O ministro da Administração Interna, Luís Neves, garantiu neste dia 29 que se sente apoiado pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro, e que nunca pensou demitir-se na sequência das polémicas das últimas semanas.
“Sinto-me absolutamente apoiado pelo senhor primeiro-ministro e por todos os membros do Governo com quem tenho falado e interagido”, afirmou, em conferência de imprensa, Luís Neves, sublinhando que nunca pensou em apresentar um pedido de demissão a Luís Montenegro na sequência das informações que têm vindo a público sobre as obras realizadas num terreno seu no Alentejo e do atrelado encontrado na propriedade do construtor que lhe fez as obras em Odemira.
A garantia de Luís Neves foi dada no Ministério da Administração Interna, em Lisboa, com a presença na sala dos seus três secretários de Estado.
O governante assegurou ainda que continuará a cumprir a missão de tutelar a área da Administração Interna, “para a qual está totalmente legitimado e empoderado”.
“Tenho mais de 30 anos de serviço público, nunca trabalhei para interesses particulares. Trabalhei sempre e apenas para o Estado, para as pessoas, para o país. […] Agi sempre na minha vida com total independência e sentido de dever. Nunca utilizei cargos públicos para beneficiar quem quer que fosse e rejeito qualquer insinuação nesse sentido”, defendeu Luís Neves.
“Sei o que é certo e errado. Nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do bem”, frisou.
Questionado sobre a comissão parlamentar de inquérito proposta pelo Chega aos seus mandatos à frente da PJ, o ministro da Administração Interna congratulou-se com “todos os momentos que existam para que seja esclarecida alguma dúvida” e recordou que sempre esteve disponível para responder a tudo, mas alertou que “há o reverso da medalha”.
“O que querem ver? Como conseguimos passar de 105 milhões para quase 400 milhões [de orçamento], as aquisições que fizemos, os meios humanos que pusemos, os valores que o pessoal da Polícia Judiciária hoje ganha? Ou querem sindicar os meus mandados de detenção, que eu prendi ao longo da vida milhares de bandidos a sério, violadores, raptores, homicidas, portugueses, estrangeiros?”, questionou Luís Neves.
Alentejo
O ministro da Administração Interna assegurou hoje que não sabia que a sua propriedade no Alentejo, com um tanque transformado em piscina, se situa em área protegida, tendo já pedido à autarquia uma reunião para regularizar a situação.
O jornal Nascer do Sol noticiou, ao longo das últimas três semanas, que o antigo diretor da Polícia Judiciária (PJ) construiu num monte (quinta) no concelho de Odemira, integrado em área de Reserva Agrícola Nacional e Reserva Ecológica Nacional, uma piscina, inicialmente classificada por Luís Neves como um tanque, sem licenciamento.
Hoje, Luís Neves defendeu, exibindo numa conferência da imprensa uma fotografia antiga da propriedade, que a construção inicial era um “tanque acima do solo”, que “depois acabou por ser transformado em piscina”, obra para qual admitiu não ter pedido licenciamento.
O governante acrescentou que desconhecia que a propriedade está situada em área protegida.
“Com humildade, já solicitei à Câmara Municipal de Odemira uma reunião com caráter de urgência para esclarecer e regularizar a situação. Se algo tiver de ser regularizado, será”, afirmou, no Ministério da Administração Interna, em Lisboa.
A obra foi feita pela Construbarcelos, uma empresa que realizou várias empreitadas em edifícios da PJ enquanto o ministro foi diretor nacional desta instituição, entre junho de 2018 e fevereiro de 2026.
Insistindo que só conheceu o dono da empresa sediada em Barcelos em 2023, já depois de este ter realizado várias obras para a PJ, Luís Neves sustentou que, embora a relação contratual possa suscitar dúvidas, nunca existiu qualquer favorecimento.
“A Construbarcelos nunca teve peso determinante ou sequer relevante na contratação da Polícia Judiciária”, alegou o ministro, precisando que o valor dos contratos celebrados entre 2019 e 2025 entre a força policial e a construtora “representaram apenas 8%” do valor global de 27 milhões de euros adjudicados por aquela instituição no mesmo período.
“Depois de conhecer o senhor João Carvalho, esta empresa representou apenas cerca de 4% do valor das empreitadas contratadas pela instituição, obras complementares a contratos que já se encontravam em execução”, frisou.
No total, Luís Neves terá pago em numerário pelas obras no monte, em “10 a 12 fins de semana, cinco mil euros de forma faseada”, dos quais, reiterou, foram passadas faturas no Portal das Finanças.
Partidos
Com críticas de diferentes partidos, o secretário-geral do PS defendeu que o ministro deve ir ao Parlamento “tão breve quanto possível”, mas que os socialistas se opõem à constituição de uma comissão de inquérito às polêmicas.
O secretário-geral do PS disse que num encontro com o primeiro-ministro, Montenegro deu alguns esclarecimentos mas que estes “não dispensam que o ministro da Administração Interna” responda aos deputados na Assembleia da República.
“Manifestei a nossa divergência profunda com a AD e com os partidos que inviabilizaram que o ministro da Administração Interna fosse ouvido na Assembleia da República no seguimento da proposta feita pela IL”, sublinhou, acrescentando que Luís Neves “deve ser ouvido tão breve quanto possível” no Parlamento.
Para Carneiro, o caso tem três dimensões que precisam de esclarecimentos: as “construções irregulares em Reserva Ecológica Nacional (REN) e Reserva Agrícola Nacional (RAN)”, a não entrega da Declaração Única de Rendimentos à Entidade para a Transparência quando estava à frente da Polícia Judiciária (PJ), e as “questões relacionadas com a remoção de prova de crime que está em apreciação pelas autoridades judiciárias”.
A presidente da Iniciativa Liberal considerou que Luís Neves está sem condições de confiança política e sem autoridade para desempenhar as funções de ministro. A líder liberal classificou como “surreal” o teor dessa conferência de imprensa e disse ter chegado à conclusão que o ministro não tem condições políticas para se manter em funções no Governo.
“Não tem sequer adequação para o cargo que ocupa, não tem autoridade, não tem confiança e não tem responsabilidade necessária para ocupar o cargo que ocupa. A situação é grave e, por isso mesmo, a IL já na terça-feira tinha solicitado uma audiência ao Presidente da República. Uma audiência que, obviamente, se torna cada vez mais urgente, porque está em causa o bom nome e o bom funcionamento das instituições”, sustentou.
Mariana Leitão interrogou-se também como um ex-diretor nacional da PJ como Luís Neves “pode alegar desconhecimento da lei.




