes em apoio ao Lar da Provedoria da Comunidade Portuguesa. As mesmas mesas que serviam às celebrações ajudavam a sustentar o cuidado com idosos que dependiam da colaboração coletiva.

A venda da sede da Turiassú encerrou um ciclo de maneira dolorosa. Para quem viveu décadas naquele endereço, não se perdeu apenas um prédio. Ali estavam a juventude, os bailes, os amigos, os filhos ainda pequenos e pessoas que já não estavam presentes. Vieram críticas, dúvidas e anos de incerteza. A pandemia agravou uma situação que já exigia decisões difíceis.

Ainda assim, a história não terminou ali.

Em junho de 2025, o Clube inaugurou sua nova sede na Avenida Portugal. Na cerimônia, dirigentes foram homenageados, mas também Lúcia e Celestino, colaboradores reconhecidos pela dedicação à entidade. A fadista Letícia Ferreira cantou acompanhada por Wallace Oliveira e Sérgio Borges. No andar superior, a Biblioteca João Alves das Neves voltava a ocupar um lugar de destaque. Uma casa nova recebia pessoas, vozes, livros e objetos vindos de outras épocas.

A nova sede não tem as dimensões da Turiassú, nem precisa tentar reproduzi-la. O valor de uma instituição não pode ser medido apenas pela extensão de seus salões. Está também na capacidade de reunir pessoas em torno de algo que ainda faça sentido.

É essa a responsabilidade que acompanha os 106 anos. Não basta proteger o que restou ou repetir as histórias conhecidas. É preciso permitir que outras histórias comecem. Conservar os livros e provocar novas leituras. Guardar o piano e voltar a ouvi-lo. Preservar as fotografias sem deixar de produzir outras.

Não sei quantas vidas cabem em 106 anos. Os arquivos registram nomes, datas e acontecimentos, mas não alcançam tudo. Não guardam cada conversa depois de um baile, cada criança levada pelos avós, cada funcionário que preparou uma sala, cada leitor que encontrou um livro ou todas as amizades que continuaram fora das paredes do Clube.

Talvez, daqui a alguns anos, alguém olhe para uma fotografia feita hoje e reconheça nela o começo de alguma coisa importante. Um projeto, uma amizade, uma descoberta, uma família.

Quando isso acontecer, mais uma vida terá encontrado lugar dentro dessa história.

Por Luiz Filho
Publicitário, especialista em Negócios e Marketing, com 25 anos de experiência em definição de estratégias e métodos de comercialização para mercados B2B e B2C, análise de produtos, serviços e ações 360º. Atualmente, atua como Consultor On Demand, desenvolvendo ações inovadoras e estabelecendo parcerias comerciais, pela Wixi Marketing.

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