Algumas dezenas de educadores reuniram-se hoje em protesto contra a falta de condições de trabalho, junto à Escola Secundária de Caneças, arredores de Lisboa, contrariando o primeiro-ministro (PM), Luís Montenegro, quanto às alegadas falta de empenho ou mentalidade.
Pelas 08:00 horas e com a temperatura a rondar os 7º, foram chegando alunos, professores, assistentes e técnicos, todos em luta contra o vento cortante, rumo ao primeiro dia de aulas após a interrupção do ano letivo pelas festas de Natal e de Ano Novo.
“O senhor primeiro-ministro, na mensagem de Natal, falou que nós temos que ter a mentalidade do [futebolista internacional português] Cristiano Ronaldo. Além de estes profissionais fazerem um trabalho muito mais importante que o Cristiano Ronaldo. Eles, sim, têm a mentalidade do Cristiano Ronaldo”, disse à agência Lusa o coordenador interino do Sindicato de Todos os Profissionais da Educação (STOP), Daniel Martins.
O professor de informática referia-se ao recente discurso do líder do executivo da Aliança Democrática, que pediu aos portugueses para adotarem a postura do capitão da seleção lusa de futebol, cinco vezes eleito melhor jogador do Mundo, para assim contribuírem para economia nacional e a melhoria das próprias condições de vida.
“O Cristiano Ronaldo, quando saiu do (inglês) Manchester United, esta última vez, disse que o clube não tinha condições para dar aos jogadores. Para os ‘Cristianos Ronaldos’ das escolas cuidarem das nossas crianças, há que ter condições. Sem condições, a Escola Pública não é possível”, defendeu.
Para Daniel Martins, “as colegas” reunidas naquela manifestação, seguida de plenário, “são os ‘Cristianos Ronaldos’” dos filhos da população portuguesa, pois “tratam deles todos os dias e precisam de condições para o exercer”.
“A mentalidade está cá, faltam é as condições”, concluiu.
Outra dirigente do STOP presente, Mónica Duarte, afirmou que aquele protesto era o “retrato” do que se passa no “País todo”.
“Vira o ano e continuamos com o mesmo problema ou pior. Há colegas sobrecarregados, com baixa médica porque não aguentam mais, pessoas que se reformam e, cada vez mais, docentes, assistentes técnicos, técnicos superiores, são classes muito envelhecidas. Cada vez mais estas carreiras são menos atrativas. Está a ficar muito crítico”, disse.
Segundo Mónica Duarte, alguns funcionários, em muitas autarquias, “fazem o trabalho de três ou quatro pessoas, num universo de muitos alunos e recebem, no fim, uma miséria”.
“Ninguém está a pedir nada que não seja seu. Só melhores condições para fazer o trabalho, sermos respeitados e dignificados”, exigiu.
Ensino especial
Também hoje, pais, professores, diretores, funcionários e familiares de alunos de colégios privados de ensino especial estão a manifestar-se em Lisboa, para exigirem um reforço de verbas que garanta a escola a 500 crianças e jovens.
“Tempo a esgotar-se para 500 crianças”, “Não queremos as escolas a fechar, mas sim a funcionar” ou “Inclusão sem recursos é exclusão disfarçada” são algumas das mensagens escritas em cartazes pelas dezenas de pessoas que estão desde as 10:00 concentradas em frente ao Ministério da Educação, em Lisboa, num protesto marcado pelo som de buzinas.
Segundo o presidente da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular (AEEP), as escolas de ensino especial privado podem ter de encerrar em breve, deixando quase 500 crianças e jovens sem resposta, caso a tutela não atualize o valor atribuído por aluno.
Em causa está o futuro de cinco colégios da zona de Lisboa que foram a resposta para centenas de famílias que não encontraram solução na escola pública, como foi o caso da família Valente.
Presente na manifestação, Amílcar Valente contou à Lusa que o neto Gustavo começou por frequentar uma escola pública em Lisboa, onde foi vítima de ‘bullying’.
O rapaz, hoje com 15 anos, conseguiu uma vaga no colégio Bola de Neve e “tudo mudou”, contou o avô do menino com autismo.
No entanto, a verba de 651 euros por aluno atribuída pelo ministério mal chega para pagar salários e estes colégios “estão em rutura financeira”, acrescentou o presidente da AEEP, Rodrigo Queiroz e Melo, também presente no protesto.
“Os valores não são atualizados há vários anos. Recebem 651 euros, mas o valor não pode ser inferior a 1000 euros. Resultado: Quem está a pagar tudo isto são os funcionários, que não são aumentados”, disse à Lusa Rodrigo Queiroz e Melo.
Isabel Beirão, diretora do Colégio Eduardo Claparede, confirmou a difícil situação financeira que a sua escola atravessa, um dos cinco colégios em risco de fechar as portas.




