As Rosas de Barbacena e a coragem de escrever contra o esquecimento

O novo romance de Alberto S. Santos transforma uma das feridas mais brutais da história brasileira em literatura de memória, consciência e responsabilidade. Alberto S. Santos é advogado, teve atuação política destacada em Portugal e hoje ocupa um cargo de enorme relevância institucional como Secretário de Estado da Cultura de Portugal.

Por Luiz Filho

Há lançamentos literários que chegam ao público apenas como novidade editorial. Outros chegam com um peso maior, mais humano, mais incômodo e, por isso mesmo, mais necessário.
É assim que vejo As Rosas de Barbacena, novo romance de Alberto S. Santos, obra que não pede apenas leitura, mas atenção. Tive o prazer de conhecer Alberto no ano passado, durante sua visita ao Clube Português de São Paulo, e reencontrá-lo agora por meio deste lançamento dá ao livro um significado ainda mais especial.
Porque não estamos diante de uma ficção qualquer. Estamos diante de uma narrativa que escolhe tocar, com coragem, numa das páginas mais violentas e degradantes da história brasileira.
Alberto S. Santos já construiu um percurso sólido na literatura portuguesa, especialmente no campo da ficção histórica. Ao longo dos anos, mostrou-se um autor interessado em episódios reais, personagens intensos e contextos que exigem pesquisa, sensibilidade e responsabilidade.
Paralelamente à vida literária, também construiu uma carreira pública relevante. É advogado, teve atuação política destacada em Portugal e hoje ocupa um cargo de enorme relevância institucional como Secretário de Estado da Cultura de Portugal. Essa condição não define o valor do romance, naturalmente, mas aumenta o peso simbólico de sua escolha.
Quando um escritor com esta trajetória decide escrever sobre Barbacena, é evidente que não o faz por curiosidade superficial, mas porque reconhece que certos episódios da história humana não podem ser empurrados para o esquecimento.
E Barbacena é um desses nomes que exigem ser tratados com seriedade. O antigo Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, tornou-se ao longo do século XX um dos maiores símbolos da barbárie institucional no Brasil. Ali, milhares de pessoas foram internadas sem critério médico legítimo, sem defesa e, muitas vezes, sem qualquer transtorno mental. Eram pobres, indesejados, marginalizados, mulheres abandonadas, pessoas incômodas para suas famílias ou para a ordem social.
O que aconteceu ali não pode ser suavizado por frases elegantes. Foi uma tragédia prolongada. Fome, frio, superlotação, violência, eletrochoques, abandono e morte. Barbacena deixou de ser apenas um lugar para se tornar um símbolo do que uma sociedade pode fazer quando decide esconder seus incômodos atrás de muros e diagnósticos.
É justamente nesse ponto que As Rosas de Barbacena ganha força. O romance não utiliza essa história apenas como pano de fundo dramático. Ele transforma essa ferida em centro moral da narrativa. A trama acompanha Teresinha, internada grávida no Hospital Colônia, e Bernardo, personagem que se recusa a aceitar o apagamento como destino natural da dor alheia. A partir daí, a narrativa se expande em torno de silêncio, ausência, separação, busca e memória. É uma história de perdas, mas também de insistência. E isso faz diferença. Há obras que usam grandes tragédias apenas para dar gravidade ao enredo. Aqui, a tragédia não é ornamento. Ela é consciência.
O título do livro, por si só, já carrega uma força simbólica rara. Barbacena é historicamente associada às rosas, imagem que remete à delicadeza, à beleza e à tradição. Mas o romance trabalha justamente no choque entre essa imagem e a memória brutal da cidade. Há algo de profundamente perturbador nessa convivência entre a flor e o horror, entre o jardim e o confinamento, entre o que floresce e o que foi desumanizado. As rosas, nesse contexto, deixam de ser simples adorno poético. Passam a funcionar como testemunhas silenciosas de um passado que não pode ser perfumado pela conveniência. E é esse tipo de construção simbólica que separa um livro apenas competente de uma obra com densidade real.
Outro mérito de Alberto está no modo como aborda um tema que poderia facilmente escorregar para o sentimentalismo fácil ou para a exploração exagerada do sofrimento. Assuntos como esse exigem contenção, maturidade e respeito. A dor real não precisa de enfeite. Precisa de tratamento responsável. E o que se percebe aqui é justamente a tentativa de fazer da literatura um espaço de lembrança, não de espetáculo. Em tempos em que tanta coisa é escrita para gerar impacto rápido, emoção imediata ou repercussão superficial, encontrar uma obra que se aproxima da memória com gravidade é algo que merece reconhecimento. Há uma diferença enorme entre escrever sobre a dor e usar a dor. Alberto parece compreender bem essa diferença.
Também me parece importante destacar o que este lançamento representa no campo cultural mais amplo. Quando um escritor português, e ainda por cima alguém que hoje ocupa a função de Secretário de Estado da Cultura, decide olhar para uma tragédia brasileira com tamanha seriedade, ele está fazendo mais do que publicar um romance ambientado no Brasil. Está reafirmando que o espaço da língua portuguesa pode ser também um espaço de memória partilhada, reflexão crítica e responsabilidade cultural. Durante muito tempo, parte da relação entre Brasil e Portugal foi narrada quase sempre pelos caminhos mais previsíveis, como tradição, gastronomia, música, herança e afetos. Tudo isso tem seu valor. Mas existe um outro nível de maturidade quando essa mesma ponte cultural também se permite tocar em assuntos difíceis, desconfortáveis e historicamente densos. Isso fortalece a relação luso-brasileira de maneira muito mais profunda.
Talvez seja justamente por isso que As Rosas de Barbacena mereça atenção especial dos leitores do Mundo Lusíada. Porque mostra que a literatura de língua portuguesa continua capaz de cumprir uma função nobre, lembrar com humanidade aquilo que a sociedade muitas vezes preferiu empurrar para as margens. E, no caso de Barbacena, lembrar não é um gesto abstrato. É uma necessidade ética. A literatura não repara por si só o que foi destruído. Não devolve vidas perdidas, nem recompõe famílias desfeitas. Mas ela pode impedir que a banalização complete o trabalho do esquecimento. E isso, num tempo de excesso de superficialidade e consumo rápido de tudo, já é muito.
Há ainda um aspecto pessoal que torna este lançamento mais significativo para mim. Ter conhecido Alberto em São Paulo, num ambiente de proximidade cultural como o do Clube Português, permitiu perceber não apenas o escritor, mas também a pessoa culta, acessível e comprometida com a dimensão humana da cultura. Isso ajuda a compreender por que um autor com uma obra já consolidada escolhe agora um tema tão duro. Não é apenas uma escolha de repertório. É uma escolha de posicionamento. E isso merece ser reconhecido. Num mercado tantas vezes marcado pela velocidade, pela fórmula e pela superfície, Alberto opta por escrever sobre um episódio que ainda nos constrange como sociedade. Opta por não tratar a literatura como distração elegante, mas como instrumento de memória.
No fim, As Rosas de Barbacena parece nos lembrar de algo simples e duro ao mesmo tempo. Uma sociedade pode esconder pessoas, pode esconder dores, pode esconder injustiças e até tentar organizar o passado com discursos convenientes. Mas o horror não desaparece porque foi silenciado durante muito tempo. Ele permanece. E, mais cedo ou mais tarde, volta a exigir linguagem, testemunho e coragem. Alberto S. Santos escolheu responder a essa exigência com literatura. E por isso este lançamento não merece apenas ser anunciado. Merece ser lido com seriedade. Porque, neste caso, estamos diante de um romance que não fala apenas de Barbacena. Fala sobre o preço do silêncio, sobre o abandono institucionalizado e sobre a importância de ainda existirem escritores dispostos a escrever contra o esquecimento.

Por Luiz Filho
Publicitário, especialista em Negócios e Marketing, com 25 anos de experiência em definição de estratégias e métodos de comercialização para mercados B2B e B2C, análise de produtos, serviços e ações 360º. Atualmente, atua como Consultor On Demand, desenvolvendo ações inovadoras e estabelecendo parcerias comerciais, pela Wixi Marketing.

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