>>> Brasil e Portugal ensaiam respostas diferentes para proteger menores nas plataformas digitais. Nesta coluna, Luiz Filho discute por que elevar a idade não basta quando o modelo de negócio disputa a atenção das crianças.
Por Luiz Filho
Quando uma criança abre uma rede social, ela não encontra apenas vídeos, amigos e entretenimento. Entra num ambiente comercial desenhado por adultos, medido por dados e otimizado para reter sua atenção pelo maior tempo possível. Durante anos minimizada pela indústria de tecnologia, essa constatação começa a produzir respostas políticas.
Em Portugal, PSD e PS discutem uma legislação que pretende elevar de 13 para 16 anos a idade de acesso autônomo às redes sociais. O debate poderá alcançar também aplicativos de mensagens, jogos e os chamados “companheiros digitais” baseados em inteligência artificial. No Brasil, a reação foi mais imediata: a Agência Nacional de Proteção de Dados determinou a suspensão das transmissões ao vivo do Discord após uma tragédia envolvendo uma adolescente de 13 anos e as falhas dos mecanismos de proteção da plataforma.
São caminhos diferentes diante do mesmo reconhecimento: deixar que as empresas se autorregulem e recomendar aos pais que “acompanhem seus filhos” já não basta.
Trabalho há quase três décadas com publicidade, marketing e tecnologia. Acompanhei a internet quando ainda prometia democratizar a comunicação e abrir espaço para vozes antes ignoradas. Boa parte da promessa se cumpriu. Mas também vi o ambiente digital mudar de natureza. O feed virou mídia, a atenção virou inventário publicitário e o comportamento humano passou a ser estudado para aumentar permanência, frequência e retorno.
A tecnologia continuou avançando, mas o modelo de negócio mudou o centro dessa relação. Cada hesitação, clique e madrugada diante da tela passou a alimentar sistemas concebidos para prever comportamentos e prolongar a atenção. Diante de um adulto, isso já produz questões éticas importantes. Diante de uma criança, a desigualdade é ainda mais evidente.
As plataformas decidem se a reprodução será automática, quando a notificação aparecerá, qual conteúdo virá em seguida, quem poderá entrar em contato e quais estímulos serão repetidos até se transformarem em hábito. Chamar tudo isso de simples “escolha do usuário” é confortável para as empresas, mas intelectualmente desonesto. Uma criança não possui a maturidade de quem projetou o produto que ela utiliza.
Isso não significa que proibir seja uma solução simples. A proposta portuguesa, por exemplo, levanta uma questão delicada: como verificar a idade sem obrigar milhões de pessoas a entregar ainda mais dados pessoais? Quem armazenará essas informações? Como impedir que a proteção da infância se converta numa nova indústria de vigilância? E o que acontece quando o adolescente migra para ambientes menores, anônimos e ainda menos controlados?
No Brasil, a suspensão de uma funcionalidade do Discord mostra que o Estado pretende cobrar consequências concretas. A medida pode ser discutida quanto à proporcionalidade e à eficácia, como deve ocorrer em qualquer democracia. Mas ela rompe uma lógica antiga segundo a qual as plataformas oferecem apenas a ferramenta e nada têm a ver com o uso que dela se faz. Têm, sim, quando o desenho do produto amplia riscos previsíveis e os mecanismos de resposta falham.
Brasil e Portugal correm o risco de errar se concentrarem todo o esforço apenas na porta de entrada. A idade importa, mas a arquitetura do ambiente importa tanto quanto. Segurança por padrão, limites de contato, canais emergenciais eficientes, moderação humana preparada e transparência sobre os sistemas de recomendação precisam fazer parte da discussão. Pais e escolas também têm responsabilidade. Porém, educação digital não pode servir de desculpa para absolver empresas que conhecem seus próprios riscos melhor do que qualquer família.
Nós, profissionais de marketing, também não podemos assistir a esse debate como se fôssemos estranhos à história. Durante anos, aprendemos a aumentar retenção, engajamento e conversão. Chegou o momento de perguntar quais resultados são legítimos quando o público ainda não desenvolveu plenamente a capacidade de compreender os mecanismos usados para influenciá-lo. Nem toda atenção conquistada representa uma relação saudável. Às vezes, representa apenas uma vulnerabilidade bem explorada.
Crianças e adolescentes não precisam ser expulsos do mundo digital. Precisam entrar nele sem serem entregues, indefesos, a modelos de negócio que lucram justamente com sua dificuldade de parar. Um algoritmo não educa uma criança, mas, repetido durante horas todos os dias, participa da formação de seus desejos, medos, referências e visão de si mesma. Regular esse ambiente exigirá lucidez para evitar ingenuidade tecnológica, oportunismo político e transferência de culpa. Se foram adultos que o construíram, cabe aos adultos responder pelas suas consequências.
Por Luiz Filho
Publicitário, especialista em Negócios e Marketing, com 25 anos de experiência em definição de estratégias e métodos de comercialização para mercados B2B e B2C, análise de produtos, serviços e ações 360º. Atualmente, atua como Consultor On Demand, desenvolvendo ações inovadoras e estabelecendo parcerias comerciais, pela Wixi Marketing.



