O antigo primeiro-ministro Durão Barroso defendeu nesta segunda-feira que Portugal deve reforçar o “sentimento de comunidade nacional”, mas sem xenofobia, mas também a sua vocação atlântica sem esquecer a relação especial com os países que falam português.
Durão Barroso foi o orador convidado das jornadas parlamentares do PSD/CDS-PP, que decorrem até terça-feira, em Cascais (distrito de Lisboa), numa intervenção sobre “A Europa, o Mundo, algumas reflexões a partir de Portugal”.
“Temos o dever de reforçar os sentimentos de comunidade nacional, que alguns procuram pôr em causa. Podemos dizer que o patriotismo não é o nacionalismo, o nacionalismo é o ódio dos outros, o patriotismo é o amor do que é nosso”, disse.
O antigo presidente do PSD elogiou “a belíssima decisão” do Governo PSD/CDS-PP de comemorar os 900 anos da fundação de Portugal.
“Vamos reforçar o nosso sentimento de comunidade nacional, mas num sentido de abertura, e não num sentido de chauvinismo ou de xenofobia”, apelou.
Ao mesmo tempo, elogiou a cumplicidade de Portugal com os países de expressão portuguesa e, em dia de jogo da seleção nacional de futebol, partilhou uma história relacionada com o Mundial, após o jogo entre Cabo Verde e Espanha, ainda na fase de grupos, que acabou empatado.
“Estava cá um amigo meu, uma grande personalidade espanhola, que estava um bocado desiludido e me disse: vocês estavam todos contra a Espanha, estavam por Cabo Verde. E eu disse: tens de compreender uma coisa, vocês são ‘nuestros hermanos”, eles são nossos filhos”, referiu, provocando risos entre a plateia.
Numa intervenção muito crítica para a lentidão das decisões na União Europeia, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros exortou Portugal a não descurar a sua vocação atlântica.
“Somos naturalmente europeus, naturalmente atlânticos e devemos afirmá-lo neste momento em que alguns duvidam disso e devemos afirmá-lo com convicção”, afirmou.
Sobre Donald Trump, Durão Barroso afirmou que, podendo-se “gostar ou não gostar” do presidente dos Estados Unidos da América, todos têm de concordar que “ele mudou a gramática da política” e defendeu que a Europa não o pode culpar por todos os seus problemas.
“A meu ver, nós, europeus, temos sobretudo de fazer os nossos trabalhos de casa. É muito fácil hoje dizer que a culpa é de Trump, mas não é por causa de Trump que a Europa não acabou o seu mercado interno, não é por causa de Trump que a Europa não tem união bancária, não é por causa de Trump que a Europa não tem uma união de mercado de capitais, é porque nós não fizemos ainda o nosso trabalho”, disse.
Ainda assim, admitiu que a Europa está finalmente a confrontar-se com os seus deveres e responsabilidades, em áreas como a defensa e segurança, caminhando-se para “uma europeização da NATO”, por exemplo.
“É por isso que, a meu ver, faz sentido sermos nós, europeus, a assumir a principal responsabilidade no apoio à Ucrânia”, disse.
O antigo presidente da Comissão Europeia não ignorou que a sua intervenção decorreu pouco antes do arranque do jogo da seleção nacional de futebol contra a Espanha – até recebeu uma camisola oficial com o seu nome das mãos dos líderes parlamentares do PSD e CDS-PP -, prometendo ser conciso, já que era “o último obstáculo” que separava os deputados da AD desse momento, mas acabou por falar 40 minutos.
Antes, num painel com o tema “Estado da Nação: um olhar sobre Portugal”, o jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares desafiou os deputados do PSD e CDS-PP a abandonarem “o palavrão das reformas” e a explicarem melhor temas como o pacote laboral ou o trabalho solidário.
Hugo Soares disse aceitar “uma quota-parte da culpa”, mas questionou também o papel da comunicação social, defendendo que se deveria concentrar “menos na espuma dos dias e mais nos problemas das pessoas”.
“É preciso criar uma barreira de proteção ao jornalismo português que passa por os jornalistas serem melhor pagos porque isso também traz independência”, defendeu o líder parlamentar do PSD.




