Profissão, Resineiro

Devido aos incêndios no norte do país, a cidade do Porto esteve coberta por um manto de fumo intenso, 17 de setembro de 2024. A Proteção Civil estima que arderam pelo menos 10 mil hectares na Área Metropolitana do Porto e na região de Aveiro. JOSÉ COELHO/LUSA

Por Miguel Abreu

O verão volta e com ele o inferno anunciado. Outra vez, a paisagem transforma-se em cinza, o ar em fumo e o silêncio rompido pelas sirenes. O flagelo dos incêndios não é apenas um acidente climático. É demasiadas vezes fruto da má intenção humana, da negligência e da cobiça. Enquanto discutimos causas e responsabilidades, as chamas devoram o que levámos décadas a criar e séculos a herdar.

Houve um tempo em que as matas tinham guardiões. O resineiro não era apenas um trabalhador que extraía resina das árvores, era o zelador silencioso de um ecossistema que sustenta a vida do mundo. Limpava o mato, cuidava da saúde de cada árvore, conhecia cada recanto da floresta. A sua presença diária era um dissuasor natural contra quem queria destruir este bem da humanidade. Hoje, essa profissão desapareceu quase por completo, como tantas outras ligadas à terra, vítimas do abandono rural e do evidente desinteresse político. Perdemos mais do que um ofício, perdemos olhos e mãos que cuidavam da nossa natureza. Onde está a sustentabilidade tão apregoada? Sabe o que é “greenwashing”? Pois também existe o “sustainability washing”, e pratica-se mais do que se imagina.

As matas são um bem comum. São reservas de vida, reguladoras do clima, fonte de oxigénio que deram vida a muitas gerações antes da nossa e, se as cuidarmos, continuarão a dar muitas mais. Mas os Estados, grandes proprietários de áreas florestais, dão um exemplo vergonhoso. Não cuidam, deixam arder, deixam adoecer, deixam morrer.

Cuidar da terra, na lógica do lucro rápido, só interessa se gerar riqueza imediata. Mas a natureza não trabalha com essa pressa e talvez por isso a tratemos como garantida, até que a perdemos.

O que arde não é só madeira. São famílias desfeitas, habitats naturais perdidos, espécies exterminadas, dióxido de carbono libertado em toneladas. É o futuro a ser queimado diante dos nossos olhos, agora.

O tempo que hoje gastamos a apagar fogos, se fosse investido a cuidar dos espaços verdes que dão vida e cor ao mundo, faria de todos nós pessoas mais felizes. Desflorestar para instalar painéis fotovoltaicos, afirmando que isso fará reduzir o número de incêndios, não é a solução. Pelo contrário, é fazer crescer o deserto, eliminar espécies únicas, agravar o desequilíbrio climático e deixar um problema sério para o futuro.

Nestes casos, deveria ser obrigatório que os projetos aprovados pelas autarquias incluíssem a garantia de retirada e reciclagem dos painéis no final da sua vida útil. Destruir e reduzir o que é natureza é contrário à imagem verde que se pretende vender. Fingir que não é connosco é ser cúmplice das cinzas que deixaremos aos nossos filhos.

Por Miguel Abreu

De Portugal
12 de agosto 2025

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