Quando o Google responde por você: O novo desafio do SEO, das marcas e da memória cultural luso-brasileira

Foto Reprodução: Unsplash @pawełczerwiński

No artigo, Luiz Filho analisa como o avanço do Google Gemini e das IAs conversacionais ameaça a visibilidade de marcas, negócios e até a memória cultural luso-brasileira.

O marketing digital vive uma transformação silenciosa, mas que promete revirar o jogo de marcas, agências e produtores de conteúdo. Nas últimas semanas, a chegada do Google Gemini diretamente ao navegador Chrome, combinada com o avanço das buscas generativas, acendeu o alerta em mercados do mundo inteiro. A razão é simples: estamos diante do início do “SEO conversacional”, um novo paradigma em que a Inteligência Artificial passa a entregar respostas completas, eliminando a necessidade do usuário clicar em sites, colocando em xeque o tráfego orgânico que sustentou milhões de negócios nas últimas duas décadas.

Para o Brasil, quarto maior mercado mundial do Google em volume de buscas, e também para Portugal, o impacto é inevitável. E não se trata apenas de tecnologia, mas de uma mudança de comportamento: o usuário já começa a preferir conversar com o buscador, pedir recomendações diretas, comparativos e até roteiros prontos, sem visitar página alguma. Um estudo global divulgado pela Forbes Tech (jun/2025) aponta que 76% dos usuários que experimentaram ferramentas como o Gemini ou o ChatGPT integrado a buscadores dizem “gostar mais de ter uma resposta pronta do que clicar em links”. O dado revela o quanto o funil de tráfego, do clique até a conversão, está ameaçado.

Mas o que isso significa para o branding, para o comércio luso-brasileiro e, inclusive, para a preservação da nossa cultura portuguesa no Brasil? Significa que construir autoridade nunca foi tão vital. Se antes o objetivo era ficar na primeira página do Google, hoje o desafio é ainda maior: fazer com que a IA cite sua marca ou seu conteúdo na resposta direta. O SEO tradicional perde força para o que especialistas já chamam de SEO sem cliques ou “zero-click”, onde o buscador entrega tudo ali mesmo.

Para as marcas portuguesas presentes no Brasil, que já enfrentam o dilema entre tradição e inovação, o cenário complica. Vinhos, azeites, porcelanas, bacalhau, todos dependiam de matérias especiais em portais, guias gastronômicos ou buscas informativas que conduziam o cliente ao site oficial ou ao e-commerce do importador. Agora, o risco é que o Google Gemini passe a resumir “as melhores marcas de vinho do Douro” em poucas linhas, sem jamais levar o usuário a explorar o universo do produtor. Isso reduz oportunidades de storytelling, um ativo fundamental para produtos que carregam herança e identidade.

O mesmo vale para as instituições culturais. Imagine o usuário pesquisando “por que a Casa de Portugal em São Paulo é importante?” e o Gemini devolvendo uma resposta rasa, sem mencionar a história da imigração, o acervo de obras raras ou as relações institucionais que fortalecem o laço Brasil-Portugal. Se o conteúdo online não estiver robusto, estruturado e presente em fontes que a IA considera confiáveis, o assistente simplesmente omitirá detalhes, perpetuando um esquecimento digital.

E não é ficção. O PropMark (maio/2025) destacou que agências brasileiras já correm para reconfigurar suas estratégias, prevendo quedas de até 30% no tráfego orgânico em setores fortemente dependentes de Google. Nos Estados Unidos, empresas de mídia negociam contratos para que seus artigos sejam lidos e indexados pelas IA generativas, temendo perder relevância. O próprio Google anunciou parcerias com publishers para “alimentar o Gemini com conteúdo de qualidade”, em outras palavras, quem não tiver um ativo digital forte, será ignorado.

Portanto, para empresas portuguesas no Brasil, negócios luso-brasileiros e entidades culturais, o caminho é claro: invistam em conteúdo profundo, estruturado e confiável. Não basta ter um site bonito; é preciso ter artigos bem referenciados, cases que reforcem autoridade, relatórios de impacto cultural, histórias genuínas. Textos rasos e páginas genéricas não servem mais: a IA privilegia conteúdos que demonstrem expertise, experiência e credibilidade, o chamado E-E-A-T (Experience, Expertise, Authoritativeness, Trustworthiness), critério que o Google já utiliza para treinar seus modelos.

Além disso, será cada vez mais estratégico integrar dados e narrativas que ressaltem o valor cultural luso-brasileiro, mostrando porque a nossa história é relevante, para que a IA a perpetue em suas respostas. Isso serve tanto para marcas de produtos típicos quanto para o Clube Português, a Casa de Portugal ou o Real Gabinete Português de Leitura. Todos precisam garantir que suas memórias digitais sejam ricas, pois é delas que a Inteligência Artificial se alimenta.

No fim, essa revolução do SEO conversacional coloca todos, do pequeno comerciante ao grande centro cultural, diante da mesma encruzilhada: ou se tornam referências digitais, dignas de serem “citadas pela IA”, ou desaparecem dos olhos (e das respostas) do consumidor. É o momento para Portugal e Brasil reforçarem não só seus laços históricos, mas também seu compromisso com a construção de uma presença digital que orgulhe nossa herança e prepare o futuro.

Por Luiz Filho
Publicitário, especialista em Negócios e Marketing, com 25 anos de experiência em definição de estratégias e métodos de comercialização para mercados B2B e B2C, análise de produtos, serviços e ações 360º. Atualmente, atua como Consultor On Demand, desenvolvendo ações inovadoras e estabelecendo parcerias comerciais, pela Wixi Marketing.

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