Parceria Histórica entre São Paulo e Lisboa reforça a Cultura Luso-Brasileira

>> Nesta coluna, Luiz Filho conta o que está por trás do acordo inédito entre o Clube Português de São Paulo e a Fundação Luso-Brasileira e por que ele pode ser o ponto de virada para quem acredita que nossa cultura merece ir muito além da nostalgia.

Por Luiz Filho

No dia 14 de novembro de 2025, o Clube Português de São Paulo e a Fundação Luso-Brasileira, sediada em Lisboa, formalizaram um termo de parceria institucional que tem tudo para marcar um ponto de virada na comunidade luso-brasileira. Mais do que um documento, trata-se de um compromisso assumido em dois continentes para recolocar a cultura lusófona no centro da vida associativa, urbana e contemporânea.

De um lado, está o Clube Português de São Paulo, fundado em 1920 e hoje um dos raros espaços centenários ligados à presença portuguesa na capital paulista. São décadas de bailes, almoços, encontros, homenagens e uma memória viva que passa pela sua biblioteca histórica e por uma agenda que sempre refletiu a alma lusa em terras brasileiras. Do outro, a Fundação Luso-Brasileira, instituição portuguesa com a missão de apoiar projetos culturais, educativos, tecnológicos e patrimoniais que aproximem Portugal, Brasil e demais países de língua portuguesa, atuando como ponte entre iniciativas, entidades e empresas em todo o espaço lusófono.

O acordo firmado entre as duas instituições estabelece um eixo claro: fortalecer, de forma coordenada, a promoção da cultura luso-brasileira e lusófona, tanto no Brasil quanto em Portugal. Entre as frentes já em estudo estão ações conjuntas em bibliotecas históricas, projetos literários, festivais de fado e de música contemporânea, circuitos de eventos urbanos, festivais de rua e a realização do primeiro festival de cinema português e das comunidades de língua portuguesa no Brasil. Alguns desses projetos já estão em fase de desenho e deverão ser anunciados em breve ao público.

Essa parceria surge em um contexto conhecido de quem vive o dia a dia das associações: o desafio de renovar quadros sociais, atrair novos públicos e fazer sentido para as gerações que cresceram num mundo digital, fragmentado e acelerado. Em muitos casos, a cultura portuguesa ainda é vista apenas como memória ou tradição distante. O que o Clube Português e a Fundação Luso-Brasileira propõem é algo diferente: tratar a cultura como experiência atual. Fazer com que o fado dialogue com novas linguagens musicais, que a biblioteca histórica converse com o audiovisual e com o cinema, que a gastronomia se apresente em formatos de festival de rua, que a história da imigração apareça em formatos que façam sentido para quem hoje descobre o mundo pelo telemóvel.

Em termos práticos, isso significa construir eventos e projetos que não falem apenas com quem já está dentro das entidades, mas também com lusodescendentes, simpatizantes e pessoas que têm afinidade com Portugal, mesmo que nunca tenham participado de uma festa folclórica, de um jantar ou de um evento solene. A meta é aumentar a aderência às associações e transformar o “gosto por Portugal” em presença ativa, participação, convívio e sentimento de pertença.

Há, nesse termo, um ponto que considero essencial: o compromisso explícito de colocar o protagonismo institucional acima do protagonismo individual. A parceria não nasce para decidir “quem fez o quê”, nem para alimentar disputas de bastidor. Nasce para somar forças. Da parte do Clube Português de São Paulo, vejo este termo como mais do que um ato institucional. É um convite para reposicionar a imagem das nossas casas tradicionais como espaços vivos de cultura, diálogo e criação conjunta. Ao assumir publicamente que o objetivo não é disputar visibilidade, mas convergir, damos um passo importante para tirar a comunidade da lógica dos núcleos fechados e colocá-la em rede: menos formalismo, mais projeto; menos nostalgia isolada, mais futuro compartilhado.

O encontro que formalizou a parceria também ajuda a entender o alcance dessa visão. De Lisboa veio Paulo Campos Costa, presidente da Fundação Luso-Brasileira, profissional com mais de três décadas de experiência em cargos executivos ligados à marca, marketing e comunicação, incluindo a direção global de Brand, Marketing & Communications do grupo EDP, antes de assumir a liderança da Fundação. Ao seu lado, o vice-presidente, Álvaro Covões, fundador da Everything Is New, uma das principais promotoras de espetáculos em Portugal, responsável por grandes festivais e pela vinda de alguns dos maiores nomes da música internacional ao país. Completa a representação da Fundação no Brasil a advogada Luciane Tomé, especialista em nacionalidade portuguesa e mobilidade luso-brasileira, que acompanha diariamente o movimento de brasileiros em busca de duplo pertencimento: jurídico, cultural e afetivo.

Pelo Clube Português de São Paulo, estive presente como diretor de Marketing e Relações Institucionais, função que me coloca exatamente nesse ponto de tensão produtiva entre tradição e futuro: como honrar a memória de uma entidade centenária sem ficar preso a um único modelo de sociabilidade, e como criar condições para que novas gerações se reconheçam nesses espaços.

Durante o encontro, Paulo Campos Costa sintetizou o espírito do acordo em uma frase que carrega muito da história comum entre os dois países: “Entre Portugal e o Brasil não podem existir entraves; quando partilhamos a mesma língua e a mesma história, o natural é criar pontes, não barreiras.” Não é apenas retórica: trata-se de uma linha mestra para a atuação da Fundação, que há décadas apoia iniciativas que cruzam cultura, educação, ciência, tecnologia e diplomacia entre os dois lados do Atlântico.

Álvaro Covões trouxe o olhar de quem vive a cultura no palco e nas ruas. Para ele, o desafio agora é transformar boa vontade institucional em experiência concreta para o público: “Temos condições únicas de levar a cultura portuguesa para além dos salões, ocupando a cidade de São Paulo com festivais, concertos, cinema, gastronomia. E, em sentido inverso, abrir em Lisboa espaço para projetos e criadores que nascem na comunidade luso-brasileira. Quando a cultura ocupa a cidade, a comunidade se reencontra.” A frase aponta para algo fundamental: a cultura ganha outra dimensão quando sai dos espaços tradicionais e passa a fazer parte da vida urbana.

Na sua atuação diária com processos de nacionalidade, Luciane Tomé vê o impacto simbólico dessa parceria sob outra perspectiva: “Todos os dias vejo brasileiros que procuram a nacionalidade portuguesa como um projeto de futuro. Quando o Clube Português e a Fundação Luso-Brasileira se unem, a mensagem que passa é que essa ligação não é só documental. É cultural, afetiva, comunitária. É como dizer à diáspora: vocês têm casa dos dois lados do Atlântico.” A ideia de “ter casa” em ambos os países é um dos motores dessa nova fase.

Da minha parte, vejo este acordo como uma oportunidade rara para reposicionar a comunidade luso-brasileira diante de si mesma. Se conseguirmos transformar esse termo em projetos consistentes (festivais que ocupem a cidade, ações em bibliotecas históricas que dialoguem com o presente, circuitos de música e cinema que envolvam jovens criadores, programas que aproximem empresas e instituições culturais) teremos dado um passo concreto para fazer da lusofonia algo vivido, e não apenas evocado em discursos.

A história da imigração portuguesa no Brasil mostra que a nossa força sempre esteve na capacidade de adaptação, trabalho e construção. Hoje, o desafio é outro: adaptar também a forma como contamos essa história e como a colocamos em movimento. A parceria entre o Clube Português de São Paulo e a Fundação Luso-Brasileira aponta justamente nessa direção: usar o passado como alicerce, não como limite. Se soubermos aproveitar esse momento, a comunidade luso-brasileira pode deixar de se ver apenas como guardiã de memórias e passar a se reconhecer também como protagonista de um futuro comum, de cá e de lá do Atlântico.

Por Luiz Filho
Publicitário, especialista em Negócios e Marketing, com 25 anos de experiência em definição de estratégias e métodos de comercialização para mercados B2B e B2C, análise de produtos, serviços e ações 360º. Atualmente, atua como Consultor On Demand, desenvolvendo ações inovadoras e estabelecendo parcerias comerciais, pela Wixi Marketing.

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