Um ano após a aplicação de regras de circulação para ‘tuk-tuk’ em Lisboa, estes veículos turísticos continuam a ser uma ‘dor de cabeça’ para moradores da freguesia de São Vicente, que se queixam de ruído e “caos”.
No Miradouro da Nossa Senhora do Monte, na freguesia de São Vicente, numa manhã soalheira de segunda-feira, antes do início da época alta do turismo, a chegada de ‘tuk-tuk’ com estrangeiros que procuram apreciar a vista panorâmica sobre Lisboa vai-se adensando à medida que o dia avança.
“Há muitos moradores que se queixam, há muitos moradores que têm realmente dificuldades, não só de tráfego, de mobilidade, mas até do ruído, que é constante, e, portanto, infelizmente, na nossa freguesia nada mudou”, disse à Lusa o presidente da Junta de Freguesia de São Vicente, André Biveti (PS).
Apesar de o período de maior pressão turística começar em maio, o “pi-pi-pi” da marcha atrás dos ‘tuk-tuk’, a música, a difícil convivência com os veículos nas ruas e passeios e até os gritos dos passageiros nas descidas, como se estivessem numa montanha-russa, são uma constante diária para quem mora junto àqueles pontos turísticos, explicou o autarca.
“Nós não podemos ter os ‘tuk-tuk’ a parar nestes miradouros. Nós temos o Miradouro da Graça, que não tem propriamente este espaço [como o da Senhora do Monte] e os ‘tuk-tuk’ entram dentro do passeio e ficam no passeio, que é uma coisa completamente ilegal”, apontou André Biveti, relatando casos de sinais de trânsito arrancados, como um que informa sobre a proibição de circulação daqueles veículos no Miradouro da Graça durante a noite e que já foi removido “diversas vezes”.
Mesmo com a fiscalização por parte da Empresa de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (EMEL), que “ajuda a ordenar um bocadinho”, em alturas como fins de semana e a época alta turística a pressão é tal que “é impossível controlar”, relatou o presidente da junta, que tem vindo a defender junto da Câmara Municipal de Lisboa “medidas estruturais” para resolver o problema.
A criação de parques de estacionamento específicos para ‘tuk-tuk’, afastados dos miradouros, é uma delas, com os visitantes a deslocarem-se a pé para os locais, e “eventualmente verem outras dinâmicas que existem na freguesia” ou aproveitarem para almoçar.
“As pessoas entram, vêm ver um bocadinho a paisagem, mas também não trazem propriamente nenhum impacto positivo à freguesia, porque os turistas não vão ao nosso comércio local, não tentam perceber o que é que se passa, as dinâmicas do bairro, simplesmente vêm ver a vista e vão-se embora de ‘tuk-tuk’”, apontou André Biveti.
Lucrécia Papillo mora na Calçada do Monte, que desce do Miradouro da Senhora do Monte para a Rua Damasceno Monteiro, e disse à Lusa que está a pensar pendurar uma faixa no exterior com a frase “isto não é a Disneyland”.
“Na época alta, que vai começar agora, a situação é insuportável, é demasiado absurda. Este espaço transforma-se na Disneyland, cheio de ‘tuk-tuk’, não é possível transitar com o carro, mas também a pé, e depois, especialmente aqui na descida, os ‘tuk-tuk’ vão a uma velocidade absurda e os passageiros começam a gritar, incentivados pelos condutores”, relatou a moradora.
Dias após a reportagem da Lusa, um acidente com um ‘tuk-tuk’ perto da Igreja de São Vicente, outra zona de paragem deste veículos, levou a que uma turista tivesse de ser assistida pelo INEM, adiantou o presidente da junta.
Já na freguesia de Santo António, que abrange a Avenida da Liberdade e o Marquês de Pombal, o cenário é bem diferente.
“Esta freguesia continua a ter muitos ‘tuk-tuk’, mas, felizmente, são muitos de passagem também”, disse à Lusa a presidente da junta, Filipa Veiga (independente eleita pelo PSD).
Com dois pontos de paragem de ‘tuk-tuk’ naquela freguesia, a autarca considera que as novas regras trouxeram “organização” e fiscalização, o que resolveu a questão dos veículos parados em várias ruas.
“De 2025 para este ano, nota-se uma grande diferença, principalmente organização, e isso é o que é mais importante para quem cá mora”, realçou.
Para Filipa Veiga, as novas regras vieram também proteger os condutores dos veículos, clarificando os lugares onde é permitido estacionar.
A circulação e o estacionamento dos ‘tuk-tuk’ em Lisboa passaram a ter zonas de restrição a 01 de abril do ano passado, com a proibição de passagem em 337 ruas da capital, na sequência de um despacho da Câmara Municipal.
O documento determina a proibição de circulação em várias vias das freguesias das Avenidas Novas, Arroios, Penha de França, São Vicente, Santo António, Misericórdia e Santa Maria Maior, e a indicação de zonas destinadas à sua paragem e estacionamento.
Paralelamente, a EMEL começou a fiscalizar o cumprimento do Código da Estrada na cidade e a ter uma brigada especialmente vocacionada para fiscalizar ‘tuk-tuk’ e TVDE (transporte individual e remunerado de passageiros em veículos descaracterizados a partir de plataforma eletrônica).




