O movimento Rede de Resposta a Incêndios/Floresta do Futuro acusou hoje as elites políticas de abandonarem o mundo rural, não dando prioridade à limpeza das florestas após o comboio de tempestades do início do ano em Portugal.
“Mais de 30 mil hectares ardidos até aos primeiros dias de julho confirmam o pior ano desde 2017: Portugal foi abandonado pelas suas elites”, refere em comunicado o movimento, criado em 2022, que visa sensibilizar a sociedade para a prevenção de fogos e valorização do mundo rural.
“O início deste mês foi devastador, com mais de 15 mil hectares de área ardida, o que faz do incêndio de Vouzela um dos maiores mega-incêndios da história recente de Portugal”, mas “nada do que está a acontecer era inesperado ou inevitável” e, “nos meses que se aproximam, é expectável um cenário ainda mais grave, já que a floresta derrubada pelas tempestades de janeiro continua acumulada no terreno, secando à espera de arder”.
Para a dirigente do movimento Sílvia Carreira, a resposta do poder político tem sido “permitir que o abandono se agrave e criar condições para uma exploração cada vez mais intensiva dos solos e dos recursos naturais”.
Hoje, a “política pública é extremamente simples: deixar queimar e promover o abandono que embaratece a exploração dos solos, dos recursos e das pessoas que ainda resistem no interior”, referiu, citada no comunicado.
“Enquanto estas catástrofes, promovidas pelo modelo económico que continua a favorecer a exploração intensiva do território, incluindo os setores da pasta de papel e dos combustíveis fósseis, contam com a complacência deste Governo e dos anteriores”, consideram os ativistas que apontam o facto de o primeiro-ministro ter optado por ir aos EUA para o Mundial de futebol em vez de ir ao terreno.
A “imagem transmitida é profundamente reveladora do distanciamento entre o poder político e a realidade vivida pelas populações”, porque o “abandono do país e em particular das regiões rurais é absoluto, intencional e que já nem sequer é escondido”.
Para o movimento, “o abandono das regiões rurais tornou-se estrutural e a ausência de respostas políticas à altura deixou de poder ser ignorada”, com o povo “entregue a si mesmo e os governos completamente divorciados de quem supostamente representariam”.
O movimento foi criado contra a ideia de que “os incêndios são inevitáveis, recusando a sua normalização e contestando a falsa inevitabilidade de um modelo territorial que produz tragédia após tragédia”.
Para tal, a rede pede “uma transformação profunda do mundo rural, assente na redução da dependência do eucalipto, na descarbonização da economia baseada na redução efetiva das emissões de combustíveis fósseis” e “na democratização da gestão do território e dos seus recursos”.
Perigo
Oito concelhos dos distritos de Vila Real e Bragança estão hoje em perigo máximo de incêndio rural, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
Em causa estão os concelhos de Valpaços (Vila Real), Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Bragança, Alfândega da Fé, Mogadouro, Miranda do Douro e Vimioso (Bragança).
O IPMA colocou também mais de 80 concelhos dos distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Coimbra, Vila Real, Bragança, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Santarém, Beja, Portalegre e Faro em perigo muito elevado e elevado de incêndio.
O perigo de incêndio rural determinado pelo IPMA tem cinco níveis, que vão de reduzido a máximo. Os cálculos são obtidos a partir da temperatura do ar, humidade relativa, velocidade do vento e quantidade de precipitação nas 24 horas anteriores.
O IPMA prevê para hoje no continente céu pouco nublado ou limpo, apresentando períodos de mais nebulosidade no Norte e Centro e, até ao final da manhã, no litoral oeste da região Sul.
Está também prevista a possibilidade de ocorrência de precipitação fraca no litoral a norte do Cabo de Sines até ao final da manhã, vento fraco a moderado do quadrante oeste e neblina ou nevoeiro matinal, em especial no interior.
A previsão aponta ainda para pequena descida da temperatura mínima no nordeste transmontano e pequena subida da máxima no interior Norte e Centro.
As temperaturas mínimas vão oscilar entre os 11 graus Celsius (Guarda) e os 18 (Lisboa) e as máximas entre os 23 (Porto e Viana do Castelo) e os 31 (Évora e Castelo Branco).




