ONU: Angola ressalta papel como mediadora da paz na África

Foto ONU/Cia Pak

Da Redação com ONUNews

No seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente de Angola, João Lourenço, sublinhou que investir na capacidade africana de prevenir e resolver conflitos também é apostar na paz e segurança internacionais.

O presidente indicou que Angola tem procurado contribuir para a construção e consolidação da paz em África e no mundo, considerando que o quadro global atual “não traduz, de modo algum, os anseios dos povos à harmonia e ao entendimento entre as nações”.

Soluções africanas para os conflitos africanos
“O nosso empenho nos assuntos que dizem respeito à paz, à resolução dos conflitos pela via do diálogo, ao respeito pelas normas que regem as relações internacionais e à defesa do direito internacional é levado a sério pelo meu país, que não regateia esforços para aproximar as partes em conflito e criar consensos em África.”

No discurso, ele diz que nenhuma arma é mais poderosa do que a diplomacia, sendo que é capaz de “unir, reparar, construir e salvar vidas de povos, nações e da própria humanidade”.

Sobre a segurança internacional, o líder angolano condenou o terrorismo “em todas as suas formas”, alertando, ao mesmo tempo, para a deterioração da paz e da segurança global, sob o risco da aproximação de “uma conflagração global”.

João Lourenço considera que a participação de alguns membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU nos conflitos na Europa e no Golfo Pérsico “constitui um motivo de preocupação e um mau exemplo para o resto do mundo”.

O presidente sublinha que, numa altura em que a boa governação dos países está no centro da agenda, também “na governação do mundo” se clama por uma nova ordem mundial, mais democrática e mais justa.

Neste contexto, pediu uma reforma profunda do Conselho de Segurança, capaz de garantir a representação de África, da América Latina e da Ásia na condição de membros permanentes e “com todos os poderes e direitos inerentes”.

Garantir a centralidade da voz africana
O presidente angolano também entende que “a voz dos africanos deve ser escutada em todas as circunstâncias”, desde os processos de decisão sobre a paz, segurança mundial e financiamento, bem como questões climáticas e de governação mundial da inteligência artificial.

Segundo o chefe de Estado, os países africanos gastam muito mais recursos com os valores exorbitantes do serviço da dívida do que aquilo que conseguem investir nos programas de saúde, educação e construção de infraestruturas.

Este ano em que Angola celebra 50 anos da chegada às Nações Unidas, o presidente ressaltou os dividendos da independência para o país.

Timor

Ao assumir a tribuna da Assembleia Geral da ONU nesta quarta-feira, o presidente de Timor-Leste, José Ramos Horta, agradeceu, em português, ao secretário-geral da ONU, António Guterres, pelos 10 anos dedicados ao cargo.

Ele qualificou Guterres como um líder “compassivo e esclarecido, incansável, humilde e acessível”, que não se deixou deslumbrar pela visibilidade do cargo nem intimidar pelo enorme peso da agenda.

Apoio a uma liderança feminina na ONU
“Manteve-se humilde, honesto e fiel aos seus princípios, cuidando dos milhões de mulheres e crianças rejeitadas e esquecidas, apanhadas no turbilhão de guerras desencadeadas por senhores da guerra. À medida que as guerras se prolongam e se tornam demasiado dispendiosas, os bombeiros são responsabilizados por não conseguirem apagar os fogos que os próprios incendiários atearam”.

Guterres encerra seu mandato em 31 de dezembro deste ano e o processo para a escolha de uma nova liderança está em curso.

Ramos Horta disse que após mais de 80 anos com homens à frente da organização, é preciso ter “a sabedoria de eleger uma mulher de integridade inquestionável, com uma trajetória ilibada na defesa dos direitos humanos e forte atuação em prol da igualdade de gênero e da inclusão”.

O presidente de Timor-Leste abriu espaço para mensagens escritas por jovens timorenses, que foram convidados a compartilhar suas esperanças e sonhos.

Uma das mensagens, da jovem Emilly, de 16 anos, dizia: “Que possamos construir um mundo onde nenhuma criança conheça o som da guerra antes do som do riso, e onde nenhum sonho seja enterrado por causa do ódio de outra pessoa”.

Já o jovem Solomon, de 12 anos, escreveu a seguinte proposta: “A todos os povos que governam o nosso mundo: as crianças não deveriam ter que aprender sobre todas as guerras nas aulas de história; deveríamos aprender os nomes das estrelas, os nomes dos pacificadores e como chegar ao planeta Marte”.

Ramos Horta participou, no ano passado, do lançamento da Declaração Global da Compaixão, juntamente com outros chefes de Estado e ganhadores do prêmio Nobel da Paz, para promover uma governança mais responsável. 

Ele afirmou que os mercados e a tecnologia foram globalizados, “mas agora chegou o momento de globalizar a compaixão, não como uma emoção passiva, mas como uma força poderosa para alcançar justiça e paz para todos”.

O presidente de Timor-Leste declarou que o salão das Nações Unidas reúne países grandes e pequenos, “alguns imensamente ricos, muitos outros chocantemente pobres”. Segundo ele, apesar de todos desfrutarem do direito ao voto, “a igualdade é uma ilusão”.

Ramos Horta enfatizou que alguns possuem armas obsoletas e inofensivas, enquanto poucos outros aperfeiçoaram seus arsenais nucleares, agora cem vezes mais destrutivos do que aqueles lançados sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945.

Ele afirmou que os países que acumulam armas nucleares mantêm toda humanidade vivendo à beira de uma “catástrofe iminente” e que a qualquer momento, “por acidente, erro de cálculo, falha de computador, insanidade ou um projeto estratégico insensato, podemos nos tornar a última geração humana”.

O líder timorense pediu ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que seja “audacioso, imprevisível e visionário”, convidando todas as potências nucleares para uma cúpula, visando à desativação e destruição total dos arsenais nucleares ao longo de uma década.

Ramos Horta ressaltou que a Carta das Nações Unidas não foi escrita para tornar os fortes fracos. Foi escrita para impedir que os fortes tornem o mundo inabitável.

Brasil

Já o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, assumiu a tribuna da Assembleia Geral como primeiro orador do debate de líderes internacionais este ano. Para Lula, existe um sentimento de indignação com os ataques generalizados ao multilateralismo em várias partes do globo. Segundo ele, a diplomacia é a única opção para resolver desafios globais.

Lula descreveu seu sentimento pessoal como indignação e disse que “liderar é conciliar o interesse da pátria com o interesse de toda a humanidade.”

“Este é o momento mais crítico das Nações Unidas. O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis – os que não têm exército, nem arsenais – nunca foi tão pequena. Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel. Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto.” 

O líder brasileiro lembrou que o ano passado registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Para ele, é preciso conter conflitos regionais que avançam para “tragédias de proporções globais”.

Debate

Debate Geral de líderes internacionais na ONU teve início a 22 de setembro e prolonga-se até 28 de setembro. A sessão inaugural foi marcada pela intervenção de António Guterres, que participa, pela última vez, enquanto secretário-geral na Assembleia Geral das Nações Unidas.

Por tradição, o Brasil foi o primeiro Estado a discursar na Assembleia Geral, seguido pela intervenção do presidente norte-americano, Donald Trump. João Lourenço e Luiz Inácio Lula da Silva foram os únicos presidentes lusófonos a fazer uso da palavra na sessão desta terça-feira.

Na quarta-feira, foi a vez de Timor-Leste e Moçambique subirem à tribuna. Portugal irá discursar na quinta-feira, seguido pela Guiné-Bissau, na sexta-feira, e por Cabo Verde, que encerrará, no sábado, a participação dos países lusófonos na 81ª Assembleia Geral.

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