Há Fado no Cerrado – VI Colectânea de Poesia Lusófona em Paris

Foto Jean Carlos Vieira Santos

Por Jean Carlos Vieira Santos

Na “VI Colectânea de Poesia Lusófona em Paris” (2025), antologia organizada por Adélio Amaro e Frankelim Amaral, que reúne expressivo número de vozes lusófonas, há o texto intitulado “Há Fado no Cerrado” produzido por mim. A inspiração para esse título surge do legado literário de Leodegária Brasília de Jesus e Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, conhecida sob o pseudônimo “Cora Coralina”.

A produção poética inserida no volume editado em Coimbra estabelece uma ponte audaciosa entre a vibrante força telúrica do Cerrado brasileiro e um geografar poético materializado no espaço da obra. Ao enunciar que “Há fado no Cerrado”, os versos não se limitam a reverenciar a herança lusófona da primeira capital goiana, pois pretendem conduzir o leitor à apreensão das subjetividades e memórias encerrada singularmente na poética de Cora e Leodegária – uma percepção que me permite partilhar enquanto geógrafo, leitor e pesquisador.

Por meio do ato de leitura e escrita ocorreu o encontro com a palavra Fado no Poema “Goyaz”, da obra “Orchideas”, de 1928. Isso me fez compreender, a partir da literatura, que “Há fado no Cerrado”, cujo texto poético traduz o profundo sentimento da autora pela terra:

[…] Ó Pátria minha estremecida e bella,/Não mais verei o teu azul risonho/Mas, onde quer que me conduza o fado,/Jamais te esquecerei, berço adorado,/De minha dor primeira!/Do meu primeiro sonho!/Aqui, onde exilou-me a desventura/E a mocidade minha saturada/De amargores fallece, tristemente,/Vivo a sonhar contigo, eternamente,/Ó terra de minh’alma! Ó Pátria idolatrada! (Leodegária de Jesus, 1928, p. 19-20, grifo nosso).

Nesse percurso de estudo se sobressai o poema “Todas as Vidas”:

[…] Vive dentro de mim/a mulher roceira./– Enxerto da terra,/meio casmurra./Trabalhadeira./Madrugadeira./Analfabeta./De pé no chão./Bem parideira./Bem criadeira./Seus doze filhos/Seus vinte netos./[…]Vive dentro de mim/a mulher da vida./Minha irmãzinha…/tão desprezada,/tão murmurada…/Fingindo alegre seu triste fado./[…]Todas as vidas dentro de mim:/Na minha vida –/a vida mera das obscuras. (Cora Coralina, 2003, p. 33, grifo nosso).

Tais versos evidenciam que as poetisas da antiga capital goiana honram o termo “fado”, o qual se move pela história e lugar considerado destino turístico nos dias atuais, sem se esgotarem nas partes textuais apresentadas. Portanto, a escrita na poesia “Há fado no Cerrado”, mesmo que “Longe do Mar e do Tejo” (como está na última estrofe), se refere à Cidade de Goiás e repousa sobre a figura de duas balizas da literatura goiana, em uma terra distante de qualquer litoral, mas brilhantemente conectada ao Rio Vermelho e à cultura cerratense.

Assim, reflito que as produções literárias de Cora e Leodegária, fadistas ou não, emergem do Cerrado imbuídas do mesmo tom grave e solene das guitarras de Lisboa. À guisa de última consideração, sublinho que as obras referenciadas transcendem o mero estatuto de textos literários e constituem, em última análise, um espaço de interlocução viajante, cujo ponto de convergência reside na imortalidade da palavra “fado”.

Referências

AMARO, Adélio; AMARAL, Frankelim. VI Colectânea de Poesia Lusófona em Paris. Coimbra: Portugal Mag Editora, 2025.

CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. 21. ed. São Paulo: Global, 2003.

JESUS, Leodegária Brasília de. Orchideas – Poesias. São Paulo: Admin. da Ave Maria, 1928.

Jean Carlos Vieira Santos

Professor e Pesquisador da Universidade Estadual de Goiás (UEG/TECCER-PPGEO). Pós-doutorado em Turismo pela Universidade do Algarve (UALg/Portugal) e Doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia (IGUFU/MG).

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