A decisão de Cristiano Ronaldo de abandonar a concentração da seleção portuguesa tem impacto global, dada a visibilidade do futebolista, considerou Daniel Sá, diretor-executivo do Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM).
“Ronaldo é a maior marca que este país alguma vez teve, que deve ser produzida e trabalhada, e devemos todos pensar na forma de fazer esta gestão da transição, porque nós, portugueses, beneficiámos muito, durante muitos anos, da força desta marca”, afirmou à agência Lusa o especialista.
O avançado deixou o estágio da seleção lusa, na véspera do jogo com a Dinamarca, para a Liga das Nações, depois de mais de 23 anos ao serviço da equipe das ‘quinas’, e arrisca uma suspensão entre um e seis meses e uma multa, segundo o Regulamento Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol (FPF).
“Para o próprio, acho que já não tem muito impacto, porque Ronaldo e o valor da marca dele já não está muito dependente há vários anos da sua performance como jogador. Ele já fez tudo, ou praticamente tudo, quer em termos coletivos, quer individuais, e é difícil de igualar. A marca Ronaldo, hoje e para o futuro, já não depende tanto do seu desempenho como jogador, está mais dependente da faceta dele como investidor, como influenciador, como celebridade, como figura de outras marcas, e portanto, apesar de estarmos todos muito efervescentes com este tema todo muito quente, a marca dele sobreviverá a tudo isto”, vincou.
Segundo o responsável, a FPF “tem que saber como lidar com esta transição deste símbolo”, porque, “seja agora o último jogo ou não, o Ronaldo atleta deixará de haver, como já sabemos há muito tempo, e a federação tem que tomar uma opção estratégica de como manter a atenção sobre a marca Portugal, perdendo uma estrela desta dimensão magnânime”.
Daniel Sá comentou que a seleção portuguesa está a viver “uma crise nas últimas horas que, aparentemente, não foi planeada, nem programada”, sublinhando que as crises não acontecem apenas no futebol, mas também na política, na sociedade, nas empresas ou nas marcas.
“Há aqui uma zanga aparente entre Jorge Jesus [selecionador luso] e Cristiano Ronaldo, que há cinco ou seis dias estavam juntos numa conferência de imprensa onde parecia tudo bem, mas as crises são assim, acontecem, e o mundo continua”, salientou.
De resto, o especialista em marketing colocou a repercussão em termos mediáticos deste episódio ao nível dos maiores eventos globais da atualidade, como as eleições no Brasil, a guerra na Ucrânia, as intervenções de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, ou o avanço da extrema-direita na Alemanha.
“Este assunto da zanga entre Ronaldo e Jorge Jesus junta-se rapidamente, não apenas em Portugal, mas no mundo inteiro, a este patamar de tema quente. Isto revela a importância e a visibilidade que Portugal tem como seleção, mas, sobretudo, de Ronaldo como marca”, afirmou.
E acrescentou: “Esta é a prova do alcance deste acontecimento, e não estou a discutir se ele teve razão, se não teve razão, se fez bem sair, se não fez bem sair, desconheço com detalhe as razões”.
Daniel Sá frisou ainda que, como “as crises fazem parte da vida”, acredita que esta crise vai ser ultrapassada, e que Jorge Jesus tem o lado da crise “mais simples” de resolver.
“Jorge Jesus tem [quinta-feira] o jogo contra a Dinamarca, não tem Ronaldo, mas tem uma série de gente com muita qualidade, e portanto, como treinador experimentado que é, tem que, entre hoje à noite e amanhã, arranjar uma solução de ter a equipa focada para ter o melhor resultado”, assinalou.
Quanto a Ronaldo, “tem que pensar como é que quer deixar a última imagem como jogador de Portugal”, e deve evitar que esta “seja a última imagem com que as pessoas fiquem destes 20 anos como atleta do mais alto nível da seleção portuguesa”.
Já a FPF, “ancorada na visibilidade que o Ronaldo deu nestes 20 anos”, deve “encontrar uma forma de ter uma transição positiva com a saída do Ronaldo”, rematou.
Também o presidente do governo madeirense, Miguel Albuquerque, disse hoje que a Madeira apoia Cristiano Ronaldo, considerando que este será conhecido ao longo do tempo e está a ser alvo de “mesquinhices e paroladas”. “Ronaldo foi um jogador que promoveu e prestigiou Portugal ao longo de uma carreira com mais de 25 anos. Ou seja, é um dos portugueses que mais prestigiou Portugal”, acrescentou, salientando que “durante todos estes anos foi o melhor jogador do mundo, ganhou tudo o que havia para ganhar, deu um contributo à seleção portuguesa”.
Capitão
Rafael Leão vai hoje vestir a camisa ‘7’ da seleção portuguesa frente à Dinamarca, em jogo da Liga das Nações de futebol, número que durante duas décadas pertenceu a Cristiano Ronaldo.
De acordo com a lista dos 23 jogadores inscritos na UEFA para o encontro em Copenhaga, da terceira jornada do Grupo A4, Leão será o número ‘7’ de Portugal no Estádio Parken, enquanto ficou confirmada a ausência de Francisco Conceição devido a lesão.
Ronaldo passou a ser o dono da camisa ‘7’ a partir de 2006, após o fim da carreira internacional de Luís Figo, e um ano depois ganhou o estatuto de capitão da seleção nacional durante a campanha de apuramento para o Euro2008, sob o comando do brasileiro Luiz Felipe Scolari.
Sem a presença do avançado de 41 anos e recordista de jogos (234) e golos (146), Bruno Fernandes (95), já anunciado como titular por Jorge Jesus, deverá ser o capitão de Portugal em Copenhaga. Caso Bernardo Silva (114) faça parte do ‘onze’ inicial, então será o jogador do Real Madrid a utilizar a braçadeira.
Fábio Silva, que ficou nas bancadas de Alvalade, em Lisboa, e do Estádio Ullevaal, em Olso, está pela primeira vez nas opções do selecionador Jorge Jesus para um encontro. O avançado soma uma internacionalização por Portugal, alcançada ainda durante a ‘era’ do espanhol Roberto Martínez.
Depois de triunfos sobre País de Gales (1-0), no Estádio José Alvalade, em Lisboa, e Noruega (2-1), em Oslo, novo sucesso hoje em Copenhaga deixa Portugal com ‘pé e meio’ nos quartos de final da Liga das Nações, embora esteja a viver um dos episódios mais conturbados da sua história.
O Dinamarca-Portugal está agendado para as 20:45 locais (19:45 de Lisboa) e terá arbitragem do ucraniano Mykola Balakin.



