Incêndios: Turismo com “cancelamentos massivos” aguarda medidas de apoio

Passadiços do Paiva, na freguesia de Espiunca, destruídos pelo incêndio que lavra desde segunda feira, em Arouca, 30 de Julho de 2025. No ano passado, um incêndio já tinha destruído parte dos passadiços, e só voltaram a abrir em abril deste ano, sendo uma das mais importantes infraestruturas turísticas do concelho atraindo milhares de visitantes todos os anos. ESTELA SILVA/LUSA

 Os incêndios que afetaram o país levaram a “cancelamentos massivos” de reservas em hotéis, alojamentos e restaurantes, em plena época alta, ameaçando comprometer os resultados de 2025, disse hoje à Lusa a AHRESP, que aguarda medidas de apoio ao setor.

“Para já, sabemos que muitos negócios ficaram inoperacionais, não por terem sido fisicamente atingidos pelas chamas, mas por vários fatores”, como “cancelamentos massivos de reservas, que deixaram hotéis, alojamentos e restaurantes praticamente sem clientes”, avançou a secretária-geral da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), Ana Jacinto, em resposta escrita enviada à Lusa.

Adicionalmente, os incêndios que afetaram sobretudo as regiões Norte e Centro do país causaram “falhas graves nas comunicações fixas e móveis, que impediram a realização de reservas, pagamentos, contactos com fornecedores e até o cumprimento de requisitos básicos de segurança”, bem como encerramentos forçados por despacho de Situação de Alerta, que interditaram o acesso a zonas florestais, afetando empresas situadas fora do perímetro direto dos incêndios.

A associação adiantou que “já teve oportunidade de apresentar as suas propostas ao Governo e aguarda a concretização das medidas de apoio para o turismo”, lembrando que nos territórios de baixa densidade, onde estes incêndios mais se fizeram sentir, o verão é uma época crucial para o exercício económico anual.

“O mês de agosto, tradicionalmente com taxas de ocupação próximas dos 100%, registou quebras que atiraram essas taxas para níveis abaixo dos 5%”, realçou a AHRESP.

Desta forma, a associação apontou que não está apenas ameaçado o exercício económico de 2025, mas também “a atratividade futura de destinos já de si frágeis”, sendo, por isso, urgente a reconstrução daqueles territórios.

“Sem floresta não há paisagem, nem turismo, nem futuro para estas regiões”, salientou Ana Jacinto, considerando ser “fundamental restituir a perceção de segurança e envidar todos os esforços para que a mancha verde, que dá identidade e vida a estes territórios, seja regenerada o quanto antes”.

Portugal continental foi afetado por múltiplos incêndios rurais de grande dimensão em julho e agosto, sobretudo nas regiões Norte e Centro.

Os fogos provocaram quatro mortos, incluindo um bombeiro, e vários feridos, alguns com gravidade, e destruíram total ou parcialmente casas de primeira e segunda habitação, bem como explorações agrícolas e pecuárias e área florestal.

Segundo dados oficiais provisórios, até 23 de agosto arderam cerca de 250 mil hectares no país, mais de 57 mil dos quais só no incêndio que teve início em Arganil.

Apoios suficientes

O presidente da Associação do Alojamento Local em Portugal disse hoje que os operadores afetados pelos incêndios rurais estão a fazer o levantamento dos danos, sendo ainda cedo para saber se as medidas de apoio do Governo serão suficientes.

Em declarações à agência Lusa, o presidente da ALEP – Associação do Alojamento Local em Portugal, Eduardo Miranda, manifestou preocupação com o impacto dos incêndios que afetaram durante semanas várias zonas do país, com impacto no alojamento local e no turismo em geral.

“Para já temos de fazer um levantamento dos danos e saber se as perdas são as imediatas, estruturais ou se tem a ver com a perda da capacidade de gerar rendimento por falta de atratividade da própria zona destino”, salientou.

Eduardo Miranda lembrou que muitos destes operadores oferecem turismo de natureza, que ficou comprometido pelo impacto das chamas.

“A natureza é o grande atrativo. O problema é que a recuperação demora. O alojamento local e as empresas turísticas viviam de passeios ou da beleza do local. As pessoas iam descansar e ver o verde e não um vale queimado. É preciso outro apoio para os operadores a pensar não só na tesouraria, mas como é que eles desenvolvem alternativas. De qualquer forma é cedo para fazer esta avaliação, as pessoas ainda estão a recuperar do susto”, disse.

O diploma do Governo que estabelece medidas de apoio e mitigação do impacto de incêndios rurais entrou em vigor na segunda-feira, com efeitos retroativos a 01 de julho, de acordo com o texto publicado no domingo em Diário da República.

Entre as medidas está previsto o financiamento de equipamentos sociais, apoios a infraestruturas e a habitações legalizadas urbanisticamente ou suscetíveis de legalização, até 250 mil euros.

São criadas linhas e sistemas de apoio a empresas, assim como à “regeneração, valorização turística e promoção dos territórios atingidos pelos incêndios, destinada a financiar entidades públicas e entidades privadas sem fins lucrativos”, medidas de restabelecimento do potencial produtivo agrícola e apoio a produtores pecuários e apicultores.

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