Por Nuno Nabais Freire
Hoje, o fado é sinónimo de imobilidade. O fadista canta de pé, quase sem se mexer, por vezes com as mãos cruzadas, o corpo contido, deixando toda a emoção passar pela voz e pelas cordas da guitarra portuguesa. É uma imagem tão enraizada no imaginário coletivo que custa a acreditar que, durante boa parte do século XIX, o fado era, antes de mais nada, uma dança.
A prova encontra-se no primeiro grande estudo sobre o género: História do Fado, de Pinto de Carvalho, publicado em 1903. O autor descreve o fado como possuindo duas formas distintas de expressão coreográfica.
Uma delas era conhecida como “bater o fado”: um jogo entre duas ou três pessoas, em que uma permanecia imóvel enquanto outra lhe dava pancadas ritmadas nas coxas, “meneando-se com requebros obscenos”, nas palavras do próprio autor. Era praticado por homens de diferentes classes sociais, incluindo, segundo o livro, um padre e o ator José da Bolacheira,mas também por figuras da aristocracia. Entre elas, o Conde de Vimioso, cujo célebre romance com a fadista Maria Severa terá começado, segundo relatos da época, precisamente através do fado dançado.
A outra forma era a dança do fado propriamente dita. Por volta de 1830, existiam bailarinos notáveis que se destacavam tanto no fado como no fandango. Pinto de Carvalho menciona nomes como Salvador Mexerico, Teodósio, os irmãos Castanholas, Manuel Ratão e o Mexelhão. Do primeiro dizia-se que conseguia dançar entre doze ovos colocados no chão sem partir um único — um feito que atraía espectadores de longe. Todos dançavam o fado seguindo a música nota a nota, numa cadência viva que o autor comparava ao movimento das ondas do mar.
A origem desta dança continua, ainda hoje, a dividir os historiadores, embora não de forma equilibrada. Rui Vieira Nery, uma das maiores referências no estudo do fado, defende que a sua génese se encontra no Brasil do início do século XIX, a partir de danças afro-brasileiras como o lundum. Segundo esta perspetiva, o fado terá chegado a Lisboa através das rotas marítimas entre a metrópole e a colónia, ganhando expressão sobretudo a partir da década de 1840.
Uma visão diferente foi proposta por José Alberto Sardinha, que defende uma origem ligada ao romanceiro medieval europeu. No entanto, esta tese tem sido alvo de críticas no meio académico, nomeadamente por não cumprir critérios metodológicos considerados exigentes por investigadores como o próprio Nery.
Também o musicólogo brasileiro José Ramos Tinhorão reforçou a ligação atlântica, argumentando que o termo “fado” já aparecia documentado como dança no Brasil antes de surgir em fontes portuguesas.
Independentemente da sua origem exata, o fado dançado partilhava características com outras danças da época vistas como moralmente suspeitas, como o fandango. Ambas envolviam movimentos de anca e, no caso do fado, podiam culminar na umbigada, um gesto de aproximação entre os pares que escandalizava os setores mais conservadores, sobretudo a Igreja. Não era raro que as autoridades tentassem dispersar estas práticas nas tabernas da Mouraria e de Alfama.
A transformação do fado dançado em fado cantado foi gradual. Ao longo da segunda metade do século XIX, à medida que saía dos ambientes populares e entrava em teatros e salões burgueses, o ritmo abrandou e a atenção passou a centrar-se na palavra, na emoção e na interpretação. Já no século XX, sob o Estado Novo, este processo tornou-se definitivo: a profissionalização dos fadistas, a censura das letras e a imposição de normas de comportamento eliminaram os elementos mais espontâneos e corporais. O fado fixou-se, então, na imagem que hoje conhecemos.
Mas do outro lado do Atlântico, algo inesperado aconteceu.
Na região de Quissamã, no estado do Rio de Janeiro, comunidades descendentes de escravos mantiveram viva, até aos nossos dias, uma forma de fado dançado. Em roda, com sapateado, palmas e instrumentos de corda, esta tradição sobreviveu nas antigas fazendas, acompanhada de um curioso provérbio popular: “o fado é de Deus, o jongo é do Diabo”.
Nos últimos anos, também em Portugal surgiram tentativas de recuperar essa dimensão esquecida. Em 2014, a associação cultural Batoto Yetu lançou o projeto “Fado Dançado”, cruzando o fado com ritmos de Angola, Cabo Verde e Brasil, e devolvendo-lhe parte do movimento que a história foi apagando.
Talvez resida aqui uma das maiores ironias da cultura portuguesa. Enquanto Portugal cristalizou o fado na figura do fadista imóvel, foi no Brasil que sobreviveu a memória de um fado que se dançava. A música que hoje associamos à quietude pode ter nascido, afinal, do movimento.
E compreender essa viagem atlântica é compreender melhor não apenas a história do fado, mas também a história comum que portugueses e brasileiros continuam a partilhar.
Nuno Nabais Freire
Investigador Patrimonial Cultural | Especialista em Dinâmicas de Inovação Territorial , para o Mundo Lusíada




