Da Redação com Lusa
A falta de recursos humanos preocupa hotéis e restaurantes do Alto Tâmega ao Douro que estão disponíveis para empregar refugiados ucranianos ajudando a mitigar um drama humanitário e uma lacuna do setor do turismo.
Reunidos em Chaves para lançar a edição de 2022 dos fins de semana gastronômicos do Porto e Norte de Portugal, que se estende até dezembro, representantes do setor apontaram as dificuldades sentidas na contratação de trabalhadores.
“Há bastante tempo que estamos a insistir na colocação de anúncios, no entanto, existe escassez de mão de obra qualificada aqui na região”, afirmou Cátia Videira, diretora comercial do hotel Forte São Francisco, em Chaves.
É nesta cidade que se localiza o quilômetro zero da Estrada Nacional 2 (EN2) e nos últimos dois anos aumentou significativamente o número de turistas que ali chega para percorrer a via até Faro.
Cátia Vieira disse que na unidade hoteleira há 27 colaboradores e que são necessários mais 10 para áreas como a recepção, cozinha, mesa e bar.
As perspectivas é que os visitantes aumentem nos próximos meses e, segundo a responsável, “era necessário integrá-los agora para estarem preparados no verão”.
Cátia Videira apontou a vontade de acolhimento dos refugiados ucranianos, embora ressalve preocupações relacionadas com a língua que poderão dificultar a integração.
Em Baião, junto ao rio Douro, António Costa tem o restaurante “Fonte Nova” onde trabalham 12 pessoas atualmente, um número que aumenta para 20 no verão. Aos fins de semana é ajudado por familiares.
Questionado sobre a disponibilidade para empregar ucranianos respondeu: “Claro que sim”.
Ligado à área da formação, António Costa disponibilizou-se também para ajudar a formar pessoas para o trabalho na restauração.
Luís Pedro Martins, presidente da entidade regional de Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP), referiu que a falta de recursos humanos é um problema que se alastra a todo o país.
Perante a disponibilidade demonstrada pelo setor, o responsável apelou aos associados para que façam o encaminhamento das vagas para o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), que é quem está a gerir esta questão.
E assim, acrescentou, sejam “encontradas soluções”.
“E essas soluções podem ser em diversas áreas, desde as tecnologias, marketing, limpeza, manutenção, restauração, cozinha, atendimento e são muitos, de facto, os lugares disponíveis e nós achamos que vamos conseguir desta forma também ajudar um povo que vive este grande flagelo”, frisou.
Quanto às queixas de que os salários neste setor são baixos, Luís Pedro Martins disse que “esta é uma oportunidade para se repensar esta questão”.
“É uma reflexão que compete a todos, entidades públicas e privadas com o grande objetivo que é o de reter talento”, salientou.
A edição de 2022 dos fins de semana gastronômicos vai prolongar-se até dezembro, tem cerca de 900 restaurantes aderentes, 500 unidades de alojamento e vão decorrer em 77 municípios.
É o regresso da iniciativa promovida pela TPNP, depois da pandemia de covid-19.
“O grande objetivo é divulgar a gastronomia que o Porto e Norte tem e também ajudar à recuperação de um setor bastante fustigado como foi o setor da restauração”, afirmou Luís Pedro Martins.
Para além disso, acrescentou, pretende-se também colmatar a sazonalidade e aumentar a estada média no território.
O presidente da Câmara de Chaves, Nuno Vaz, realçou a “enorme relevância” do turismo para este território e o “grande potencial de crescimento”.
“Esta rede que vai agregar um conjunto de municípios em volta da mesa é uma oportunidade para prender os turistas através dos nossos melhores produtos e, ao mesmo tempo, trazê-los para o território”, salientou Nuno Vaz.
Países no Douro
A falta de mão de obra no Douro levou a Quinta da Avessada, em Alijó, a contratar 15 refugiados e imigrantes de várias nacionalidades para reforçar a equipe que se prepara para o “ano da recuperação” do turismo.
Chegaram à aldeia vinhateira de Favaios provenientes do Bangladesh, Nepal, Senegal, Argentina, Brasil e Angola e já estão a trabalhar na Quinta da Avessada nos vários departamentos da unidade de enoturismo. Os restantes 25 trabalhadores são portugueses.
“Temos um subchefe de cozinha de Angola, um copeiro do Senegal, Nepal e Bangladesh em sala, no serviço à mesa e temos Bangladesh, Brasil e Argentina no turismo”, exemplificou o empresário Luís Barros à agência Lusa.
A falta de mão de obra no Douro, nos setores do turismo ou da viticultura, é um problema que se intensifica a cada ano. Luís Barros disse que a pandemia “ainda agravou mais” esta lacuna, já que muitos emigraram “para tentar sobreviver à desgraça que foi a covid-19”. A propriedade dispensou 20 funcionários durante o período pandêmico.
O empresário referiu que o processo de recrutamento foi acompanhado pelo Conselho Português para os Refugiados e a Segurança Social e explicou que, em alguns casos, foi ao país de origem buscar os novos trabalhadores, alguns com ensino superior e que falam fluentemente inglês, francês e espanhol.
A equipe da quinta é de 40 trabalhadores, no entanto, acrescentou, “há mais cinco vagas por preencher”.
Nesse sentido, Luís Barros disse estar de portas abertas para os refugiados ucranianos que estão a chegar a Portugal em consequência da invasão russa.
“Claro que sim, são muito bem-vindos. Temos as casas preparadas e equipadas para receber ucranianos”, frisou.
O empresário apontou que para além do ordenado base de 720 euros líquidos, os trabalhadores têm ainda direito a alimentação e a alojamento. Para o efeito, foram recuperadas duas casas na propriedade e arrendadas mais duas.
“Poucos são aqueles que querem trabalhar no Interior do país, muitos poucos, sobretudo numa localidade pequena como Favaios”, lamentou.
Localizada no concelho de Alijó, distrito de Vila Real, a Quinta da Avessada está preparada para receber grupos para refeições, provas e visitas à enoteca e tem capacidade para acolher até 350 pessoas em simultâneo.
A enoteca é um pequeno museu interativo alusivo à história e cultura da vinha e do vinho na região do Douro.
“Já estamos a preparar tudo para começar em abril com a força toda”, salientou Luís Barros, que disse ainda esperar que 2022 seja o ano do “recomeço do turismo”.
Os turistas são provenientes dos Estados Unidos da América (EUA), França, Inglaterra e Alemanha.
“Claro que há o receio da guerra, mas até agora os autocarros e navios estão todos reservados com a capacidade máxima. Agora, um ou outro cliente com receio da guerra poderá não vir”, observou.




