Incêndios: Movimento critica falta de limpeza e acusa políticos de abandono

Residentes protegem as suas habitações do incêndio em Covelo, Gondomar, 17 de setembro de 2024. Desde domingo, as chamas chegaram aos distritos do Porto, em Gondomar, de Braga, em Cabeceiras de Basto, de Viseu, em Penalva do Castelo e Nelas (com seis feridos), e de Castelo Branco, em Louriçal do Campo. Mas foi o distrito de Aveiro, com 10 mil hectares já ardidos, o centro dos maiores focos de incêndio, em Oliveira de Azeméis, Sever do Vouga, Albergaria-a-Velha e Águeda. JOSÉ COELHO/LUSA

O movimento Rede de Resposta a Incêndios/Floresta do Futuro acusou hoje as elites políticas de abandonarem o mundo rural, não dando prioridade à limpeza das florestas após o comboio de tempestades do início do ano em Portugal.

“Mais de 30 mil hectares ardidos até aos primeiros dias de julho confirmam o pior ano desde 2017: Portugal foi abandonado pelas suas elites”, refere em comunicado o movimento, criado em 2022, que visa sensibilizar a sociedade para a prevenção de fogos e valorização do mundo rural.

“O início deste mês foi devastador, com mais de 15 mil hectares de área ardida, o que faz do incêndio de Vouzela um dos maiores mega-incêndios da história recente de Portugal”, mas “nada do que está a acontecer era inesperado ou inevitável” e, “nos meses que se aproximam, é expectável um cenário ainda mais grave, já que a floresta derrubada pelas tempestades de janeiro continua acumulada no terreno, secando à espera de arder”.

Para a dirigente do movimento Sílvia Carreira, a resposta do poder político tem sido “permitir que o abandono se agrave e criar condições para uma exploração cada vez mais intensiva dos solos e dos recursos naturais”.

Hoje, a “política pública é extremamente simples: deixar queimar e promover o abandono que embaratece a exploração dos solos, dos recursos e das pessoas que ainda resistem no interior”, referiu, citada no comunicado.

“Enquanto estas catástrofes, promovidas pelo modelo económico que continua a favorecer a exploração intensiva do território, incluindo os setores da pasta de papel e dos combustíveis fósseis, contam com a complacência deste Governo e dos anteriores”, consideram os ativistas que apontam o facto de o primeiro-ministro ter optado por ir aos EUA para o Mundial de futebol em vez de ir ao terreno.

A “imagem transmitida é profundamente reveladora do distanciamento entre o poder político e a realidade vivida pelas populações”, porque o “abandono do país e em particular das regiões rurais é absoluto, intencional e que já nem sequer é escondido”.

Para o movimento, “o abandono das regiões rurais tornou-se estrutural e a ausência de respostas políticas à altura deixou de poder ser ignorada”, com o povo “entregue a si mesmo e os governos completamente divorciados de quem supostamente representariam”.

O movimento foi criado contra a ideia de que “os incêndios são inevitáveis, recusando a sua normalização e contestando a falsa inevitabilidade de um modelo territorial que produz tragédia após tragédia”.

Para tal, a rede pede “uma transformação profunda do mundo rural, assente na redução da dependência do eucalipto, na descarbonização da economia baseada na redução efetiva das emissões de combustíveis fósseis” e “na democratização da gestão do território e dos seus recursos”.

Perigo

Oito concelhos dos distritos de Vila Real e Bragança estão hoje em perigo máximo de incêndio rural, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Em causa estão os concelhos de Valpaços (Vila Real), Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Bragança, Alfândega da Fé, Mogadouro, Miranda do Douro e Vimioso (Bragança).

O IPMA colocou também mais de 80 concelhos dos distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Coimbra, Vila Real, Bragança, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Santarém, Beja, Portalegre e Faro em perigo muito elevado e elevado de incêndio.

O perigo de incêndio rural determinado pelo IPMA tem cinco níveis, que vão de reduzido a máximo. Os cálculos são obtidos a partir da temperatura do ar, humidade relativa, velocidade do vento e quantidade de precipitação nas 24 horas anteriores.

O IPMA prevê para hoje no continente céu pouco nublado ou limpo, apresentando períodos de mais nebulosidade no Norte e Centro e, até ao final da manhã, no litoral oeste da região Sul.

Está também prevista a possibilidade de ocorrência de precipitação fraca no litoral a norte do Cabo de Sines até ao final da manhã, vento fraco a moderado do quadrante oeste e neblina ou nevoeiro matinal, em especial no interior.

A previsão aponta ainda para pequena descida da temperatura mínima no nordeste transmontano e pequena subida da máxima no interior Norte e Centro.

As temperaturas mínimas vão oscilar entre os 11 graus Celsius (Guarda) e os 18 (Lisboa) e as máximas entre os 23 (Porto e Viana do Castelo) e os 31 (Évora e Castelo Branco).

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