Por Jean Carlos Vieira Santos
Em setembro de 2024, dediquei a escrita às insignes chaminés algarvias, na ocasião em que confessei: “nas deslocações pelo Algarve, jamais me privei de depositar o olhar e a lente da câmera fotográfica ou do telemóvel nas tradicionais chaminés”. Anos antes, em 2013, a vivacidade de um desses monumentos, capturado ao Sul de Portugal, havia sido eleita para estampar a capa do meu livro “Região e destino: sujeitos sensibilizados na geografia dos lugares”, publicado pela AllPrint de São Paulo.
Suponhamos que o ciclo sobre o tema estivesse encerrado, dada a proximidade do último escrito; todavia, o mês de agosto de 2026 reservava um desdobramento inesperado: durante a 4ª Bienal Regional do Livro e das Artes de Quirinópolis (Goiás), cujo mote celebrou as “Gotas de Literatura”, o passado e o presente convergiram de forma tocante. Fui agraciado com uma tela recém-pintada, com a recriação da capa do meu livro, sob a autoria da estudante Sofia Borges Ferreira, do Colégio Estadual Dr. Pedro Ludovico (CEPMG).
O tributo estendeu-se a outros escritores, cujas capas das obras também ganharam nova vida – trata-se, pois, de uma ação com as escolas do município, idealizada pelas escritoras Maria da Felicidade Alves Urzedo e Eliânia Silva. Tal acontecimento reiterou a aptidão das chaminés algarvias para suscitar diálogos, alinhar destinos imprevistos e comover indivíduos em latitudes distantes.
Esse encontro mostrou ainda que um elemento cultural lusitano representa a força poética de aproximar territórios, por conectar a capa de um livro ao olhar de uma estudante no sudoeste goiano, bem como unir a literatura, a geografia e a pintura: a arte que capitaneia diálogos entre as duas margens do Atlântico. Nesse contexto, a arquitetura típica alcançou aquém (e além das) fronteiras.
O fato de presenciarmos uma obra de arte que retrata determinado elemento arquitetônico tradicional e identitário da região Algarve justifica a relevância do trabalho de Sofia Ferreira, ao demonstrar o valor histórico da chaminé para o território português e nos unir em torno de um símbolo que abarca valores por sucessivas gerações. Portanto, a deferência ecoou com profundo contentamento e inscreveu um capítulo de notável reverência em meu itinerário profissional pelo Cerrado.
Jean Carlos Vieira Santos
Professor e Pesquisador da Universidade Estadual de Goiás (UEG/TECCER-PPGEO). Pós-doutorado em Turismo pela Universidade do Algarve (UALg/Portugal) e Doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia (IGUFU/MG).



