29 de Maio de 1500 -526 anos de um naufrágio que a história esqueceu.
Por Nuno Nabais Freire
No dia 29 de Maio completam-se 526 anos sobre a morte de Bartolomeu Dias.
Não é uma data que apareça nos calendários escolares. Não há comemorações oficiais, não há programas nas televisões, não há artigos nos grandes jornais. E, no entanto, quem vive no Brasil, quem caminha pelas ruas de Salvador, de Porto Seguro, de São Paulo, de qualquer canto deste país imenso, caminha sobre terra que os pés de Bartolomeu Dias pisaram. Semanas antes de morrer.
Este artigo é para ele. E para quem, por viver no Brasil, tem com ele uma ligação que a história oficial decidiu não contar.
O Nome que Falta na História do Brasil
Quando se fala do descobrimento do Brasil, fala-se de Pedro Álvares Cabral. É o nome nos manuais, nas estátuas, nas efemérides de Abril. É justo, era o capitão-mor, o comandante supremo da armada. A glória oficial pertencia-lhe por protocolo real.
Mas havia, naquela frota de treze naus que chegou à costa brasileira em Abril de 1500, um homem sem quem a viagem provavelmente não teria chegado ao destino. Um homem que conhecia o Atlântico Sul melhor do que qualquer outro português vivo. Um homem que tinha dobrado o Cabo da Boa Esperança doze anos antes e aberto a rota para a Índia.
Bartolomeu Dias
Cabral era um nobre militar de enorme coragem, mas não era navegador de alto mar. Bartolomeu Dias era o piloto mais experiente de Portugal. Funcionou como o verdadeiro conselheiro náutico da expedição, garantindo que a frota mantinha o rumo certo através do Atlântico. Sem ele, é legítimo perguntar se a armada teria chegado onde chegou, ou se teria chegado de todo.
II. Os Primeiros Dias na Praia… e o Papel de Bartolomeu
Quando a costa brasileira foi avistada, Cabral não foi o primeiro a pisar a areia. Na quinta-feira, 23 de Abril, enviou Nicolau Coelho num batel para tentar desembarcar na foz de um rio, provavelmente o Rio Caí. Foi Nicolau Coelho quem fez o primeiro contacto, trocou chapéus e barretes com os indígenas e deu o passo inaugural da aproximação entre os dois mundos. A honra histórica do primeiro momento pertence-lhe a ele.
Bartolomeu Dias entrou em cena dois dias depois. No sábado, 25 de Abril, com a frota já ancorada num porto seguro mais a norte, foi organizada uma comitiva para ir à praia. Bartolomeu Dias, Nicolau Coelho e Pero Vaz de Caminha, o autor da famosa carta ao rei, desceram juntos à areia. Bartolomeu Dias esteve presente nesse segundo contacto e nos que se seguiram, confraternizando com os nativos numa aproximação que as crónicas descrevem como pacífica e curiosa de ambos os lados.
O irmão de Bartolomeu, Diogo Dias, que também capitaneava uma das naus da frota, foi ainda mais longe. Levou um gaiteiro consigo para a praia e pôs-se a dançar de mãos dadas com os índios, quebrando o gelo com música antes de qualquer palavra ser trocada. Foi provavelmente o primeiro concerto da história do Brasil: uma gaita portuguesa numa praia da Bahia em Abril de 1500.
Diogo Dias sobreviveu à viagem. O irmão não teve a mesma sorte.
III. O Cabo que Ele Próprio Tinha Nomeado
Aqui está a ironia mais dramática desta história, e aquela que a memória colectiva devia preservar com mais cuidado.
Em 1488, quando Bartolomeu Dias descobriu a passagem a sul de África, a maior descoberta náutica do século XV, a que abriu o caminho para a Índia , a violência do mar naquele ponto fê-lo baptizar o local de Cabo das Tormentas. O rei D. João II mudou o nome para Cabo da Boa Esperança, considerando que o nome original afastaria os navegadores.
A 29 de Maio de 1500, poucas semanas depois de ter deixado a costa brasileira rumo a Leste, uma tempestade violenta apanhou a frota no Atlântico Sul. A nau de Bartolomeu Dias naufragou. O navegador morreu afogado.
Perto do Cabo das Tormentas.
O cabo que ele próprio tinha descoberto, baptizado e visto renomear matou-o exatamente da forma que o primeiro nome previa. Havia naquelas águas, desde o início, a verdade que o rei não quis escrever.
IV. O Sangue que Continuou no Atlântico
A história de Bartolomeu Dias não termina com o naufrágio. Continua, de uma forma que a comunidade portuguesa no Brasil devia conhecer.
O seu neto, Paulo Dias de Novais, tornou-se um dos grandes colonizadores do século XVI. Em 1576, fundou a cidade de São Paulo de Luanda, a actual capital de Angola. Fechou assim o vértice africano de um triângulo atlântico que liga Portugal, Brasil e África: o avô abrira a rota do Sul; o neto construiu a cidade que viria a estar profundamente ligada ao fluxo humano, comercial e cultural que moldou a própria demografia do Brasil.
O sangue dos Dias correu pelo Atlântico durante gerações. E o Brasil é o reflexo definitivo desse ecossistema atlântico.
V. Porquê Cabral e Não Dias?
A resposta é simples e um pouco triste: porque Cabral voltou e Bartolomeu Dias não.
Cabral completou a viagem à Índia, regressou a Lisboa carregado de especiarias e de glória, e foi entrevistado pelos cronistas do reino. A sua versão da história tornou-se a versão oficial. A Carta de Pero Vaz de Caminha, a “certidão de batismo” do Brasil, foi escrita para Cabral, sobre Cabral, na presença de Cabral.
Bartolomeu Dias morreu a 29 de Maio de 1500, semanas depois de ter saído da Bahia. Não houve regresso. Não houve entrevistas. Não houve relatórios entregues à corte. A história pertence sempre a quem sobrevive para contá-la.
Mas os factos continuam lá, guardados nas crónicas que poucos lêem: embora tenham sido Nicolau Coelho a pisar a areia primeiro e o seu irmão Diogo a dançar com os nativos, foi Bartolomeu quem tornou a viagem possível. Foi ele o cérebro e a bússola que guiou a frota pelo Atlântico. E acabou por morrer no cabo que ele próprio tinha mapeado, provando que o mar guardava a fúria que o rei quis camuflar.
VI. Uma Palavra para a Comunidade Portuguesa no Brasil
Caros leitores do Mundo Lusíada
Vocês vivem numa terra que um homem chamado Bartolomeu Dias ajudou a desbravar e cujas praias também pisou. Vivem num país cuja história começa, em parte, com os passos dele e dos seus homens na areia de uma praia da Bahia, com a música do gaiteiro do irmão Diogo, com a dança inesperada entre dois mundos que ainda não sabiam que existiam um para o outro.
A comunidade portuguesa no Brasil não é apenas a continuação de uma emigração. É a continuação de uma história muito mais antiga, uma que começou não com a colonização, mas com a curiosidade. Com a vontade de chegar à praia e ver o que havia do outro lado. Com a disposição de dançar antes de falar, de estender a mão antes de erguer a bandeira.
Bartolomeu Dias morreu sem saber o que o Brasil se tornaria no futuro. Morreu sabendo apenas que tinha tocado algo novo, que tinha pisado uma terra que não estava em nenhum mapa, e que a música a bordo da sua frota tinha feito duas culturas moverem-se juntas por um momento.
526 anos depois, a dança continua. Vocês são a prova disso.
Honrem este homem que a história oficial tantas vezes deixa na sombra em relação ao Brasil. Porque ele não esqueceu o Atlântico, foi apenas o tempo que, por momentos, o deixou esquecido.
Nuno Nabais Freire
Investigador Patrimonial Cultural | Especialista em Dinâmicas de Inovação Territorial , para o Mundo Lusíada




