Em Lisboa, Guterres expressa “profunda gratidão pela contribuição exemplar” de Portugal à ONU

Antonio Guterres e Luis Montenegro no Palácio São Bento, Lisboa. 27 Novembro 2024. MIGUEL A. LOPES/LUSA

Mundo Lusíada com Lusa

O secretário-geral da ONU, António Guterres, deixou nesta quarta-feira em Lisboa fortes elogios a Portugal e expressou “profunda gratidão pela contribuição exemplar” ao sistema das Nações Unidas e à sua abordagem multilateral dos problemas globais.

Em declarações à imprensa após um encontro com o primeiro-ministro, Luís Montenegro, Guterres começou por lamentar que as “instituições a nível global” estejam hoje “profundamente desatualizadas” e sejam incapazes de responder à “situação paradoxal” em que o mundo está colocado.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas referiu-se a desafios que “nunca foram tão sérios”, elencando a questão climática, “uma inteligência artificial que se desenvolve sem o mínimo de controlo”, e que tanto pode ter um enorme potencial como ser “uma ameaça existencial”, as desigualdades e injustiças e a multiplicação de conflitos.

Falando junto do chefe do Governo em declarações sem direito a perguntas da imprensa, António Guterres apontou igualmente a “reforma absolutamente essencial” das organizações internacionais como o Conselho de Segurança da ONU, o sistema de Bretton Woods da arquitetura financeira Internacional, ou da Organização Mundial de Comércio.

“Quero em particular dizer que, em todas estas batalhas, Portugal tem tido um papel ativo e mais do que um papel ativo, um papel influente e uma posição respeitada por todos os outros interlocutores, mesmo as maiores potências”, descreveu o antigo primeiro português, que se referiu ainda a um “país ponte, que aproxima os outros, quando estão desavindos”.

O secretário-geral da ONU elogiou igualmente Portugal “como um exemplo em relação às suas preocupações pela defesa dos valores fundamentais da Carta das Nações Unidas, do Direito Internacional e de uma maior igualdade e de uma maior justiça à escala mundial”, além da sua presença em várias operações de paz internacionais, salientando a missão na República Centro-Africana.

A força portuguesa neste país africano tem tido, segundo o dirigente da ONU, “um papel decisivo para a consolidação das instituições e para a promoção da paz no país e ganhou um extraordinário prestígio” entre os protagonistas desta crise.

O secretário-geral das Nações Unidas observou que, num momento em que os conflitos se multiplicam, “há uma sensação de impunidade, em que várias potências e até potências de pequena e média dimensão, “se podem dar ao luxo de fazer o que quiserem, sem que nada lhes aconteça, pondo em causa a paz e a segurança deles próprios e dos seus vizinhos”.

Neste quadro, comentou que “é absolutamente fundamental marcar a importância do respeito pelo Direito Internacional e dizer que esse respeito se tem de considerar como elemento essencial para a obtenção da paz”, voltando a referir-se a Portugal.

“É com o maior interesse que nós vemos o contributo que Portugal vai continuar a dar nos momentos que se vão seguir (…) Estou convencido que com o apoio de Portugal e daqueles que pensam como Portugal será possível enfrentar os desafios que temos pela frente e construir um mundo melhor do que todos necessitamos”, declarou.

Na sua passagem por Portugal, António Guterres reuniu-se também, na terça-feira em Cascais, à margem do Fórum Global da Aliança das Civilizações das Nações Unidas, com o Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, com quem discutiu as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, assim como questões climáticas.

Guterres também saudou o acordo de cessar-fogo entre Israel e o grupo xiita Hezbollah no Líbano como “um raio de luz de esperança”, que espera ver replicado na Faixa de Gaza. O secretário-geral da ONU considerou que se trata de um “momento de grande importância”, sobretudo para os civis, que “pagavam um preço enorme pelo fato de este conflito se estar não só a arrastar, como a ganhar dimensões cada vez mais preocupantes”.

construtor de pontes

O primeiro-ministro prometeu ao secretário-geral que Portugal se vai manter “na linha da frente” como construtor de pontes entre nações em missões das Nações Unidas no terreno, como a da República Centro-Africana.

“Quero dizer ao secretário-geral das Nações Unidas que Portugal continuará, no contexto internacional, a promover a sua vocação universalista e a promover a sua participação em missões de paz com total empenhamento. Nós estaremos na linha da frente para ser construtor de pontes entre nações e também estaremos na linha da frente das forças destacadas no terreno para garantir a paz, para garantir a preservação dos direitos humanos, como fazemos hoje em vários locais, particularmente na a República Centro-Africana, com reconhecimento de forma transversal”, disse.

Numa declaração sem direito a perguntas, Montenegro defendeu que este posicionamento de Portugal tem uma inspiração nos seus quase nove séculos de existência, mas também associada ao reconhecimento nas organizações internacionais “do valor da política portuguesa e do valor da diplomacia portuguesa”.

“Não é por acaso que temos o secretário-geral das Nações Unidas, que tivemos um português dez anos presidente da Comissão Europeia, temos hoje confirmada a participação de uma portuguesa na Comissão Europeia com especiais responsabilidades, teremos a partir do próximo dia 1 de dezembro o presidente do Conselho Europeu, também um português, precisamente o meu antecessor, o dr. António Costa”, salientou.

Para Montenegro, estas escolhas de portugueses para cargos de topo internacionais reconhecem a capacidade do país “de moderação e de colocar em diálogo países, às vezes forças, que estão em conflito”.

Pontualmente às 16:00, Montenegro recebeu o antigo primeiro-ministro socialista entre 1995 e 2002 na base das escadarias de São Bento: “Bem-vindo a esta casa que também é sua”, numa afirmação que repetiu nas declarações à imprensa.

“Tive o privilégio de poder ter uma longa conversa com o secretário-geral das Nações Unidas, na sala de trabalho que ocupo todos os dias e que, durante cerca de seis anos e meio, foi também ocupada por ele, no exercício das funções de primeiro-ministro”, destacou.

O primeiro-ministro referiu que, nos últimos meses, já se encontrou por duas vezes com António Guterres, primeiro em setembro na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, e na semana passada na reunião do G20, no Rio de Janeiro.

Montenegro reiterou a defesa que tem feito, nesses fóruns, de uma reforma institucional nas Nações Unidas e da revisão do direito de veto no Conselho de Segurança da ONU

Montenegro repetiu também o apoio de Portugal a que países como o Brasil, Índia e países africanos possam ter assento no Conselho de Segurança da ONU e voltou a elogiar o Pacto para o Futuro lançado por Guterres na última Assembleia-Geral da Organização.

Montenegro transmitiu a Guterres que Portugal continuará “a estar ao lado da Ucrânia na defesa da integralidade do seu território” e “ao lado de todos aqueles que são afetados pela falta de ajuda humanitária no Médio Oriente, estejam de que lado estiverem”, afirmou.

“É um privilégio para nós poder ter mais uma vez a oportunidade de trocar impressões consigo, receber informações importantes e também transmitir de forma reiterada o nosso apoio, o nosso empenho e a nossa motivação para continuarmos a estar à altura da responsabilidade histórica”, disse.

O PM ainda prometeu empenho do Governo português em garantir “contenção, capacidade de diálogo” e trabalho para que não haja uma escalada de violência em Moçambique.

António Guterres está em Portugal devido à realização do 10.º Fórum Global da Aliança das Civilizações das Nações Unidas (UNAOC), que terminou no Centro de Congressos do Estoril, no concelho de Cascais.

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