Em meio a debate na saúde, Portugal suspende uso de hidroxicloroquina e Brasil recomenda

Mundo Lusíada
Com agencias

A autoridade nacional do medicamento divulgou comunicado em Portugal recomendando a suspensão do tratamento com hidroxicloroquina em doentes com covid-19, em linha com a decisão da Organização Mundial de Saúde (OMS), depois da publicação de dados que colocam em causa a segurança e a eficácia deste químico.

Segundo a nota, “a cloroquina e hidroxicloroquina apresentaram resultados promissores em laboratório, por inibirem o SARS-COV-2 ‘in vitro’, parecendo a hidroxicloroquina ter uma atividade antiviral mais potente” tendo a utilização dos medicamentos sido preconizada por diversas linhas de orientação clínica internacionais.

Porém, após um estudo com mais de 90 mil doentes com covid-19, cujos resultados foram publicados na revista médica britânica The Lancet, a OMS decidiu suspender a inclusão de novos doentes em tratamento com hidroxicloroquina no ensaio clínico global Solidarity, que decorria em vários países e que em Portugal estava em fase de implementação ainda sem doentes incluídos.

Os autores do estudo dizem “não ter conseguido confirmar o benefício da hidroxicloroquina ou da cloroquina nestes doentes”, apontando um acréscimo de efeitos adversos potencialmente graves, incluindo “um aumento da mortalidade”, durante a hospitalização de doentes com covid-19.

As conclusões do estudo vão agora ser confirmadas através de ensaios clínicos aleatorizados e controlados, pelo que a suspensão da hidroxicloroquina será revista à luz da revisão do Comité de Monitorização da Segurança da OMS prevista para junho.

A recomendação do Infarmed e da DGS restringe ao uso deste medicamento apenas em doentes com covid-19, sublinhando-se que “os doentes que estavam a ser tratados com hidroxicloroquina para outras patologias, doenças autoimunes como lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide e malária, para as quais estas moléculas estão aprovadas, não devem interromper o seu tratamento”.

Cientistas contestam

Dezenas de cientistas publicaram uma carta aberta expressando preocupações sobre os métodos do estudo publicado na revista médica The Lancet que levou à suspensão de ensaios clínicos com hidroxicloroquina, ao qual apontam a ausência de “revisão ética”.

O impacto deste estudo “levou muitos pesquisadores em todo o mundo a examinar detalhadamente a publicação em questão”, escrevem os autores da carta aberta, publicada na quinta-feira à noite.

“Este exame detalhado levantou questões de metodologia e de integridade dos dados”, apontam os cientistas citados pela agência de notícias AFP, antes de fazerem uma lista de pontos que consideram problemáticos, desde a recusa dos autores em dar acesso total aos dados até à ausência de “revisão ética”.

Observando que a cobertura da mídia a este estudo causou “considerável preocupação entre pacientes e participantes” nos ensaios clínicos, os investigadores pedem que a OMS, ou outra instituição “independente e respeitada”, crie um grupo de trabalho para fazer uma análise independente aos resultados do estudo.

“Tenho sérias dúvidas sobre os benefícios de um tratamento com cloroquina/hidroxicloroquina para a covid-19 e mal posso esperar que essa história termine, mas acredito que a integridade da investigação não pode ser invocada apenas quando um artigo não vai na direção dos nossos preconceitos”, comentou no Twitter o professor François Balloux, da University College de Londres. Além disso, “foi com o coração pesado que adicionei o meu nome à carta aberta”, acrescentou.

120 cientistas médicos, pesquisadores e estatísticos de várias partes do mundo, em especial Itália, França, Espanha e Estados Unidos, de várias instituições médicas de renome, como a Harvard Medical School, o Imperial College London, Universidade Médica da Pensilvânia, Universidade Duke, estão entre os signatários, como o francês Philippe Parola, colaborador em Marselha de Didier Raoult, promotor francês da hidroxicloroquina que contribuiu amplamente para popularizar este tratamento.

No Brasil

O Ministério da Saúde brasileiro indicou que a tutela mantém a orientação para o uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da covid-19, ainda que a OMS tenha suspendido testes com o uso do fármaco no tratamento da doença, após a constatação do aumento dos riscos para a saúde dos pacientes.

“Estamos muito tranquilos e serenos quanto à orientação que dá autonomia para os médicos oferecerem esse tratamento a pacientes que assim desejarem”, disse a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Mayra Pinheiro.

Na semana passada, o Ministério da Saúde brasileiro divulgou um protocolo que autoriza a administração de cloroquina até para o tratamento de casos com sintomas leves de covid-19 no sistema público de saúde.

“A cloroquina é uma medicação de comprovada eficácia para a lúpus e algumas outras doenças crônicas autoimunes. Com a covid-19, vimos uma corrida muito grande às farmácias. Isto desabasteceu o mercado e muitas pessoas que já a utilizavam há anos acabaram ficando sem o remédio. Verificamos não só um aumento abusivo dos preços – principalmente nas farmácias de manipulação -, como uma maior dificuldade de encontrá-la. O que abre margens [para a venda irregular do produto]”, comentou coordenador-geral da Associação Brasileira Superando o Lúpus, Doenças Reumáticas e Raras (Superando), Carlos Eduardo Tenório ao admitir que teme o efeito que o eventual consumo de medicamentos de procedência duvidosa podem causar para quem usa a hidroxicloroquina de forma controlada.

O tema vem sendo objeto de debates no governo, entre autoridades de saúde e entre pesquisadores. O presidente Jair Bolsonaro já havia se pronunciado diversas vezes a favor do uso do medicamento. Os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich divergiam do presidente na questão do uso da cloroquina nos casos de covid-19.

Nas diversas pesquisas realizadas até agora, não há consenso sobre evidências científicas da eficácia da prescrição da substância.

Em nota à Agência Brasil, a Associação Médica Brasileira (AMB) avaliou que as diretrizes “permitem que, no âmbito do Sistema Único de Saúde, os pacientes ali assistidos disponham da mesma oferta de medicamentos, em todas as fases do tratamento, que os pacientes atendidos pelo setor privado já dispõem”. A entidade defende que as normas “preservam a responsabilidade e a autonomia do médico na avaliação da pertinência de utilização off-label de medicação prescrita há décadas em casos de malária e doenças autoimunes e cujos efeitos colaterais são limitados e amplamente conhecidos nos tratamentos citados, reiterando a necessidade de consentimento livre, esclarecido e informado por parte do paciente”.

Procuradores da República em São Paulo, Sergipe, Rio de Janeiro e Pernambuco recomendam a suspensão da nota com orientações para o medicamento em pacientes diagnosticados com covid-19. Os procuradores alertam  ainda para a falta de testes. De acordo com a nota informativa, apenas pacientes que testarem positivo para coronavírus devem ser tratados com cloroquina ou hidroxicloroquina, mas o plano de testagem nacional não é capaz de atender a demanda no início dos sintomas.

Enquanto isso, o governo brasileiro informou que o governo dos Estados Unidos entregou ao Brasil dois milhões de doses de hidroxicloroquina, “como demonstração da solidariedade” entre os dois países na luta contra o coronavírus. De acordo com nota do Ministério das Relações Exteriores de domingo, em breve, o país norte-americano também enviará mil ventiladores para o Brasil. “A HCQ [hidroxicloroquina] será usada como profilático para ajudar a defender enfermeiros, médicos e profissionais de saúde do Brasil contra o vírus. Ela também será utilizada no tratamento de brasileiros infectados”, diz a nota.

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