À LUSA, AOS 106 ANOS: Amor não é silêncio

Por Luiz Filho

Querida Portuguesa,

Hoje você completa 106 anos. Gostaria de escrever apenas sobre suas glórias. Seria confortável, mas não seria autêntico.

Cheguei a você pelas mãos do meu avô. Antes de compreender futebol, aprendi que uma camisa e uma arquibancada também eram formas de pertencimento. Pela Lusa, Portugal deixou de ser apenas uma origem familiar e se tornou convivência, afeto e compromisso.

No início dos anos 2000, esse pertencimento também virou trabalho. Criei a campanha “Orgulho de Ser Lusa” num período em que você já precisava se reaproximar do torcedor. A ideia não era inventar um sentimento, mas lembrar o que sempre esteve ali: as origens, as famílias que ajudaram a construir o clube e o estádio, as arquibancadas e as memórias do futebol. Mais tarde, participei também da criação de algumas camisas da equipe. Não fiz nada disso para contar depois. Fiz porque era a forma que encontrei de cuidar de você.

Escrevi sobre você por quase sete anos no globoesporte.com. Deixei a coluna para assumir a Vice-Presidência de Marketing e Comunicações, acreditando que poderia ajudar por dentro.

Ali conheci muita gente verdadeiramente dedicada à Portuguesa. Mas também vi vaidades, improvisos e disputas internas ocuparem um espaço que deveria pertencer ao clube. Em alguns momentos, questionar decisões parecia mais grave do que tomar decisões erradas. E o silêncio, conveniente para tanta gente, era apresentado como lealdade.

Por isso, não lhe escrevo de fora nem com a isenção confortável de quem apenas observa. Tenho lado. Meu lado é você. E justamente por isso, amor não pode ser silêncio.

Você chega aos 106 anos novamente ferida. Uma SAF anunciada com cifras bilionárias prometeu profissionalizar o futebol e reconstruir o clube. Depois de duas campanhas de Série D, seguimos sem acesso, com o ano encerrado em julho e outra temporada entregue às explicações.

Não rejeito a SAF por princípio. Rejeito a ideia de que uma mudança societária, por si só, possa substituir transparência, cobrança e resultado.

Você é maior do que o futebol. Sua vida social, sua história e sua comunidade importam. Mas ser maior do que o futebol não pode servir para diminuir o fracasso do time. Uma festa cheia não apaga um calendário vazio.

A gestão do futebol foi transferida, mas a responsabilidade institucional não desapareceu. A administração cotidiana pode ser delegada; o dever de acompanhar, cobrar e defender os seus interesses, não. Quando essa presença não é percebida, a sensação deixada ao torcedor é de afastamento. E afastamento prolongado começa, sim, a se parecer com abdicação.

Seu torcedor não quer escolher a escalação nem ocupar uma sala de reuniões. Quer compreender o que foi prometido, o que já foi entregue, quais metas orientam o projeto e como os responsáveis pelo futebol são cobrados quando a entrega não acontece.

Dos investimentos anunciados, o que já se transformou em estrutura, futebol e resultado? Quais são os compromissos para os próximos anos? E o que acontece quando as metas não são cumpridas?

Fazer essas perguntas não significa torcer contra. Significa ainda se importar.

Seu torcedor quer fazer parte da Portuguesa, não ser tratado como um incômodo quando pergunta e como patrimônio emocional quando interessa.

Confiança não é um favor que a torcida deva à gestão. É consequência das respostas que a gestão oferece à torcida.

Depois de cada frustração esportiva, surgem notas, reuniões e novos pedidos de paciência. Fala-se em longo prazo, enumeram-se avanços e a temporada seguinte acaba encarregada de oferecer as respostas que a atual não entregou. O futuro não pode virar o nome elegante dado a prazos que nunca chegam.

Ao presidente e sua diretoria, essa cobrança traz uma responsabilidade adicional. O legado de OTD não é uma fotografia na parede nem um sobrenome para cerimônias. É comando, decisão e defesa da instituição. Talvez a forma mais coerente de homenageá-lo agora seja contrariar conveniências, enfrentar desconfortos e cobrar respostas proporcionais à grandeza da Portuguesa.

Confiar na SAF não dispensa condições, prazos e consequências. Sem cobrança, a confiança institucional corre o risco de se transformar em acomodação.

Lusa, não quero favor, convite ou lugar à mesa. Quero vê-la transparente, respeitada e vencedora.

Hoje celebro sua história sem fechar os olhos para o presente. Sigo com você, como sempre, não porque concorde com todos os que a dirigem, mas porque você existia antes deles e continuará depois.

Feliz aniversário, Portuguesa.

Você merece muito mais do que sobreviver. Merece que ninguém use o amor que inspira como álibi para um silêncio condescendente.

Por Luiz Filho
Publicitário, especialista em Negócios e Marketing, com 25 anos de experiência em definição de estratégias e métodos de comercialização para mercados B2B e B2C, análise de produtos, serviços e ações 360º. Atualmente, atua como Consultor On Demand, desenvolvendo ações inovadoras e estabelecendo parcerias comerciais, pela Wixi Marketing.

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