Por Nuno Nabais Freire
Há uma coisa que raramente se explica bem a quem nunca emigrou: ninguém parte inteiro.
A ideia de partida é uma simplificação confortável. Dizemos que alguém “foi para o Brasil”, como se tivesse atravessado um oceano e deixado tudo para trás. Mas a realidade é menos limpa, menos geográfica, mais inquieta. Quem emigra não muda apenas de país, muda de eixo. E, muitas vezes, fica suspenso entre dois lugares sem pertencer totalmente a nenhum.
O português que chega ao Brasil traz consigo mais do que uma mala. Traz hábitos, silêncios, referências invisíveis. Traz uma forma de estar que não se explica, apenas se reconhece, e que, fora de Portugal, começa lentamente a deslocar-se. Não desaparece. Mas também já não é exatamente a mesma.
Há um momento, subtil, quase impercetível, em que o emigrante percebe que já não é o mesmo que partiu. E esse momento não acontece no aeroporto. Acontece, muitas vezes, quando regressa. Quando sente que o lugar que era seu continua lá, mas ele já não encaixa da mesma forma. Como se tivesse havido uma pequena descoordenação entre a memória e o presente.
Mas se em Portugal já não é totalmente de lá, no Brasil também nunca será completamente de cá.
E é aqui que o caso português ganha uma dimensão particular. Ao contrário de outros fluxos migratórios, o português chega ao Brasil com a ilusão de continuidade. A língua é a mesma. As palavras são familiares. À superfície, tudo parece mais fácil. Mas é precisamente essa proximidade que esconde as diferenças mais profundas.
Porque quando tudo parece igual, as diferenças deixam de ser óbvias, e tornam-se mais difíceis de identificar, mais difíceis de explicar, mais difíceis de resolver. Não estão na língua, mas no ritmo. Não estão nas palavras, mas na forma de as usar. Não estão no que se diz, mas no que se espera que seja entendido sem ser dito.
O emigrante português no Brasil vive, assim, numa espécie de duplicidade silenciosa. Não precisa de traduzir palavras, mas precisa constantemente de traduzir contextos. Aprende a ajustar-se, a adaptar-se, a navegar entre códigos que são semelhantes, mas não coincidentes.
E, com o tempo, algo muda de forma irreversível.
O emigrante deixa de ser apenas alguém que saiu de um lugar para viver noutro. Torna-se algo mais difícil de definir: alguém que carrega dois mundos dentro de si, sem conseguir reduzir-se a nenhum deles. Já não é apenas português, no sentido fechado da origem. Mas também não é brasileiro, no sentido pleno da pertença. É outra coisa, uma identidade intermédia, em construção permanente.
Talvez seja por isso que a palavra “saudade” nunca desaparece. Não como nostalgia simples, mas como consciência de uma divisão que não se resolve. Uma espécie de pertença incompleta que acompanha o emigrante, não importa quantos anos passem, nem quão bem-sucedida seja a sua integração.
Mas há, também, uma outra forma de olhar para esta condição.
Talvez o emigrante não seja alguém que perdeu um lugar, mas alguém que deixou de precisar de apenas um. Talvez esta divisão não seja uma fragilidade, mas uma forma mais complexa de pertença. Uma identidade que não cabe numa geografia única, nem numa definição simples.
O português no Brasil não é menos português por estar longe, nem mais brasileiro por se adaptar. É, simplesmente, o resultado de uma travessia que não termina na chegada.
E talvez seja precisamente aí, nesse espaço entre dois mundos, que reside a sua verdadeira riqueza.
Nuno Nabais Freire
Investigador Patrimonial Cultural





3 comentários em “O português que emigra nunca parte… fica dividido”
Estou na frança vi este fantastico artigo no X
O Pais é diferente mas o sentimento desceito aplica se a mim também
Ser imigrante muitas vezes é ser esquecido
Este artigo fez me sorrir pela sua genese
Obrigado
Maravilhosa prosa posta em artigo
Gostei muito