Após discursar na ONU, o líder do Governo de Portugal elogiou António Guterres como “uma referência moral” e defendeu que língua portuguesa seja idioma oficial na ONU até 2030.
Por Monica Grayley
Da ONU News
Em janeiro de 2027, Portugal voltará a assumir um assento rotativo no Conselho de Segurança da ONU com um mandato de dois anos. O país pretende investir em diálogo e na “construção de pontes” para ajudar a mitigar os efeitos de um mundo cada vez mais polarizado e fragmentado por um número recorde de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial.
Em entrevista à ONU News, o primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, afirmou que apesar de todos os desafios atuais, é preciso ter confiança no multilateralismo e no entendimento entre as nações. Montenegro aposta na vocação universal de seu país para chegar lá.
“Objetivamente, Portugal tem hoje, na sua diplomacia, aquela que é a ideia, talvez, maior do povo português e da nação portuguesa nesses quase 900 anos de história. Que é: somos construtores de pontes, somos uma nação habituada a contactos com todos e à convivência com todos. Somos uma com uma vocação nação universal, objetivamente. E foi também por isso que tivemos o reconhecimento por parte de parceiros, no âmbito das Nações Unidas, para uma eleição que foi, efetivamente histórica, uma eleição à primeira volta. Uma eleição, onde tínhamos como oponentes também candidatos fortíssimos. Mas é evidentemente com base nessa postura de escolher o diálogo, a negociação, a construção de plataformas de entendimento, de escolher essa via como a via da resolução de conflitos e como a via da concertação das nações no tabuleiro da política internacional.”
Luís Montenegro elogiou o trabalho das Nações Unidas, que descreveu em seu discurso como uma “obra-prima política da humanidade”. Segundo ele, mesmo com os desafios geopolíticos, o secretário-geral António Guterres demonstrou ser uma “referência moral” em sua liderança de 10 anos à frente da organização.
“Creio que o secretário-geral António Guterres é hoje uma referência moral em todo o mundo. E é uma referência de respeito pela ideia, pela conceção da Organização das Nações Unidas. É importante que todos também possam integrar na sua ação política. Mas a verdade é que, por razões variadas, e em vários pontos do globo, há muitos líderes políticos e muitas condutas políticas que não estão nesse momento a valorizar o potencial que as Nações Unidas têm.”
O líder do Governo de Portugal ressalta que a crise atual no Oriente Médio, que fez disparar o preço dos combustíveis, é uma espécie de “masoquismo coletivo” no qual todos saem perdendo. Para Luís Montenegro, é possível através da diplomacia resolver este e outros desafios de forma urgente.
“É um problema global. Nos Estados Unidos, o preço dos combustíveis quase que duplicou. Portanto, há uma necessidade de nós resolvermos isso. Porque se estamos todos a ser penalizados, é assim, um pouco, uma espécie de “masoquismo global”, estarmos a contribuir para o nosso problema. Estarmos a contribuir para nos afundarmos do ponto de vista econômico e social. E, portanto, isso são desafios, que o espírito das Nações Unidas deve elevar para poder ter-se uma solução mais rápida.”
Durante sua passagem por Nova Iorque, o primeiro-ministro de Portugal manteve uma agenda cheia participando de várias reuniões bilaterais com chefes de Estado e de Governo, discursou no Encontro de Alto Nível sobre Ação Climática e Transição Justa ressaltando que 70% da energia utilizada em seu país vem de fontes renováveis. Além disso, ele tocou o sino para abertura do pregão na Bolsa de Valores de Nova Iorque, fortalecendo o perfil de Portugal como destino de investimentos estrangeiros.
E segundo Montenegro, o sucesso de Portugal não é obra do acaso, mas deve-se “à capacidade do povo português de se superar” diante dos desafios.
“Nós conseguimos fazê-lo, nós conseguimos revitalizar o país e somos neste momento uma referência, como estava a dizer, do ponto de vista econômico, do ponto de vista financeiro. Vamos, se tudo correr normalmente, para o quarto ano consecutivo com um superávit. E estamos numa trajetória de diminuição da nossa dívida que já é inferior a 90% do PIB quando há pouco tempo era superior a 130%.”
Comunidade Lusófona
Nas Nações Unidas, Portugal tem liderado iniciativas nas áreas de paz e segurança, se destacado como país-contribuinte para as Missões de Paz da organização, patrocina e apoia resoluções sobre ação climática e proteção marinha, tecnologia digital, além de investir na defesa dos direitos das mulheres, crianças e juventude. Com acesso a uma rede de países nos quatro cantos do globo, pelos seus laços históricos, Portugal participa ainda da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Cplp. Para o primeiro-ministro, essa parceria com as nações lusófonas agrega valor a Portugal fora e dentro de casa tendo como fio condutor a língua em comum.
“Somos um país que recebe aqueles que desejam ter uma oportunidade de todas as origens, mas evidentemente que aqueles que falam a nossa língua, aqueles que compreendem e vivem a nossa cultura, aqueles que têm uma identidade conosco, aqueles que têm uma identidade conosco, aqueles que têm uma afinidade conosco, aqueles que são no fundo, os nossos familiares mais próximos, os nossos irmãos da Comunidade dos Países Lusófonos. Esses têm condições de adaptação muito mais favoráveis.”
Meta sobre língua oficial
O primeiro-ministro de Portugal encerrou a entrevista informando que iniciou ao lado de outros países de língua portuguesa um grupo de trabalho informal para estudar o caminho que levará o português a se tornar língua oficial das Nações Unidas.
Para Montenegro, com um universo de 300 milhões de falantes e como a maior língua no Hemisfério Sul, já está na hora de o português assumir o seu protagonismo na maior organização internacional do mundo.
“Já há desde dois anos, que nós vimos mantendo contato regular uns com os outros. Sobretudo, protagonizados pelos nossos ministros dos Negócios Estrangeiros, mas com a realização de Cimeiras Bilaterais, e também, naturalmente, aproveitando os encontros da Cplp, da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Mas posso dizer-lhe que o assunto está a evoluir, nem sempre tão rápido quanto nós desejamos, mas tem havido também outras prioridades. Nós não podemos afastar-nos também daqueles que são os desafios que todos nós estamos a enfrentar em todos os momentos. E, portanto, parece-me que o caminho está aberto, o caminho está neste momento em uma perspectiva, um desenho que eu acho poderá vir mesmo a materializar-se.”
Em 2008, o Governo de Portugal lançou a iniciativa para “Internacionalização da Língua Portuguesa” em uma Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Cplp, em Lisboa, com o objetivo de aumentar a presença do idioma no mundo elevando assim a afirmação política das nações lusófonas no cenário global.
Nas Nações Unidas, atualmente, existem seis língua oficiais: árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo.



