10 de Junho: De onde vem esse amor por Portugal?

Por Luiz Filho

Todo 10 de Junho me provoca uma pergunta que parece simples, mas não é: por que tantos brasileiros, nascidos deste lado do Atlântico, carregam por Portugal um amor tão profundo, tão íntimo e, às vezes, tão difícil de explicar?

Não falo apenas dos portugueses que deixaram sua terra e atravessaram o mar com malas, trabalho e saudade. Falo também dos filhos, netos, bisnetos e até daqueles que, sem uma ligação sanguínea direta, encontram em Portugal uma forma de pertencimento. Gente que se emociona com uma bandeira, que reconhece um fado mesmo sem conhecer sua história completa, que sente respeito por um brasão, uma aldeia, uma receita, uma fotografia antiga, um nome de família ou um clube criado por imigrantes que já não estão mais aqui.

Talvez o amor por Portugal, para nós luso-descendentes, não seja apenas uma questão de origem. É uma forma de transmissão.

No meu caso, Portugal chegou primeiro pela família. Minha avó materna, Alice Monteiro da Silva Dias, tinha origem em Celorico da Beira, no distrito da Guarda. Meu avô materno, Antônio Dias, vinha de Fornotelheiro, também ligado a Celorico da Beira. Lugares que, para muitos, são pontos no mapa. Para mim, são parte de uma geografia afetiva. São nomes que não vieram apenas como endereço, mas como memória. Vieram nas conversas, nos hábitos, na mesa, nos valores, no modo de olhar a vida.

Costumo brincar que tenho três quartos de ascendência portuguesa. Mas, no fundo, essa conta pouco explica. A alma não respeita matemática. Às vezes, um quarto de memória pesa mais do que uma árvore genealógica inteira. E, no meu caso, mesmo pelo lado paterno, onde a ligação portuguesa era mais distante, Portugal encontrou outro caminho para entrar na minha vida: a Associação Portuguesa de Desportos.

Foi pela Lusa, herdada do meu avô paterno, Mário Teixeira Gonçalves, que a comunidade portuguesa deixou de ser apenas uma referência familiar e passou a ser convivência, arquibancada, discussão, afeto coletivo e compromisso. Curioso como essas coisas acontecem. Às vezes, a porta de entrada para uma cultura não é um livro de história, nem uma viagem, nem um documento. É um jogo de futebol. É uma camisa. É um domingo. É uma derrota sofrida em silêncio ou uma vitória celebrada como se fosse assunto de Estado.

A partir dali, minha relação com a comunidade foi crescendo de modo quase despretensioso. Veio a Lusa Net, vieram os debates, a escrita, a Portuguesa, o jornalismo esportivo, o folclore, os encontros comunitários, as instituições, o Clube Português de São Paulo. Quando percebi, aquilo que parecia apenas carinho havia se transformado em responsabilidade.

E talvez seja exatamente isso que explique o amor do luso-descendente por Portugal. Não é um amor turístico. Não é apenas admiração por Lisboa, pelo Porto, por Fátima, pelos vinhos, pelas serras ou pelas paisagens que o turismo aprendeu a vender tão bem. É um amor que nasce da gratidão por quem veio antes. Portugal, para muitos de nós, tem o rosto dos avós. Tem cheiro de comida de domingo. Tem som de conversa antiga. Tem a força de quem saiu de uma aldeia pequena para construir vida em outro continente. Tem a dignidade do trabalho, a religiosidade discreta, a teimosia boa, a saudade contida e aquela capacidade portuguesa de sofrer sem fazer muito alarde, embora, quando faz, faça com fado e vinho, o que já melhora bastante a dramaturgia.

Há também algo de misterioso nessa relação. Muitas vezes, Portugal talvez nem saiba o quanto é amado por quem ficou do lado de cá. Uma aldeia da Beira, do Minho, de Trás-os-Montes, do Alentejo, da Madeira ou dos Açores talvez não imagine que seu nome ainda é repetido com orgulho em uma casa de São Paulo, do Rio, de Santos, de Campinas ou de qualquer canto do Brasil. Talvez não saiba que uma receita atravessou gerações, que uma fotografia amarelada virou relíquia, que um sobrenome virou bússola, que uma bandeira guardada no armário ainda é capaz de arrancar lágrimas.

E aqui não há cobrança. Há constatação. O amor das comunidades portuguesas no Brasil nem sempre encontra a mesma visibilidade institucional que merece. Mas talvez seja justamente por isso que ele seja tão bonito. Porque não depende de retribuição imediata. É amor de raiz. Amor que permanece mesmo quando a ponte enferruja. Amor que insiste em manter acesa uma chama que poderia, por descuido, ter se apagado.

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas tem, por isso, um significado maior do que uma data oficial. Ele lembra que Portugal não cabe apenas dentro das suas fronteiras. Portugal também vive nos que partiram, nos que ficaram, nos que nasceram longe e nos que escolheram pertencer. Vive nas associações, nos clubes, nos ranchos folclóricos, nas casas regionais, nas bibliotecas, nos jornais, nas missas, nas festas, nos almoços comunitários, nas histórias repetidas à mesa e nos jovens que, mesmo sem terem conhecido os avós portugueses, sentem que há ali alguma coisa que lhes chama.

Mas este amor precisa ser cuidado. Não basta repetir cerimônias. Não basta guardar fotografias. Não basta falar de tradição como quem protege uma peça frágil dentro de uma vitrine. A cultura portuguesa precisa ser vivida, experimentada, atualizada e oferecida às novas gerações com verdade. Não como história contada, mas como linguagem viva. Como identidade que sabe honrar o passado sem se aprisionar nele.

Talvez seja essa a grande missão da comunidade luso-brasileira neste tempo: transformar saudade em presença. Transformar memória em futuro. Transformar herança em participação. Fazer com que Portugal continue a ser amado não apenas porque nossos avós vieram de lá, mas porque nossos filhos e netos ainda encontrarão sentido em se aproximar dessa história.

No fundo, quando tento explicar meu amor por Portugal, percebo que não amo apenas um país. Amo o caminho que trouxe minha família até aqui. Amo a coragem silenciosa dos que atravessaram o Atlântico. Amo a cultura que resistiu dentro das casas, dos clubes e das mesas. Amo a Lusa que me aproximou da comunidade. Amo os nomes antigos que ainda me situam no mundo. Amo a ideia de que uma pessoa pode nascer brasileira e, ainda assim, carregar Portugal em alguma parte muito funda da alma.

Portugal, para mim, é esse país que herdei antes de conhecer.

E talvez seja por isso que, no 10 de Junho, eu não celebre apenas o Portugal do mapa.

Celebro o Portugal que sobreviveu em nós.

Por Luiz Filho
Publicitário, especialista em Negócios e Marketing, com 25 anos de experiência em definição de estratégias e métodos de comercialização para mercados B2B e B2C, análise de produtos, serviços e ações 360º. Atualmente, atua como Consultor On Demand, desenvolvendo ações inovadoras e estabelecendo parcerias comerciais, pela Wixi Marketing.

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