O Homem Cujas Empresas Valiam Mais do Que um Império… Visconde de Mauá

Exposição “Império em Brasília: 190 anos da Assembleia Constituinte de 1923”, com pinturas, esculturas, objetos decorativos, armas, e manuscritos da época do Império que pertencem ao Museu Imperial de Petrópolis (RJ). Foto divulgação/ Agencia Senado

Por Nuno Nabais Freire

Há homens ricos.

Há homens poderosos.

E depois há aqueles casos raríssimos em que um único homem chega a pesar mais do que o próprio Estado onde vive.

Elon Musk é hoje o homem mais rico do planeta. A sua fortuna conta-se em centenas de milhares de milhões de dólares, uma riqueza sem precedentes na história recente. Ainda assim, representa apenas uma pequena fração da economia norte-americana. Um país continua a valer incomparavelmente mais do que qualquer empresário.

Mas houve um homem que, proporcionalmente, conseguiu algo ainda mais extraordinário.

Chamava-se Irineu Evangelista de Sousa.

A História conhece-o pelo título que receberia mais tarde: Visconde de Mauá.

Poucos sabem, porém, que a sua história começou graças a um comerciante português.

O rapaz que começou como caixeiro

Irineu nasceu em 1813, no Rio Grande do Sul. O pai morreu quando ele ainda era criança e acabou entregue aos cuidados de um tio, capitão da marinha mercante, que o levou para o Rio de Janeiro.

Foi aí que começou a trabalhar como simples caixeiro numa casa comercial pertencente ao português João Rodrigues Pereira de Almeida, mais tarde Barão de Ubá.

O negócio acabaria por falir.

Mas o jovem Irineu aprendeu ali algo que nunca esqueceria: disciplina, rigor e a importância da confiança nos negócios.

Seriam essas qualidades que moldariam um dos maiores empresários da História da América Latina.

Quando um empresário valia mais do que um império

Décadas depois, Mauá transformara-se no maior industrial e banqueiro do Brasil.

Por volta de 1867, o valor consolidado das suas empresas ascendia a cerca de 115 mil contos de réis.

Nesse mesmo ano, todo o orçamento anual do Império do Brasil rondava os 97 mil contos.

Um único empresário controlava um património superior ao orçamento de um dos maiores países do mundo.

Os historiadores estimam que essa fortuna corresponderia hoje a cerca de 60 mil milhões de dólares.

É um valor muito inferior ao património de Elon Musk.

Mas a comparação relevante não é absoluta.

É proporcional.

Pouquíssimos empresários, em toda a História, tiveram um peso económico tão grande no seu próprio país como Mauá teve no Brasil do século XIX.

O projeto que o ligou para sempre a Portugal

Curiosamente, foi um projeto ligado diretamente a Portugal que lhe valeu o título mais elevado da sua vida.

Desde meados do século XIX, existia o sonho de ligar o Brasil à Europa através de um cabo telegráfico submarino.

Seria uma revolução.

As mensagens deixariam de demorar semanas para atravessar o Atlântico.

Passariam a chegar em minutos.

Depois de várias tentativas falhadas, o governo imperial confiou essa missão a Mauá.

O investimento era gigantesco.

Percebendo os riscos financeiros, associou-se ao empresário escocês John Pender, especialista neste tipo de infraestruturas.

Finalmente, em 22 de junho de 1874, o cabo ficou concluído, ligando Recife a Carcavelos, passando por Cabo Verde e pela Madeira.

Nesse dia, Brasil e Europa deixaram de estar separados por semanas de navegação.

Passaram a estar separados apenas pelo tempo necessário para uma mensagem atravessar um fio submerso no Atlântico.

Como reconhecimento por esse feito, D. Pedro II elevou Irineu Evangelista de Sousa ao título de Visconde de Mauá.

Existe, porém, uma curiosa ironia histórica.

Mauá não possuía sequer ações da companhia que concluiu a obra.

Não enriqueceu com aquele cabo.

Recebeu algo que considerava mais importante: o reconhecimento público.

Dezassete empresas. Um só homem.

Ao longo da vida chegou a administrar dezassete empresas em simultâneo.

Num tempo sem computadores, sem folhas de cálculo, sem telemóveis e sem correio eletrónico, conhecia pessoalmente a situação financeira de cada uma delas.

Foi responsável pela primeira ferrovia brasileira, pelo primeiro grande estaleiro naval do país, pela iluminação pública a gás do Rio de Janeiro, pela navegação a vapor na Amazónia e por um banco com operações em Londres, Nova Iorque, Montevideu e Buenos Aires.

Foi um dos principais impulsionadores da industrialização brasileira.

Defendeu publicamente o fim da escravatura, embora investigações históricas mais recentes revelem que algumas sociedades comerciais em que participou estiveram ligadas, de forma indireta, a negócios relacionados com o tráfico de escravos — uma contradição que os historiadores atuais não procuram esconder.

A queda

Nenhum império económico é invulnerável.

Ao concentrar grande parte dos seus negócios no Banco Mauá, MacGregor & Companhia, tornou-se excessivamente dependente de uma única estrutura financeira.

A Guerra do Paraguai, a perda de privilégios comerciais, decisões políticas desfavoráveis e sucessivas dificuldades económicas acabaram por provocar a queda do grupo.

Em 1875 entrou em moratória.

Dois anos depois, os seus negócios faliram.

Poderia ter fugido.

Não fugiu.

Passou os últimos anos da vida a liquidar, uma a uma, todas as dívidas.

Quando morreu, em Petrópolis, a 21 de outubro de 1889, aos 76 anos, deixara tudo pago.

Não morreu milionário.

Morreu com algo que considerava mais valioso.

A honra de não dever nada a ninguém.

Um legado quase esquecido

Hoje, Mauá é lembrado no Brasil como o pai da industrialização.

O seu nome baptiza escolas, avenidas, instituições e permanece associado ao nascimento da economia moderna brasileira.

Poucos portugueses sabem, contudo, que um dos momentos mais importantes dessa história aconteceu junto à costa portuguesa.

Foi numa praia de Carcavelos que o Atlântico deixou de separar dois continentes e passou, pela primeira vez, a uni-los através da tecnologia.

Às vezes, a História esconde-se precisamente onde menos esperamos.

E um dos maiores empresários que o mundo conheceu deve parte da sua grandeza a um comerciante português, a um cabo submarino e a uma praia nos arredores de Lisboa.

Talvez seja essa a verdadeira medida de um grande empresário. Não a fortuna que acumula, mas o país que ajuda a construir. Porque o dinheiro desaparece, as empresas fecham e os impérios caem. O que permanece é aquilo que uma geração deixa à seguinte. Mauá perdeu quase tudo o que possuía.

Mas deixou ao Brasil algo que nenhuma falência conseguiu levar: a ideia de que um país pode crescer quando alguém tem a coragem de imaginar o futuro antes dos outros.

Nuno Nabais Freire

Investigador Patrimonial Cultural | Especialista em Dinâmicas de Inovação Territorial , para o Mundo Lusíada

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