O líder da IL acusou na segunda-feira o partido Chega de “desespero total” ao admitir propor uma comissão de inquérito à empresa Spinumviva, detida pela mulher e filhos do primeiro-ministro, apesar de considerar que este deve dar mais explicações.
Em declarações aos jornalistas após se ter reunido com o conselho de administração cessante do Hospital Amadora-Sintra, em Lisboa, Rui Rocha foi questionado sobre o fato de o líder do Chega, André Ventura, ter admitido avançar com uma comissão parlamentar de inquérito à empresa detida pela mulher e filhos de Luís Montenegro, caso o primeiro-ministro não esclareça um conjunto de questões.
“É o desespero total. (…) Lançar, de forma indiscriminada, mão de todos os instrumentos – dos que não se aplicam, dos que não fazem sentido, dos que vão muito para lá daquilo que é razoável – é o desespero total do Chega”, respondeu o líder da IL.
Rui Rocha considerou que André Ventura está a recorrer a esses instrumentos parlamentares “para desviar atenções dos enormes problemas que o Chega tem enfrentado devido às pessoas que estão, quer na sua bancada, quer nos diferentes órgãos e posições que o Chega tem no país”.
No entanto, apesar destas críticas a uma eventual proposta para a constituição de uma comissão de inquérito, o líder da IL considerou que o primeiro-ministro tem de dar mais explicações sobre a empresa, defendendo que toda esta situação “representa um cartão amarelo a Luís Montenegro” e pode traduzir-se em conflito de interesses.
“Vamos imaginar que um dos clientes dessa empresa – que só existe porque Luís Montenegro estava à frente dela, não vamos dizer o contrário – é uma empresa de armamento. Nos dias que correm, isso é possível. É aceitável que a empresa familiar do primeiro-ministro preste serviço a empresas de armamento e que depois o Governo português tenha de decidir em matéria de defesa?”, perguntou.
O líder da IL acrescentou ainda que, do que tem sido divulgado, a Solverde é um dos clientes da empresa de Montenegro, frisando que isso poderá também criar uma situação de conflito de interesses para o Governo, tendo em conta que a Solverde “vai ser provavelmente candidata à renovação da concessão do jogo” de casino.
Rocha defendeu que Montenegro deve dar explicações não só sobre a atividade da Spinumviva entre 2021 e 2023, quando ainda não era primeiro-ministro, mas sobretudo sobre 2024 e 2025, quando já liderava o Governo e a empresa continuou com a atividade.
Interrogado se a IL admite avançar com alguma iniciativa para obter esses esclarecimentos adicionais, Rui Rocha disse que o partido poderá enviar perguntas ao Governo, à semelhança do que já fizeram outras forças políticas, e inclusive questionar Montenegro sobre a matéria no próximo debate quinzenal, mas não irá transformar a questão num “circo político”.
“O Chega faz o que faz sempre: barulho e não contribui para a solução”, acusou.
Partido Socialista
Também o secretário-geral do PS recusou que uma comissão de inquérito seja o “instrumento adequado” para os esclarecimentos adicionais que o primeiro-ministro deve fazer sobre a “empresa familiar de âmbito imobiliário” de que foi sócio.
“Esse não é o instrumento adequado. O primeiro-ministro terá muitas oportunidades de acabar com o tema de uma vez por todas, esclarecendo quem são os clientes, que serviços foram prestados e qual o preço cobrado para que não reste nenhum tipo de dúvida e suspeição das razões das avenças da empresa”, afirmou Pedro Nuno Santos em Valença, distrito de Viana do Castelo.
Para o líder socialista, o tema da empresa de Montenegro “só vai desaparecer quando o primeiro-ministro lhe der o mesmo tratamento que deu às dívidas fiscais sobre a sua casa” e que foram abordadas numa conferência de imprensa.
“Dizia-se do governo anterior [PS] que era um governo de casos e casinhos. Este é um governo de casas e casinhas”, ironizou Pedro Nuno Santos.
O socialista considera “muito importante” que Luís Montenegro esclareça “de forma cabal todas as questões que têm sido colocadas” sobre a empresa de que foi sócio até junho de 2022 e que agora pertence à sua mulher e aos filhos.
Em declarações aos jornalistas, o secretário-geral alertou que “o problema da empresa do primeiro-ministro não tem nada a ver com a lei dos solos”.
Quanto às empresas de outros membros do governo, o líder do PS disse que “não sabe bem para que existem”.
“Fico sempre muito curioso para perceber qual a verdadeira atividade destas empresas, porque foram criadas e o que fazem”, indicou.
“No que diz respeito às empresas familiares de âmbito imobiliário, sou sincero: vou tentando perceber qual a razão para tantos membros do governo tenham uma empresas no setor imobiliário. Temos tanta falta de casas em Portugal e cinco membros do governo têm empresas familiares de âmbito imobiliário. Os portugueses até ficam com a ideia de que é uma coisa muito comum”, acrescentou.
Questionado sobre o fato de a ministra da Justiça ter afirmado que não tenciona desfazer-se das participações em quatro sociedades do ramo imobiliário, Pedro Nuno Santos criticou que diferentes membros do governo tenham posturas diferentes sobre o mesmo tema.
“A doutrina do governo sobre empresas imobiliárias é muito distinta. Temos um secretário de Estado que as criou depois de ter chegado ao governo e saiu do governo. Há um ministro da coesão territorial que entendeu que devia desfazer-se da sua sociedade. Há uma ministra que entende que não deve fazer nada”, constatou.
No dia 21 no Parlamento, o primeiro-ministro considerou que foi “além do exigível” nas suas explicações sobre a empresa da família e defendeu que expôs argumentos suficientes para que os portugueses confiem na sua integridade.
“Prestei todos os esclarecimentos, sinceramente, que é possível prestar e acho que fui muito mais além do que é exigível. Eu expus a minha vida pessoa, profissional e até familiar de uma forma que nunca vi ninguém fazer”, afirmou o chefe do executivo, no debate sobre a moção de censura ao Governo PSD/CDS-PP apresentada pelo Chega.




