Neste dia 07, o candidato presidencial Henrique Gouveia e Melo disse à Lusa que não existem “portugueses de segunda” e criticou os partidos que deixaram um vazio ocupado por “uma direita mais radical” na comunidade portuguesa no Brasil.
“Há uma falência de alguns partidos que não acautelaram, que não fizeram o seu trabalho que podem fazer em termos das alternativas democráticas”, afirmou à Lusa o candidato presidencial, que terminou uma visita ao Brasil, no qual manteve contato com a comunidade luso-brasileira no Rio de Janeiro e em São Paulo.
O partido Chega venceu eleições legislativas no Brasil com 51,9%, repetindo a vitória alcançada no ano anterior.
“Onde há vazio, o vazio é ocupado. E esse vazio é com a política tradicional e com os partidos a não perceberem os novos nomes, quer na comunicação, quer nas preocupações que afetam os eleitores, e acabou por facilitar o caminho para um partido de uma direita mais radical”, sustentou.
Gouveia e Melo frisou considerou que “a culpa não é das pessoas nem do Estado”.
“A culpa é das propostas que acabam por não aliciar ou serem conhecidas do grande público, até no Brasil, e esse vazio é ocupado por quem, de forma pragmática mas oportunista, o ocupa”, considerou, defendendo que deve ser seguida por parte dos representantes portugueses uma “politica de proximidade”.
“Aqui não há português de primeira e de segunda”, frisou Gouveia e Melo, que viveu em São Paulo durante cerca de quatro anos, quando era adolescente, e que até hoje mantém familiares na cidade.
“Ou nós consideramos que os portugueses são só aqueles que têm nacionalidade e vivem no território nacional, ou então consideramos que os portugueses são uma comunidade mais alargada que vive não só no território nacional, mas que vivem noutros territórios”, disse.
Esses portugueses, prosseguiu, “não são portugueses de segunda, são portugueses como todos os outros e têm os seus direitos, têm os seus direitos cívicos”.
Para o candidato presidencial, deixar esta comunidade abandonada em termos de opções políticas e de representação das suas revindicações e preocupações “é abandonar esses portugueses com capacidade eleitoral a um oportunismo político que aparecerá sempre quer seja do centro, da direita ou da esquerda”.
“Neste caso, veio da direita”, disse, considerando contundo que estes “portugueses não são radicais”
Ainda assim, na sua opinião, é “um erro considerar que todos os portugueses estrangeiros são da direita ou da extrema-direita”.
Dívida de gratidão
Gouveia e Melo considerou hoje que existe “uma dívida de gratidão” de Portugal com o Brasil e que a comunidade brasileira no país deve ser bem tratada, tal como aconteceu com a comunidade portuguesa no Brasil.
“Este país foi criado por portugueses e depois por muitos outros estrangeiros”, e recordou que “os portugueses foram sempre bem recebidos no Brasil”.
“Portanto há uma dívida de gratidão e é da forma como podemos tratar esta comunidade em Portugal”, insistiu, numa altura em que a imigração tem sido um dos principais temas do debate político em Portugal.
As principais preocupações que ouviu da comunidade luso-brasileira foi precisamente a nova lei da imigração e o “impacto que terá” no futuro.
“Eles preocupam-se muito, porque também já são brasileiros, naturalmente, e preocupam-se muito como é que a comunidade brasileira é recebida em Portugal” e, apesar de “não sentirem na pele, há uma preocupação genuína como é que os portugueses tratam os brasileiros em Portugal”, disse o candidato a Belém.
Gouveia e Melo afirmou que procurou tranquilizá-los, dizendo que “estes impactos a existir serão mais sobre comunidades que não têm uma afinidade cultural e histórica” com Portugal.
“Quando nós vemos no outro uma diferença grande, quando essa diferença não existe. São pessoas como todos nós que querem fazer as suas vidas, querem ter uma chance nas suas vidas como nós a fizemos durante centenas de anos aqui no Brasil”, sublinhou Henrique Gouveia e Melo.
Na sua opinião, Portugal deve ter um cuidado maior para com os cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) até porque “o grande problema dos focos migratórios muitas vezes é a integração dos novos migrantes na comunidade existente”.
“Os migrantes dos países que vêm da CPLP, não somente no Brasil, mas da CPLP, são migrantes que têm todas as condições de integração praticamente garantidas à partida” pela cultura e pela língua, considerou.
A integração, nesses casos, está mais facilitada, até porque “não são extremistas, são indivíduos moderados e querem viver numa sociedade pacífica”, defendeu.
O candidato presidencial afirmou ainda que quando a imigração é bem integrada na sociedade ela é benéfica para qualquer país.
“Se for mal integrada, criará fenômenos de autoexclusão. Por sua vez, vai incentivar também fenômenos de exclusão da grande sociedade e polarizará a sociedade”, considerou, acrescentando que essa polarização mina o próprio processo democrático, “no sentido de implementar extremismos”, que “usarão esse argumento como argumento de partida para as suas teses securitárias e extremistas”.
Militar
O candidato disse que a sua candidatura provoca “reações estranhas e verdadeiramente antidemocráticas” através de críticas pelo fato de ter tido uma carreira militar e de ser independente e de não ter tido uma carreira política.
De acordo com Gouveia e Melo, as críticas à sua campanha têm-se centrado nestes temas, que considera demagógicos.
“Um dos temas é que eu, como militar, não devia estar na política”, disse.
O outro, além da preparação política, é de que supostamente vai fazer “a translação de coisas más que existem dos militares para a política”.
“É desinformação, é propagar a desinformação, propagar uma ideia e um medo que não existe, principalmente militares que foram criados já no processo democrático com juramento à própria Constituição”, frisou, considerando que tais argumentos significam “a existência de uma casta política que é dona da democracia”.
Gouveia e Melo vai ter como principiais adversários nas eleições presidenciais de janeiro de 2026 o ex-líder do PSD Luís Marques Mendes, o presidente do Chega, André Ventura, o eurodeputado da IL João Cotrim de Figueiredo, o ex-líder socialista António José Seguro, o histórico deputado comunista António Filipe e a anterior coordenadora nacional do BE Catarina Martins.
Henrique Gouveia e Melo iniciou a sua agenda no Brasil no sábado, no Rio de Janeiro, com uma visita ao Mercado Municipal do Rio de Janeiro, seguida de uma visita ao Clube de Regatas Vasco da Gama, no Estádio de São Januário. À noite, participou no jantar comemorativo dos 114 anos da Câmara Portuguesa de Comércio e Indústria do Rio de Janeiro.
Ainda no Rio de Janeiro, no domingo, visitou o Real Gabinete Português de Leitura e, mais tarde, participou num encontro com a comunidade portuguesa, no Auditório do Porto Maravalley.
A agenda prosseguiu em São Paulo, na segunda-feira, com uma visita à Escola Estadual Caetano Campos e, à noite, com um encontro com a comunidade portuguesa, na Casa de Portugal.




