O Conselho Nacional de Transição afirmou hoje que as próximas eleições vão decidir se a Guiné-Bissau continua a ser membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
A Guiné-Bissau está suspensa da CPLP desde o golpe militar de 26 de novembro de 2025, quando tinha a presidência da organização, que foi entregue a Timor-Leste.
O primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, anunciou, na segunda-feira, que o seu país será o próximo a dirigir a organização, explicando que a presidência atual corresponde ao período que estava destinado à Guiné-Bissau.
Os militares no poder na Guiné-Bissau reagiram hoje ao anúncio questionando “o duplo critério e jogos de bastidores” e a razão de a CPLP negar a presidência à Guiné Equatorial para a entregar a Timor-Leste.
“A resposta reside na subserviência a interesses que não os dos africanos“, consideram.
A discórdia em relação à próxima presidência da CPLP começou há um ano, na cimeira de chefes de Estado e de Governo realizada em Bissau, em que a Guiné-Bissau assumiu os comandos da organização e, pela primeira vez, Portugal não se fez representar ao mais alto nível.
Um bloco de países africanos apoia, enquanto países como Portugal e Timor-Leste se opõem à entrega da presidência da CPLP à Guiné Equatorial.
Depois do golpe militar, a CPLP foi a única organização de que a Guiné-Bissau é membro que ainda não enviou uma missão de bons ofícios ao país.
O Conselho Nacional de Transição fez saber hoje que quem vier a ganhar as próximas eleições gerais, marcadas para 06 de dezembro, “decidirá em nome do povo sobre a integração ou não definitiva nesta organização”.
Em comunicado divulgado pela imprensa guineense, o Conselho afirma que, “ao contrário de organizações maduras e inteligentes, como a francofonia, da qual a Guiné-Bissau é membro de pleno direito (…), a CPLP prefere agir com o complexo de chicote na mão, através de vias anti estatutárias ilegais”.
Os militares no poder manifestam o “mais violento e categórico repúdio face às declarações” recentes de Xanana Gusmão que consideram “insultuosas, paternalistas e eivadas de uma inadmissível soberba”.
“É vergonhoso e demonstra uma patética senilidade política que quem lidera uma organização meramente cultural a tente instrumentalizar com uma inquisição ou tribunal da tutela colonial”, referem no comunicado.
À semelhança do que já tinha feito anteriormente o Presidente deposto, Umaro Sissoco Embaló, o Conselho de Transição refere-se a Xanana Gusmão como “o rural” que se comporta como “um verdadeiro fazendeiro rústico e ignorante”.
“Que espécies deste calibre pretendam conduzir uma organização internacional é uma aberração que só tem cabimento no lixo político em que se tornou a CPLP”, acrescenta.
A atual Guiné-Bissau, continua, “recusa submeter-se a este clube de atrasados, não deseja o seu regresso a esta organização fantoche e avisa que irá realizar as suas eleições soberanas financiadas integralmente pelo seu próprio cofre de Estado”.
“Não precisamos de esmolas, tutela ou lições de moral da CPLP, muito menos de ´Xananas` ou de ´Ramos-Hortas`”, sublinha.
O Conselho Nacional de Transição lembra a Timor-Leste que beneficiou “diretamente da diplomacia guineense para lhes abrir portas na Ásia, na Associação das Nações do Sudeste Asiático (ANSA), uma organização sub-regional”, e afirma que países como “a Indonésia, a Malásia, Singapura, o Japão” nem sequer queriam ouvir falar de Timor-Leste.
“A Guiné-Bissau teve de intervir para lhes dar credibilidade internacional, quando não passavam de agricultores sem qualquer preparação para o poder do Estado”, aponta.
Os militares acrescentam, no comunicado, que a Guiné-Bissau ainda não explora o seu petróleo e tantos outros recursos e garantem que “brevemente isso acontecerá” e que “com a imensa riqueza natural prestes a ser plenamente dinamizada acabarão de vez estas faltas de respeito”.
*** A delegação da agência Lusa na Guiné-Bissau está suspensa desde agosto após a expulsão pelo Governo dos representantes dos órgãos de comunicação social portugueses. A cobertura está a ser assegurada à distância ***




