> A comunidade avançou em cooperação, mas ainda precisa ser reconhecida por quem está fora das embaixadas, universidades e círculos associativos.
Por Luiz Filho
Quem acompanha as instituições luso-brasileiras conhece uma cena recorrente. Falamos de Portugal com familiaridade, preservamos a memória da imigração e celebramos suas tradições. Quando a conversa chega aos demais países da CPLP, porém, quase tudo parece distante. A língua é a mesma; o conhecimento que temos uns dos outros, não.
A primeira edição do Barômetro da Lusofonia deu números a essa percepção. Divulgado no ano em que a CPLP completa três décadas, o levantamento ouviu 5.688 adultos em oito países. A Guiné Equatorial, nono integrante, ficou fora por questões logísticas. Os brasileiros demonstraram o menor conhecimento sobre esse universo.
Ao citar outros países onde se fala português, 62% dos brasileiros lembraram de Portugal. Angola apareceu em 31% das respostas; Moçambique, em 16%; Cabo Verde, em 11%; e Guiné-Bissau, em 6%. No maior país de língua portuguesa do mundo, o resultado deveria causar incômodo.
Fundada em 17 de julho de 1996, a CPLP nasceu como espaço de concertação política e cooperação. Atua em setores como educação, saúde, ciência, cultura, economia e mobilidade, além de promover a língua portuguesa. Hoje reúne nove países em quatro continentes. Seu sentido não pode ser medido apenas pelo que acontece nas reuniões oficiais.
O Barômetro expõe também uma assimetria cultural. A produção brasileira circula e forma referências nos demais países, enquanto 38% dos entrevistados no Brasil afirmaram não ter curiosidade pelas manifestações culturais das outras nações de língua portuguesa. Em Cabo Verde e Timor-Leste, somente 3% responderam da mesma forma. O Brasil fala para quase todos, mas ainda escuta muito pouco.
Nosso tamanho continental ajuda a explicar esse comportamento. Temos um mercado interno gigantesco e produção cultural abundante. Mas a geografia não explica tudo. A imprensa dedica pouco espaço aos países africanos de língua portuguesa e muitas vezes só os apresenta em situações de crise. Nas escolas, estudamos pouco suas histórias, independências, autores e culturas, embora conhecê-los ajude a compreender a formação brasileira.
Até Portugal, com quem mantemos uma relação próxima, costuma chegar ao imaginário brasileiro por um repertório limitado. A imigração, o turismo, o futebol e a gastronomia são vínculos legítimos. Ainda assim, não explicam o Portugal contemporâneo, assim como uma lembrança vaga do passado colonial não permite compreender as sociedades africanas ou Timor-Leste.
Essa distância ajuda a entender por que 61% dos brasileiros disseram não conhecer a CPLP. Não indica rejeição à ideia de comunidade. Revela que sua presença ainda é pouco percebida fora dos ambientes que acompanham o tema, apesar do trabalho realizado ao longo de três décadas.
Seria injusto afirmar que tudo permanece restrito às chancelarias. No Brasil, a Academia Brasileira de Letras, a Fiocruz, a FGV, o Real Gabinete Português de Leitura e a Unicamp estão entre os Observadores Consultivos da CPLP. Em São Paulo e no Rio, integrantes do Conselho das Comunidades Portuguesas e do Conselho da Diáspora Portuguesa atuam nas relações luso-brasileiras, embora pertençam a estruturas ligadas a Portugal e à diáspora, não à CPLP. Associações, universidades e fundações também trabalham em diferentes frentes.
A existência dessa rede torna o resultado do Barômetro ainda mais significativo. O desafio está em fazer essas iniciativas alcançarem a sociedade com maior capilaridade. Uma comunidade ganha sentido quando estudantes conhecem autores de outros países, universidades desenvolvem pesquisas conjuntas, livros circulam, artistas encontram novos públicos e empresas identificam possibilidades reais de cooperação.
O Brasil tem responsabilidade especial nesse processo, pelo tamanho da população e pela influência que exerce. Isso não autoriza uma liderança paternalista, como se os demais países fossem extensões do nosso mercado. Exige escuta, reciprocidade e disposição para conhecer o que já é produzido fora daqui. Quem ocupa o maior espaço também precisa aprender a abrir espaço.
Os 30 anos da CPLP merecem celebração e uma avaliação honesta. A organização criou instrumentos relevantes, como o Acordo de Mobilidade. Agora precisa ser reconhecida por quem está fora das embaixadas, universidades e círculos associativos. No Brasil, esse caminho começa por uma tarefa elementar: conhecer melhor os povos com os quais afirmamos dividir uma comunidade. A língua já permite a conversa. Falta criar mais ocasiões para que ela aconteça.
Por Luiz Filho
Publicitário, especialista em Negócios e Marketing, com 25 anos de experiência em definição de estratégias e métodos de comercialização para mercados B2B e B2C, análise de produtos, serviços e ações 360º. Atualmente, atua como Consultor On Demand, desenvolvendo ações inovadoras e estabelecendo parcerias comerciais, pela Wixi Marketing.




