A Europa dos Árbitros: Quando o Progresso Virou Regulamento

Por Nuno Nabais Freire

Há uma velha ironia geopolítica que circula há anos nos meios económicos: os Estados Unidos inventam, a China produz e a Europa regula. Durante muito tempo, a frase serviu apenas para provocar um sorriso. Hoje, tornou-se um diagnóstico desconfortavelmente próximo da realidade.

A Europa continua a ser um dos melhores lugares do mundo para viver. As nossas cidades permanecem seguras, os sistemas de saúde figuram entre os mais eficazes do planeta, a proteção social continua robusta e a qualidade de vida é invejável. Nada disto deve ser menosprezado.

O problema começa quando confundimos bem-estar com relevância económica.

Durante séculos, a Europa foi o maior centro de transformação do conhecimento humano. Mas importa recordar uma verdade que demasiadas vezes esquecemos. A ciência moderna não nasceu exclusivamente na Europa. Os algarismos chegaram-nos da Índia, através do mundo islâmico, a álgebra foi profundamente desenvolvida pelos matemáticos árabes, a pólvora, a bússola, o papel e a impressão tiveram origem na China, muitos textos da Antiguidade clássica sobreviveram porque foram preservados, traduzidos e comentados por estudiosos muçulmanos durante séculos.

A verdadeira grandeza europeia nunca esteve na ideia romântica do génio isolado.

Esteve na extraordinária capacidade de absorver conhecimento vindo de diferentes civilizações, aperfeiçoá-lo e transformá-lo numa economia capaz de produzir riqueza, inovação e progresso numa escala nunca antes vista.

Foi essa combinação entre ciência, universidades, capital, propriedade privada, indústria e liberdade económica que tornou possível a Revolução Científica e, mais tarde, a Revolução Industrial.

Foi aí que nasceu a Europa moderna.

Hoje continuamos a produzir algo extraordinário.

Produzimos memória.

Mas nenhuma civilização consegue viver eternamente dos dividendos do seu próprio passado.

A crise da Volkswagen, durante décadas símbolo máximo da engenharia europeia, não representa apenas as dificuldades de uma empresa alemã. É o sintoma do desgaste de um modelo económico que acreditou que a liderança industrial conquistada no século XX bastaria para garantir a prosperidade do século XXI.

Enquanto os Estados Unidos lideram a inteligência artificial, o capital de risco, a computação em nuvem e a economia digital, a China domina cadeias industriais inteiras, veículos elétricos, baterias, painéis solares, terras raras e produção de alta escala.

E a Europa?

A Europa tornou-se especialista em regulamentar.

Naturalmente, regulamentar não é um erro. As regras protegem consumidores, asseguram concorrência leal e defendem direitos fundamentais.

Mas existe uma diferença decisiva entre criar regras para potenciar a inovação e criar regras que acabam por a substituir.

Criamos diretivas sofisticadas para tecnologias que não desenvolvemos.

Escrevemos regulamentos exemplares para plataformas digitais que nasceram noutros continentes.

Discutimos durante anos normas sobre setores onde já perdemos grande parte da capacidade produtiva.

Somos excelentes árbitros.

Mas deixámos de ser protagonistas do jogo.

Enquanto Bruxelas discutia durante anos o enquadramento jurídico da inteligência artificial, empresas americanas conquistavam rapidamente o mercado global e a China integrava essas tecnologias em centenas de milhões de utilizadores.

Enquanto produzíamos sucessivos pacotes regulamentares, outros investiam agressivamente em semicondutores, robótica, computação quântica, defesa, energia e indústria avançada.

O problema europeu nunca foi a falta de talento.

As nossas universidades continuam entre as melhores do mundo.

Formamos investigadores brilhantes, engenheiros altamente qualificados, médicos, cientistas e empreendedores de enorme qualidade.

O problema é que muitos acabam por criar riqueza noutros lugares.

Uma startup americana nasce perante um mercado único de mais de trezentos milhões de consumidores.

Uma empresa chinesa cresce apoiada por uma estratégia nacional de enorme escala e forte capacidade industrial.

Já um empreendedor europeu continua a enfrentar vinte e sete sistemas fiscais diferentes, múltiplos enquadramentos regulatórios, administrações fragmentadas e um verdadeiro labirinto burocrático que transforma o próprio mercado interno num obstáculo.

A consequência é silenciosa.

Exportamos talento.

Importamos inovação.

E recebemos turistas.

Existe uma transformação económica subtil que poucos parecem querer discutir.

A Europa vai-se especializando cada vez mais em atividades que vivem essencialmente do passado.

Turismo.

Património.

Gastronomia.

Museus.

São ativos extraordinários e devem ser preservados.

Mas vivem, sobretudo, da riqueza construída por gerações anteriores.

Nenhuma economia permanece líder apenas porque possui os monumentos mais bonitos, os melhores vinhos ou os centros históricos mais bem conservados.

Mario Draghi deixou-o claro no seu relatório sobre a competitividade europeia: sem um choque profundo de investimento em inovação, indústria, energia, defesa, investigação e produtividade, a União Europeia arrisca uma perda acelerada de relevância económica.

O problema deixou de ser conjuntural.

É estrutural.

Continuamos presos a uma cultura política onde qualquer grande decisão exige consensos intermináveis, procedimentos sucessivos e um labirinto institucional que transforma a velocidade numa impossibilidade administrativa.

Enquanto outros constroem, nós avaliamos.

Enquanto outros experimentam, nós regulamentamos.

Enquanto outros falham rapidamente para aprender mais depressa, nós demoramos anos a decidir se podemos sequer tentar.

Existe uma diferença profunda entre prudência e paralisia.

A primeira protege.

A segunda condena.

Talvez o maior perigo para a Europa nem seja económico.

Seja psicológico.

Acostumámo-nos tanto ao conforto proporcionado pelas conquistas dos nossos antepassados que começámos a acreditar que a História nos garantiria automaticamente um lugar entre as grandes potências do século XXI.

Nunca garantiu.

A História nunca recompensa quem vive exclusivamente do passado.

Premia quem continua a construir o futuro.

A Europa continua a ser uma das maiores realizações da civilização humana.

Mas nenhuma civilização permanece relevante porque um dia liderou o mundo.

Permanece relevante porque continua a liderá-lo.

Caso contrário, corre o risco de se transformar naquilo que nenhum continente ambiciona ser: um magnífico museu onde o resto do mundo compra bilhete para admirar aquilo que fomos, enquanto o futuro é construído noutro lugar.

A História raramente destrói as civilizações. Limita-se a ultrapassá-las. A verdadeira questão é simples: a Europa quer continuar a escrever o futuro ou contenta-se em ser a nota de rodapé do seu próprio passado?

Nuno Nabais Freire

Investigador Patrimonial Cultural | Especialista em Dinâmicas de Inovação Territorial , para o Mundo Lusíada

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