Prêmio Pessoa: Lídia Jorge apela à vigilância sobre Inteligência Artificial em defesa do pensamento humano

A escritora Lídia Jorge acompanhada pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, durante a cerimónia de entrega do Prémio Pessoa 2025 realizada na Caixa Geral de Depósitos, Lisboa, 10 de fevereiro de 2026. MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

 Neste dia 10, o Presidente português condecorou Lídia Jorge com a grã-cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada, depois de lhe entregar o Prémio Pessoa 2025, e elogiou-a também por afirmar o “lugar do escritor enquanto cidadão”.

 A escritora Lídia Jorge incitou à vigilância sobre a Inteligência Artificial (IA), numa defesa do “pensamento autónomo e singular”, na sua intervenção durante a entrega do Prémio Pessoa 2025, em Lisboa, de que é a vencedora.

Para a autora do romance “Misericórdia” (2022), “no mundo de hoje, decomposto, à beira do estado de alucinação”, a linguagem, a Poética, o pensamento são determinantes, tal como a vigilância sobre o poder das máquinas e a falsidade difícil de desmontar.

“A IA generativa imita, e a imitação pode passar por uma invenção emotiva saída de uma entidade que não experimenta emoção”, afirmou. A IA “não tem nem aflição, nem espanto, nem dor, nem raiva, nem alegria, nem pranto”, apenas “fornece linguagem como se os tivesse”.

Assiste-se assim, defendeu a escritora numa intervenção em que evocou a importância de Fernando Pessoa, da sua obra e dos seus heterónimos, “a um corte epistemológico entre o criador e a criatura”.

Por isso, para Lídia Jorge, “em nome do futuro, convém ficar vigilante”.

“Provavelmente, estaremos à beira de obter benefícios fantásticos para as nossas vidas, mas convém perceber se o nosso pensamento autónomo e singular não será aniquilado de todo, no meio da inundação de benefícios. A nossa esperança é de que a linguagem, que na mitologia cristã nos funda como início, não tenha fim enquanto formos donos dela”, advertiu.

A autora referiu uma sua experiência com os ‘chats’ GPT e Gemini que lhe “ofereceram gratuitamente duas soluções acabadas”, “mas falsas”, dos fragmentos da “Ode à Noite”, de Álvaro de Campos, que se suspende quando “a lua começa a ser real”.

“Os ‘chats’ em questão imitaram o que era possível imitar, o tipo de linguagem. O resto é falsidade. No entanto, não é fácil desmontá-la”, assegurou Lídia Jorge.

“Para avaliar o que se passa com o mundo de hoje, decomposto, à beira estado de alucinação, é bom usar a Poética como campo de pesquisa”, argumentou, referindo que “a Poesia corresponde à articulação mais sofisticada das línguas, a metáfora corresponde a uma engenharia alquímica da linguagem, ela serve de último paredão que se ergue sem cedências contra a intervenção algorítmica na construção do discurso”.

Numa intervenção em que citou anteriores distinguidos com o Prémio Pessoa, Lídia Jorge afirmou que “foi uma imensa surpresa” quando lhe comunicaram, no passado mês de dezembro, que foi a vencedora da 39.ª edição.

Um prémio que “pela sua natureza e pelo nome do seu patrono” a “intimida”, confessou a escritora. E revelou que precisa “de imaginar que o anjo do bom humor se encontra pendurado” a rir para si, na altura em que o recebe.

“Talvez a troçar de mim pelo facto de, durante uns instantes, ter sido estendido, sobre os meus vestidos literários comuns, a capa de um rei”, considerando que Fernando Pessoa, o patrono do prémio, “é mais do que um rei, é o imperador da poesia do Século XX”.

“Tudo na sua obra, de que a sua vida é um capítulo, e não o contrário, é poderoso e tocante. Até mesmo as suas contradições colossais”, disse Lídia Jorge, para a seguir recorrer a um dos biógrafos do autor de “Mensagem”, Richard Zenith, que dele falou “como aquele que diante do visível, fosse de que género fosse, e de forma absoluta, procurava o invisível”.

Afirmando-se como uma narradora surgida com a Democracia, afirmou: “Nós, os que viemos nos anos oitenta [do século XX], tínhamos pressa em passar a faca pela lembrança de uma pátria pobre, amordaçada, que andou aos pedaços por África, e que de súbito queria parecer descolonizada, moderna e rica, mas ainda não o era, e ainda hoje demora a ser”.

No início do seu discurso, Lídia Jorge, que desde 2021 é conselheira de Estado, agradeceu a presença do Presidente da República na cerimónia, que considerou um presente a si mesma.

Dirigindo-se a Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou: “Chamam-lhe o Presidente dos afetos, mas é pouco. O senhor foi e continua a ser o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo. E esse é um legado extraordinário”.

A escritora Lídia Jorge recebeu o Prémio Pessoa, numa cerimónia na sede da Caixa Geral de Depósitos (CGD), em Lisboa, em que também esteve presente a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes.

A escritora foi distinguida em dezembro passado, numa edição do prémio que teve por júri Francisco Pedro Balsemão, como presidente, Paulo Macedo, presidente da comissão executiva da CGD, que patrocina o galardão, Ana Pinho, Ana Tostões, António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, Emílio Rui Vilar, José Luís Porfírio, Maria Manuel Mota, Pedro Norton, Rui Magalhães Baião, Rui Vieira Nery e Viriato Soromenho-Marques.

Em ata, o júri realçou a “escrita criativa e diversificada” da autora de “Misericórdia”, que “tem sido capaz de revelar o poder da literatura para ajudar a compreender os grandes desafios do mundo contemporâneo”, assim como “a sua intervenção cívica corajosa”, que “tem contribuído decisivamente para enriquecer o debate democrático na sociedade portuguesa”.

“A obra de Lídia Jorge incide sobre um espetro muito amplo de temáticas, desde o impacto de situações vivenciais extremas nos seus personagens à recriação de contextos que evocam momentos históricos decisivos da vida portuguesa do último século, em particular no período pós-25 de Abril [de 1974], como a descolonização, a transição da ditadura para a democracia, a exclusão social e a emergência de novos fenómenos de discriminação e fratura social”, lê-se na decisão do júri.

Nascida há 79 anos em Boliqueime, no Algarve, Lídia Jorge estreou-se no romance em 1980 com “O Dia dos Prodígios”. Ao longo da carreira, recebeu os mais importantes prémios literários portugueses e internacionais, como o Prémio Médicis de Melhor Romance Estrangeiro publicado em França, por “Misericórdia”, em 2023, e o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas em 2020, de Guadalajara, um dos mais importantes da América Latina.

Ao Prémio Pessoa juntam-se outras distinções que a autora de “O Vale da Paixão” (1998) e “Os Memoráveis” (2014) tem recebido, designadamente, os prémios da Latinidade, da União Latina e Luso-Espanhol de Arte e Cultura.

O Prémio Pessoa tem um valor monetário associado de 70 mil euros.

Presidente

O Presidente da República, que discursou antes, salientou o “envolvimento mais direto” de Lídia Jorge “com a realidade política e social portuguesa”, a seu convite, como conselheira de Estado e nas últimas comemorações do 10 de Junho.

“O que quero assinalar não é que Lídia Jorge tenha assumido nestes anos essa posição atenta e interventiva, mas que a sua atenção e intervenção foram reconhecidas pelo Presidente”, declarou.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, “é justo dizer que o seu discurso público do 10 de junho, em Lagos, e as intervenções mais restritas no Conselho de Estado”, nos últimos anos, alargaram a “perceção quanto à sua figura e ao seu empenhamento, extravasando muito o público que acompanha a ficção portuguesa”.

“Boa parte do que se diz hoje acerca de Lídia Jorge tem a ver com o prolongamento e diversificação do seu projeto literário. Mas com Lídia Jorge assistimos, sobretudo, a uma reiteração e densificação – infelizmente sem continuidade evidente nas gerações posteriores – do lugar do escritor enquanto enquanto cidadão, enquanto alguém que se preocupa e nos diz: preocupem-se”, acrescentou.

O Presidente da República considerou que “o seu desassossego, que é antes de tudo com a palavra, a frase, o parágrafo, a estrutura, se inscreve também na linhagem do escritor como consciência nacional” ou “consciência social” do tempo presente.

“Inquietação, boa vontade, humanismo, consciência são inseparáveis dos seus livros. Como é inseparável a ideia, que como Presidente procurei não esquecer, de que a História de Portugal é complexa, é discutível, tem glórias e tem traumas e não pode ser convocada a benefício de inventário, mas como um todo”, prosseguiu.

O chefe de Estado descreveu Portugal como “um país feito de diversas comunidades residentes expatriadas, de emigrantes e de imigrantes”, com “muitas histórias por contar e por resgatar”, entre as quais “a da diversidade e igualdade de todos os portugueses e de todas as pessoas, contra os revivalismos de má memória e o divisionismo que os portugueses têm sabido tão sensata e tranquilamente rejeitar”. 

“Agradeço a Lídia Jorge, como leitor, os seus livros. Agradeço a Lídia Jorge, como Presidente da República, o seu serviço a Portugal e aos portugueses. E, na linha de uma tradição aberta aqui na entrega deste prémio, uma vez completada essa entrega, entregarei, em nome dos portugueses, a Lídia Jorge, a grã-cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada, que significa o máximo reconhecimento daquilo que lhe devemos em prol da cultura portuguesa”, anunciou. 

A Ordem de Sant’Iago da Espada destina-se a distinguir o mérito literário, científico e artístico.

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