Livro aborda as primeiras construções do Brasil colonial

Por Roberto C. G. Castro
com Jornal USP

Seis desenhos produzidos no início do século 17 reproduzem as primeiras construções edificadas nas então chamadas Capitanias do Sul do Brasil colonial, que se estendiam do Espírito Santo até o litoral paulista. Hoje guardados na Real Academia de la Historia, em Madri, na Espanha, eles são descritos e analisados pelo professor Nestor Goulart Reis, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP, no livro Arquitetura e Urbanismo nos Primeiros Tempos – Outras Fontes, Outras Leituras, que acaba de ser lançado pela Editora da USP (Edusp). “Com essa documentação, podemos compreender melhor as características da arquitetura urbana dos primeiros tempos da colonização nessa região, sobre a qual até aqui pouco sabíamos”, escreve Goulart Reis.

Os desenhos reproduzem imagens relacionadas a nove povoações das Capitanias do Sul – São Paulo, Santos, São Vicente, Santo Amaro, Bertioga, Rio de Janeiro, Cabo Frio, Vitória e Vila Velha. De acordo com Goulart Reis, elas surgiram graças a uma “mudança na perspectiva política” dos países ibéricos – então reunidos na chamada União das Coroas (1580-1640) – em relação às suas possessões de ultramar. Espanha e Portugal passaram a investir na expansão terrestre de suas colônias, em detrimento da expansão marítima. Com isso, mapas terrestres se tornaram mais necessários do que cartas náuticas. “Até 1580, não havia documentos de cartografia oficial específicos sobre as formas dos núcleos urbanos do Brasil”, afirma Goulart Reis, notando a existência, a partir daquela data, de uma política de registro de dados, relatórios e trabalhos cartográficos como instrumentos de controle administrativo sobre os territórios conquistados. “Essa foi a época da implantação dos primeiros cursos para formação de engenheiros militares, de início em Lisboa, depois em Madri. Foi também a época da contratação de numerosos engenheiros italianos, que realizaram trabalhos importantes em Portugal e no Brasil, entre eles Baccio da Filicaia, primeiro engenheiro-mor do Brasil.”

As principais construções registradas nos desenhos são fortificações militares, igrejas, conventos e ermidas (pequenas igrejas construídas em locais ermos do interior). A imagem que trata da Vila de São Paulo, por exemplo, reproduz, provavelmente, a igreja construída pelos padres jesuítas entre 1555 e 1560, que deu origem à atual metrópole de São Paulo. Essa suposição se baseia no fato de que as igrejas e os conventos representados ali, com formas simples, pequenas proporções e sem janelas na fachada, se assemelham às igrejas portuguesas daquele tempo. “Antes da grande expansão marítima portuguesa, a arquitetura religiosa local obedecia a padrões mais simples. Devemos concluir que as obras do século 16 e da primeira metade do século 17 reproduziriam no Brasil essa arquitetura, nitidamente diferente da que seria utilizada em épocas posteriores”, escreve Goulart Reis. “Eram essas certamente as características das obras do Brasil no primeiro século de colonização e nas primeiras décadas do século 17, formas que foram substituídas quando começaram a ser adotadas as ‘modernizações’ que buscavam atender às diretrizes do Concílio de Trento.” O desenho mostra ainda, à direita, o Rio Tamanduateí. Entre o rio e a igreja há uma cerca, que delimita a chamada “horta dos padres”.

Os desenhos que retratam as povoações de São Vicente e Santos também registram edificações surgidas nos primeiros anos da colonização do Brasil. Num deles, São Vicente é indicada com duas torres de igrejas, que hoje não mais existem. “A não ser que fossem apenas registros simbólicos, poderiam ser a dos jesuítas, à frente, com vista para a baía, e a matriz mais ao fundo”, destaca Goulart Reis. “Ambas estavam entre as obras religiosas mais antigas do Brasil.”

Em outro desenho, veem-se uma igreja e uma construção com três portas. A pouca distância, está marcado o local do engenho construído a mando do navegador português Martim Afonso de Souza, que em 1532 chegou à região e fundou a vila de São Vicente. Inicialmente denominado Engenho do Senhor Governador, a construção foi adquirida pelo comerciante belga Erasmo Schetz, passando a se chamar Engenho São Jorge dos Erasmos. Atualmente, suas ruínas são um patrimônio tombado, sob administração da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP.

Rio de Janeiro
O Rio de Janeiro está retratado num desenho que representa a Baía de Guanabara, com a cidade em um dos seus lados. Como observa Goulart Reis, vê-se, à esquerda, o Morro do Castelo, sítio da fundação da cidade. Ao lado, na parte plana, próximo à praia, estende-se a área urbana em formação. No Morro do Castelo, destacam-se a Matriz de São Salvador e o colégio dos jesuítas, com sua igreja. Representada com uma nave central e duas laterais, a matriz tem, na fachada, uma grande porta de entrada e apenas um óculo (abertura circular ou oval na parede para a entrada de luz natural e ventilação). “As posições dos edifícios mais importantes e dos acidentes geográficos (os morros e as praias) correspondem ao existente”, enfatiza Goulart Reis. “Não se trata, portanto, de uma representação aleatória e podemos acreditar que suas partes sejam, também elas, documentos fidedignos.”

Através do desenho, tem-se uma ideia de como eram a igreja dos jesuítas, inaugurada em 1588, e o colégio, construído a partir de 1584. “Pelo modo de representação, fica evidente que a igreja estava voltada em direção à praia da cidade, por onde se formava a Rua Direita, correspondendo, portanto, à posição do edifício. Em sua fachada é assinalado apenas um óculo no frontão, como na matriz”, escreve Goulart Reis. “Essas seriam as obras mais antigas da cidade.”

Ainda de acordo com Goulart Reis, os seis desenhos que retratam as primeiras edificações do Brasil colonial foram adquiridos pela Real Academia de la Historia, de Madri, em 1830, sem que se saiba sua procedência. Em 1999, a historiadora Carmen Manso Porto identificou os documentos e os publicou no livro Cartografia Histórica Portuguesa: Catálogo de Manuscritos – Século XVII e XVIII. Com cópias digitais desses originais enviados pela historiadora, o professor elaborou o livro agora lançado pela Edusp.

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