Açores apresentam na próxima semana candidatura da viola da terra a patrimônio cultural imaterial

O Governo Regional dos Açores vai apresentar, na próxima semana, a candidatura ao Inventário Nacional do Patrimônio Cultural Imaterial dos saberes e práticas de tocar viola da terra, um instrumento que mantém «resquícios primordiais» da viola de arame portuguesa.

«Ela é, fazendo uma analogia, a bisavó das violas de arame, porque ela mantém nela resquícios primordiais do que era uma viola de arame», afirmou, em declarações aos jornalistas, o coordenador científico do projeto de candidatura dos saberes e práticas de tocar a viola da terra dos Açores a Património Cultural Imaterial, Wellington Nascimento.

O projeto de inventariação, iniciado em 2023, e desenvolvido pela Direção Regional da Cultura dos Açores, foi hoje apresentado oficialmente na Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira.

Ao longo destes três anos, foram feitas cerca de 350 recolhas audiovisuais de tocadores e mais de mil recolhas fotográficas de violas da terra e materiais relacionados com o instrumento, em todas as ilhas do arquipélago.

Segundo Wellington Nascimento, a viola de arame portuguesa ainda existe em Portugal continental, na Madeira, em Cabo Verde e no Brasil, mas a dos Açores foi a única que sempre se manteve ativa.

«Ela sempre esteve ativa nas tradições, nas manifestações. Por isso é o símbolo identitário açoriano, porque ela esteve sempre viva. Diferente das outras violas do continente português e de algum espaço Atlântico, que morreram, renasceram, morreram, depois renasceram, a nossa esteve sempre ativa», explicou.

O projeto identificou 356 tocadores de viola da terra em todo o arquipélago e, segundo o investigador, o instrumento tem futuro assegurado.

«Hoje em dia, a viola da terra está implementada nas escolas, está no conservatório em Angra do Heroísmo e em Ponta Delgada e não existe a mínima possibilidade da viola da terra morrer», frisou.

«Há uma transformação social do instrumento. No Pico, ela toca a ‘Chamarrita’. Em São Miguel, já não está na ‘Chamarrita’, nem nos bailes, está no auditório, como instrumento de concerto. Ela não morreu, ocupa outro espaço», acrescentou.

O investigador brasileiro, que se apaixonou pela viola da terra quando emigrou para os Açores há 30 anos, fez a única tese de mestrado sobre este instrumento e está a concluir uma tese de doutoramento.

A candidatura ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, que Wellington Nascimento espera ver aprovada dentro de um ano, pretende «dignificar a viola da terra» e mostrar que é um instrumento que representa os Açores e «esteve sempre ao lado de todos os açorianos».

Para a secretária regional da Educação, Cultura e Desporto, Sofia Ribeiro, a apresentação do inventário marcou o culminar de um trabalho de valorização e salvaguarda de «uma estrutura identitária dos Açores».

«Há outros projetos que já estão inscritos no Inventário Nacional do Património Imaterial, mas, sem dúvida, que a viola da terra e os seus saberes e práticas de tocar têm uma expressão que é regional e, portanto, há todo um peso que está associado a esta candidatura e que de facto é vivenciado por todos os Açores», salientou.

Atualmente, a região tem apenas inscritos no Inventário Nacional do Patrimônio Cultural Imaterial as danças, bailinhos e comédias de Carnaval da ilha Terceira e os romeiros da ilha de São Miguel, mas o executivo açoriano pretende também ver inscritos a procissão do Senhor dos Terceiros e as cavalhadas de São Pedro, da Ribeira Grande, e os saberes e técnicas tradicionais da certificação do queijo de São Jorge.

A governante anunciou ainda que o executivo está trabalhar, em conjunto com o tocador de viola da terra Rafael Carvalho, para que seja criado um currículo regional deste instrumento para o ensino artístico no secundário.

«É um projeto que vem complementar esta inscrição e que nos permite, de facto, fazer uma aposta no futuro dos saberes e das práticas da viola da terra, quer pela via do seu reconhecimento, em termos patrimoniais, quer pela via de todo o desenvolvimento que nós fazemos em termos de ensino, para que possa haver mais jovens a quererem tocar e a terem a certificação, para darem continuidade a estes nossos saberes», sublinhou.

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