O alerta recente feito pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP) e movimentações estranhas relatadas por entidades da comunidade luso-brasileira reacendem a atenção sobre a segurança de acervos, livros raros, arquivos e patrimônios documentais.
Por Luiz Filho
Especial para o Mundo Lusíada
O alerta precisa ser tratado com seriedade e cautela. Laéssio Rodrigues de Oliveira, nome citado ao longo de anos em reportagens e investigações sobre furtos de obras raras no Brasil, voltou a gerar preocupação em São Paulo após episódio recente relatado pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
Em um cenário ainda mantido em acervos vulneráveis, estruturas enxutas e protocolos muitas vezes insuficientes, o caso reacende uma discussão que não é apenas cultural, mas também patrimonial e institucional.
Segundo reportagem publicada no último dia 13 de março de 2026, Laéssio esteve na sede do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (na data de 27 de fevereiro), onde apresentou-se como pesquisador, assinou livros de visita e foi reconhecido pelo Prof. Dr. João Tomás do Amaral, presidente da instituição.
Ainda segundo a reportagem, ele deixou o local antes de ser contido, a polícia foi acionada, no entanto não havia, até aquele momento, relação confirmada entre sua presença e o roubo ocorrido no último mês de dezembro na Biblioteca Mário de Andrade. O histórico do nome citado nas reportagens e a natureza do ambiente ajudam a explicar por que o episódio foi recebido com preocupação. O IHGSP é uma entidade fundada em 1894, dedicada à preservação e ao estudo da história paulista.
Também segundo apuração da coluna, houve nos últimos dias uma tentativa de abordagem ao Clube Português de São Paulo, fundado em 1920, e também detentor de importante acervo, sob pretexto de pesquisa e interesse histórico.
A situação foi percebida com rapidez, tratada com prudência e acompanhada da adoção de medidas preventivas internas. O ponto central na divulgação do assunto, não é antecipar conclusões, mas alertar para um problema que deixou de ser abstrato e passou a exigir atenção concreta das instituições que mantêm sob sua guarda documentos, livros, fotografias e materiais de valor histórico.
Relatos anteriores ajudam a entender por que o tema merece atenção
Em 2007, a Prefeitura de São Paulo publicou notícia sobre ação da Polícia Federal ligando o nome de Laéssio Rodrigues de Oliveira a um grupo envolvido em furtos de obras raras, com cerca de 200 peças recuperadas. A mesma matéria recordava que, em 2004, já haviam sido encontrados em seu apartamento livros raros furtados, incluindo exemplares do Museu Nacional e da Biblioteca Mário de Andrade. Já em 2012, reportagem reproduzida pelo Conselho Regional de Biblioteconomia, o relacionava a casos em ao menos 14 instituições de cinco estados, e com condenação de 12 anos.
Em novembro de 2019, Laéssio voltou ao noticiário ao ser preso no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, após ter sido descrito como foragido do sistema prisional por não retornar de uma saída temporária. Esse é um ponto importante para a cautela da divulgação: a condição de foragido está claramente documentada naquele momento de 2019, mas não há, nas fontes públicas consultadas, esclarecimento recente que permita afirmar, com segurança, qual é sua situação jurídica atual.
É justamente por isso que o debate precisa evitar uma visão sensacionalista e entrar no terreno da responsabilidade. O ponto mais relevante não é apenas a biografia de quem aparece nas reportagens, o mais relevante é a fragilidade de quem guarda os acervos.
Estudo divulgado pela Biblioteca Nacional sobre roubos e furtos de bens culturais raros na região Sudeste entre 2006 e 2017 concluiu que São Paulo e Rio de Janeiro concentraram os maiores índices dessas ocorrências no período analisado e defendeu medidas de prevenção, salvaguarda e articulação entre instituições.
Para a comunidade luso-brasileira, a questão é ainda mais sensível
Nossas entidades guardam atas, correspondências, fotografias, livros (como originais de “Os Lusíadas” – de Camões), periódicos, registros familiares e marcas concretas da presença portuguesa no Brasil. Não são apenas peças antigas. São testemunhos de origem, imigração, esforço coletivo, vida associativa e construção cultural. Quando um documento desses desaparece, não some apenas um item de um acervo. Some um fragmento da identidade.
Durante muito tempo, o país tratou arquivos, bibliotecas e centros de memória como áreas secundárias da vida institucional. Isso foi um erro. Um povo que não protege, condignamente os seus documentos – enfraquece sua capacidade de contar a própria história – perdendo assim o valor do seu passado.
No caso da comunidade luso-brasileira, isso pesa ainda mais, porque, grande parte do nosso legado está justamente nesses acervos silenciosos, preservados ao longo de gerações por clubes, casas regionais, gabinetes, institutos e entidades culturais.
Assim, este artigo não pretende condenar além do que as fontes e os registros oficiais permitem. Pretende sim alertar. O nome precisa ser contextualizado. Os episódios precisam ser lembrados com responsabilidade. E as instituições precisam reagir com seriedade, discutir o problema, melhorar o controle de acesso, fazer identificação de pesquisadores, registro de consultas, revisão de protocolos, atualização de inventários, digitalização e troca rápida de informações, não como “cuidados opcionais”, mas sim, medidas mínimas de proteção.
O caso recente relatado em São Paulo serve, acima de tudo, para lembrar que a proteção da memória não pode depender apenas da boa-fé. Ela exige método, vigilância e cooperação. Porque existem perdas que atingem o patrimônio fortemente. E essas perdas ferem diretamente a memória coletiva.





1 comentário em “Alerta para a Comunidade Portuguesa: furtos de obras raras volta a preocupar instituições culturais em SP”
Temas como este, deveriam ser tratados com mais frequência, para ver se as pessoas internalizam mais sobre a importância dos nossos acervos , e passem a cobrar dos nossos representantes, mais ações de prevenção, conservação e restauro dos nossos bens culturais e documentais.