Em visita a São Paulo, o coordenador político para as comunidades luso-descendentes de fora da Europa analisa a representação política da diáspora, a expectativa da possível visita presidencial e o potencial econômico inexplorado na lusofonia.
Por Odair Sene
Mundo Lusíada
Membro do Partido Socialista (PS) de Portugal e residente em Toronto, no Canadá, Vitor Silva esteve em visita oficial a São Paulo. Durante sua agenda de quatro dias na capital paulista, o dirigente participou do tradicional “Almoço das Quintas” da Casa de Portugal de São Paulo, onde foi recebido pela diretoria da instituição e por correligionários locais, liderados pela Dra. Ana Contreiras — advogada e mandatária no Brasil da candidatura de António José Seguro nas últimas eleições.
Recentemente promovido à Comissão Nacional do PS como coordenador político para as comunidades portuguesas fora da Europa, Vitor Silva é o responsável direto por articular os interesses da diáspora e dialogar com membros locais e dirigentes associativos.
Em entrevista exclusiva ao editor do Mundo Lusíada, Odair Sene, o dirigente abordou o fortalecimento do partido além-mar, a representatividade política dos emigrantes, a expectativa de uma agenda presidencial no Brasil e a necessidade de uma vontade política real para alavancar as relações comerciais bilaterais.
A Entrevista
Mundo Lusíada: Hoje recebemos na Casa de Portugal de São Paulo o dirigente do PS Vitor Silva. Esta é a sua primeira visita oficial à instituição, integrando uma agenda focada nas comunidades fora do continente europeu. Qual o principal objetivo desta jornada?
Vitor Silva: Em primeiro lugar, é um enorme gosto falar consigo e com a sua audiência. A imprensa e a comunicação social que temos fora de Portugal cumprem um papel fundamental: não só promovem a língua portuguesa, como dão visibilidade ao que se passa no país e ao trabalho que nós, imigrantes, realizamos pelo mundo.
Esta visita de quatro dias a São Paulo visa fortalecer os ideais do Partido Socialista e apresentar o partido como uma alternativa sólida para o futuro de Portugal. O que me motiva é o alcance deste projeto. Costumo dizer que o nosso território de atuação é uma “cidade grande”, pois abrange toda a América — do Norte ao Sul —, a Ásia, a África e a Oceania. É uma honra ser o responsável por essa coordenação. Estamos trabalhando não apenas para que as pessoas se interessem mais pela política portuguesa, mas para encontrar soluções para que os portugueses que residem no estrangeiro deixem de ser tratados como cidadãos de segunda e passem a ser vistos como portugueses de primeira.
Mundo Lusíada: Sobre esse trabalho recente junto às comunidades, coordenado por lideranças no Brasil e em outros países, nota-se um resultado expressivo. Anos atrás, o interesse pelas eleições e o engajamento no voto eram muito baixos; hoje, o cenário mudou. Como você avalia a importância desse trabalho de base feito pelos partidos junto à diáspora?
Vitor Silva: Essa é uma questão muito inteligente e pertinente. É uma realidade: nós trabalhamos para mudar uma distorção. Atualmente, temos apenas dois deputados para representar uma população de 3 a 4 milhões de portugueses no exterior, enquanto existem distritos no território nacional com 50 mil eleitores que elegem três ou quatro deputados. É a nossa união e o nosso fortalecimento político que farão com que Portugal reconheça a real dimensão da sua diáspora.
A minha própria nomeação é um reflexo desse reconhecimento. Pela primeira vez, alguém que reside fora de Portugal — no meu caso, em Toronto — coordene essa equipe nacional. Não tenho ciúmes e defendo, inclusive, que os partidos de oposição façam o mesmo: que deem protagonismo a lideranças que vivem no Brasil, no Canadá, em Macau, na Venezuela, em Angola ou Moçambique. Somos nós, que vivemos a realidade da emigração, que sabemos o que a comunidade precisa. É isso que mudará a percepção de Portugal em relação aos seus imigrantes.
Mundo Lusíada: O PS obteve um resultado vitorioso e o contexto geral garantiu a eleição da liderança do partido. Diante disso, uma pergunta da comunidade luso-brasileira hoje seria: quando o Presidente eleito pretende visitar o Brasil? Existe alguma perspectiva concreta?
Vitor Silva: Há uma expectativa natural de que ele venha à América do Sul em função dos compromissos da Seleção Nacional de Futebol. O protocolo habitual costuma dividir as presenças institucionais: o Presidente da Assembleia da República assiste a um jogo, o Primeiro-Ministro a outro, e o Presidente da República a um terceiro. Portanto, há uma forte probabilidade de uma vinda neste período. Não posso confirmar se ele estenderá uma eventual agenda no México até o Brasil, mas a expectativa é grande.
E há uma razão clara para isso: o povo que vive e sente Portugal no Brasil — tanto os que nasceram na pátria quanto os luso-descendentes que carregam esse sangue — merece esse reconhecimento. O nosso Presidente deve esse abraço à comunidade para que todos se sintam acarinhados por Portugal. É, fundamentalmente, uma obrigação institucional.
Mundo Lusíada: O Brasil possui uma das maiores e mais robustas redes de câmaras de comércio, focadas no comércio bilateral e concentradas na grande maioria em centros como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, sendo que, somente as câmaras portuguesas somam 18 representações focadas no mercado luso-brasileiro.
No Estado de São Paulo, o ecossistema de câmaras internacionais ultrapassa 80 entidades. Apesar dessa estrutura empresarial, os resultados práticos parecem aquém do potencial: Portugal não figura como o principal parceiro econômico do Brasil, e vice-versa também. O que falta para que esse segmento atinja o seu verdadeiro potencial?
Vitor Silva: Isso decorre, fundamentalmente, não vou dizer incompetência, mas vou dizer da falta de vontade política por parte daqueles que têm o poder de transformar essa realidade. Há um potencial de crescimento gigantesco subaproveitado junto às comunidades que estão fora de Portugal — seja no Brasil, nas nações africanas ou na América do Norte, onde também temos comunidades fortes no Canadá e nos Estados Unidos.
Precisamos intensificar o fluxo econômico, especialmente entre os países de expressão ibérica e lusófona. O cenário geopolítico atual e as recentes crises internacionais (as guerras) nos mostram que não basta priorizar apenas grandes blocos ou acordos isolados com potências como os Estados Unidos ou a Alemanha. Devemos, prioritariamente, fazer negócios com os nossos parceiros históricos. Se Portugal estreitar e consolidar acordos comerciais profundos com Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e, estrategicamente, com o Brasil, todos os lados sairão fortalecidos.




