Em São Paulo, a campeã do Carnaval trouxe o enredo “A Música Venceu” inspirada no maestro luso-brasileiro. Confira a entrevista exclusiva com João Carlos Martins.
Por Eulália Moreno
Especial para Mundo Lusíada

Quando o emocionado presidente da Vai-Vai, Darly Silva, conhecido como Neguitão, começou o seu discurso de vitória agradecendo ao pai Ogun, a toda a comunidade e a “esse anjo que é o maestro João Carlos Martins”, o anjo, a milhares de quilometros, em Fort Lauderdale, na Florida, Estados Unidos, esgotava os lenços disponíveis. “Já fui chamado de maestro chorão, hoje, então, preciso de mil lenços” disse o homenageado nas suas primeiras declarações a imprensa.
“Não tenho palavras para definir o que senti naquele momento. Inesquecível. Eu teria me expressado melhor se tivesse um piano por perto”, confessa o maestro, de 71 anos, em entrevista telefonica ao jornal Mundo Lusíada no dia seguinte a sua participação no Desfile das Campeãs, no Sambódromo do Anhembi. “Estou um pouco cansado pois fiz questão de desfilar no chão para ceder o lugar sentado no carro alegórico a Ana Hickmann, madrinha da Escola, que se lesionou durante o desfile”.
De Fort Lauderdale, João Carlos Martins voou para Nova York e antecipou o regresso ao Brasil para estar presente no Desfile das Campeãs e reviver o que considera a maior emoção da sua vida. “Em 2009 eu disse que a minha maior emoção tinha sido tocar no Carnegie Hall. Em 2010 que tinha sido reger no Lincoln Center. Agora em 2011 não tenho dúvidas: foi receber essa homenagem da Vai-Vai”.
Em Nova York foi tratar da apresentação, sob sua regência, da Orquestra Bachiana Filarmonica Sesi-SP no próximo dia 25 de setembro no Lincoln Center. Na primeira parte a orquestra executará Bach e Vivaldi e na segunda parte, acompanhada por 10 ritmistas da bateria da Vai-Vai, todos vestidos a rigor, mostrará a influência rítmica africana no Brasil desde o século XVIII com músicas de Villa Lobos.
“Um abuso”, reconhece o Maestro, “um abuso reiterado, já que em 2007 no primeiro encontro com Mestre Tadeu da Vai-Vai lancei o desafio da Escola de Samba tocar o primeiro movimento da 5ª Sinfonia de Beethoven”. Foi assim que começou a união da música erudita ao samba que este ano levou para a passarela 3.800 componentes, 36 alas, 300 ritmistas, 80 baianas e 5 alegorias para contar a trajetória de vida do maestro João Carlos Martins com o samba enredo “A Música Venceu”, de Zeca do Cavaco, Ronaldinho FQ, Afonsinho BV e Fabio Henrique.
Algumas alas representavam os países nos quais o maestro se apresentou, ainda como pianista. A Ala Portugal, por exemplo, além de fazer referência a sua vida artística recordava a ascendência lusitana de João Carlos Martins, como referiu o locutor da Rede Globo que transmitia o desfile. “Um dos meus grandes momentos foi quando em 1962 fiz o concerto inaugural da Pró-Arte, em Braga, terra do meu pai. Me apresentei diversas vezes em Portugal, no Teatro São Carlos, Tivoli, dentre outros. E sou apaixonado pela música portuguesa. Muitos pesquisadores afirmam que o Fado teve a sua origem no Brasil com os cânticos dos negros que eram levados para Portugal através dos marinheiros. Se o Samba se casou com o Erudito e deu certo, por que não promover o mesmo entre o Fado e o Erudito? Tem tudo prá dar certo”, e na voz do maestro já se pressente a animação perante esse novo desafio.
No ritmo de um sonho para começar de novo
“A minha carreira internacional começou quanto eu tinha 18 anos. Corria o mundo, tocava em tudo quanto era lugar. Aos 26 anos estava morando em Nova York e, olhando o Central Park, vi um pessoal jogando futebol. Nos anos 60 esse esporte não era muito comum nos Estados Unidos. E eram jogadores da Portuguesa de Desportos, o meu time do coração. Me ofereci para jogar, mas durante o jogo caí e bati com o braço numa pedra e rompi um nervo. Fizeram transposição de nervos, coloquei dedeiras de aço e continuei dando concertos. Uma crítica do New York Times disse que como pianista eu não era nada do que tinha sido. Cancelei todos os meus espetáculos seguintes. Música se faz com emoção e perfeccionismo e perfeccionismo eu não tinha mais”.
Começava assim a luta de superação do Maestro que recomeçou a estudar piano e depois de seis anos apresentou-se no Carnegie Hall. Algum tempo depois, saindo de uma gravação na Bulgária foi vítima de um assalto violento e agredido com uma barra de ferro que lhe causou uma lesão cerebral. Operado nos Estados Unidos ainda tentou durante oito meses recuperar os movimentos do lado direito do corpo. “Suportei dores terríveis, ainda voltei a fazer concertos mas os médicos disseram que a lesão também tinha afetado a minha fala e a solução seria cortar o nervo. As dores acabaram mas perdi a mão direita”, recorda.
Tentou recomeçar tocando apenas com a mão esquerda mas um ano e meio depois surgiu um tumor que foi operado mas que causou a perda do movimento também nessa mão. “Eu estava com 64 anos, pensando e repensando a minha vida. Uma noite adormeci e sonhei com o maestro Eleazar de Carvalho que me aconselhava a estudar regência. No dia seguinte, às 7 horas eu já estava tomando as primeiras aulas como regente. Desde então já participei em mais de 700 concertos”.
Hoje João Carlos Martins dedica a maior parte do seu tempo a projetos sociais que visam a inclusão de jovens carentes por meio da música. “Crie uma orquestra em cada Estado brasileiro e a criminalidade diminuirá”, afirma. E mantém os olhos atentos e o coração aberto ao que ele chama “diamantes a serem lapidados”. “Por vezes, a pessoa corre atrás do sonho e quando ela menos espera, o sonho é que começa a correr atrás dela”, afirma.
A música vence sempre
Um desses diamantes é Jean William, de 24 anos, natural de Barrinha interior de São Paulo. Quando os pais se separaram, Jean foi para a casa dos avós: senhor Joaquim, bóia fria aposentado, autodidata em violão, violino e acordeão e dona Iraci. Aos 8 anos começou a cantar no coral da igreja e em maio de 2003, durante um festival escolar, foi adotado por Julia Guidi dos Reis que com o apoio do marido patrocinou o cursinho e aulas particulares de idioma para o jovem, que em 2004, ingressou no curso de música erudita da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto. Ao ver o maestro João Carlos Martins num programa de televisão, Jean imaginou trabalhar com ele e através da jornalista Monica Bergamo conseguiu marcar uma entrevista. Na casa do maestro cantou Ombra Mai Fu, de Haendel e no dia seguinte estreou em concerto com a Bachiana Filarmonica, no Clube Pinheiros, num espetáculo para 2200 pessoas.
Jean William está em Milão e conta da sua experiência. “Desde o dia em que conheci o maestro me tornei imediatamente bolsista da orquestra do Sesi e já me apresentei em diversos lugares no Brasil e no Metropolitan Museum de Nova York. No ano passado após a minha estreia nacional no Teatro Bradesco em São Paulo consegui esta bolsa de estudos para Milão a convite da Associação de Música Italiana Cantosospeso que é regida pelo maestro Martinho Lutero. Estou aqui, tendo aulas de canto e tecnica vocal com o barítono Davide Rocca e fazendo um aperfeiçoamento individual em ópera com a renomada soprano Luciana Serra, que ocupa um cargo na direção da Academia Scalla de Milão, onde assim que eu estiver com a idade adequada, pretendo ingressar”.
No próximo dia 30 de abril Jean William fará a estreia nacional italiana da ópera La Regina Delle Nevi do compositor Pierangelo Valtinoni no Teatro Comunale de Vicenza como protagonista do espetáculo. “O mais legal desse espetáculo e que se trata de uma fábula dinamarquesa, ou seja, o estereótipo dos personagens é bem europeu e eu sou o único afro descendente latino americano, e ainda no papel principal, uma prova de que a música é uma linguagem universal que transpõe qualquer preconceito e estereótipos e que sempre vence”.




