As alterações climáticas têm sido mais rápidas do que a capacidade de ação dos governos na adaptação de edifícios e outras estruturas a fenómenos extremos de calor, secas e enxurradas, disse à Lusa o arquiteto Nuno Sampaio.
“O Governo está a fazer um esforço muito grande para a transição energética e substituição de caixilharias, mas isso hoje já não chega”, afirmou o diretor executivo da Casa da Arquitetura, em entrevista à agência Lusa.
De acordo com Nuno Sampaio, curador da Bienal de Arquitetura Ibero-Americana, a realizar em novembro na capital do Brasil, Brasília, esta é uma discussão para a qual existe um interesse cada vez maior por parte das autoridades e dos arquitetos.
“Estas bienais já trazem estes assuntos para cima da mesa, mas temo que a necessidade de intervenção vá ter de ser em regime de emergência, porque precisamos de transformar rapidamente, de introduzir a árvore no espaço público e isso custa dinheiro”, vaticinou.
Para as intervenções adequadas são necessários estudos, no sentido de serem escolhidas as árvores certas para cada local, em termos de copa e da caldeira indicada para a árvore poder respirar.
“Há umas que têm mais pólen, outras que sujam mais, outras que entopem mais a drenagem das águas. Isto não é só plantar árvores, tem de haver estudos para se conseguir escolher qual o tipo de vegetação que melhor se adapta às condições, às orientações da própria rua, do espaço público”, indicou o arquiteto.
“É realmente muito necessário que haja praças de proximidade, onde as crianças possam ir brincar, os adultos possam ir passear o cão e onde se possam sentar. Hoje, nas nossas ruas, não existem bancos, o que é muito castrador para uma pessoa mais velha, por exemplo”, lamentou.
“As ruas em Portugal são, muitas delas, canais de passagem de automóveis ou de peões, não são espaço em permanência”, acrescentou, defendendo alterações no espaço público que possam também contribuir para um melhor ensombramento das casas.
Na opinião de Nuno Sampaio, as intervenções necessárias não podem ser adiadas. “Estamos já em momentos emergenciais”, alertou.
Nas novas construções, devem privilegiar-se, no projeto, varandas com zonas onde possa crescer vegetação, avançou o arquiteto quando desafiado a apresentar algumas soluções, face ao aquecimento do clima.
Dilema europeu
As ondas de calor podem pôr em causa metas definidas pela Europa contra o aquecimento global, dada a necessidade de adotar medidas de refrigeração dos edifícios, defendeu.
“A Europa está neste momento num impasse. Por um lado, quer atingir as metas ambientais e poupar energia, não ter ares condicionados, nem outras fontes de gastos energéticos. Por outro lado, está a sofrer com a mudança climática, que obriga a que os edifícios tenham ar condicionado, o que é completamente contrário às metas que definiu”, afirmou o arquiteto Nuno Sampaio.
Dados divulgados na quarta-feira pelo Eurostat, revelaram que o consumo de energia para arrefecer as habitações na União Europeia duplicou em apenas seis anos, impulsionado pelo aumento das temperaturas e pela maior utilização de ar condicionado.
“Será provavelmente o continente que mais sofrerá com as alterações climáticas, principalmente o norte da Europa, o sul também, mas o norte foi sempre desenhando cidades para responder às condições climáticas que tínhamos, que era frio”, observou.
Na arquitetura, recordou, trabalhava-se para não se dissipar o calor que se produzia dentro das casas. “Eram feitos isolamentos térmicos muitíssimo grandes, por fora dos edifícios, e aqueciam-se as casas e o importante era não deixar que o calor saísse”, referiu Nuno Sampaio ao analisar a situação dos países da Europa central e do norte.
O frio continuará a existir, mas segundo as projeções climáticas, as temperaturas elevadas serão cada vez mais frequentes e intensas, devido ao aquecimento global. “Isto é uma coisa que já é irreversível”, observou.
Os arquitetos estudam, neste momento, como adaptar habitações e cidades aos fenómenos extremos de calor e de chuvas intensas, causadas por uma maior evaporação.
“Temos de conseguir acomodar esta nova situação”, disse Nuno Sampaio, que é também curador da Bienal de Arquitetura Ibero-Americana, marcada para a primeira semana de novembro, em Brasília, onde estes temas estarão em discussão.
“A preocupação em alguns momentos do ano na Europa é termos um pico de calor, que aquece a cidade, o espaço público, e as construções não estão preparadas para dissipar esse calor”, admitiu Nuno Sampaio, dando como exemplo a falta de ventilação transversal, com janelas desenhadas para não abrirem ou de reduzida dimensão.
No caso dos países nórdicos, com pouca luz, as janelas de grandes dimensões não dispõem de proteção solar. “Pelo contrário, o que eles queriam era que entrasse luz, para não gastarem em iluminação interna”.
Da mesma forma, as grandes paredes de vidro dos edifícios, ao estarem hoje expostas a um “sol mais forte” deixam entrar uma temperatura “muito elevada”, explicou Nuno Sampaio, salientando que ao contrário de outros países mais habituados a temperaturas elevadas, na Europa central e do norte, os sistemas não estão preparados para arrefecimento.
“Não foram trabalhados para isso, têm pavimentos de aquecimento central, com piso radiante, aquecimento de radiadores, não têm ar condicionado”, salientou o arquiteto.
Para Nuno Sampaio, a Europa, que se destacava até aqui na luta contra as alterações climáticas, pode vir a ter “a primeira grande zona terrestre a sofrer diretamente”, pondo em causa as metas que estabeleceu para mitigar o aquecimento global.
Fachadas trabalhadas com elementos que ajudem a baixar a temperatura do edifício e vegetação fazem parte das soluções enumeradas por Nuno Sampaio, no âmbito das opções com menor impacto ambiental.
“A Europa vive este drama neste momento porque está numa área territorial que foi feita para proteger do frio e manter o calor dentro de casa, para agora ter de lidar com temperaturas e exposições solares altíssimas. Não tem as condições, nem da arquitetura da cidade, nem da construção, nem muitas vezes da própria estrutura de arrefecimento”, concluiu Nuno Sampaio, que pretende envolver os governos de Portugal, Espanha e Brasil na discussão destas questões na Bienal de Arquitetura Ibero-Americana.
“Quando a arquitetura não ajuda, a tecnologia ajuda. Só que no caso da tecnologia, o ar condicionado não é muito bom para o ambiente”, advertiu.
A Europa, considerou o arquiteto, está perante um dilema que precisa de resposta a curto prazo, porque já está a sofrer os efeitos do aquecimento do clima, quando a transformação da cidade e da arquitetura implicam intervenções de médio e longo prazo.




